Adeus Pai

“Hollywood, tens cá disto?”: Adeus, Pai (1996)

Luís Filipe Rocha não é um nome muito falado, mesmo dentro de Portugal, apesar de manter uma filmografia consistente e ser um dos realizadores que surgiram após o 25 de abril, tendo procurado desde cedo abordar temas morais e sociais relativos ao estado do país durante e após o regime Salazarista. Adeus, Pai marcou uma passagem na sua filmografia para um maior foco na exploração social do presente, algo que continuaria com A Passagem da Noite e A Outra Margem.

A narrativa por si não se apresenta como sendo propriamente original, temos um pai que quer passar os seus últimos dias de vida numas férias com o seu filho, com um final que altera todo o significado do que tinha acontecido antes. As cenas entre pai e filho resultam surpreendentemente bem, e torna-se claro o tipo de pessoas que eles são através das suas interações iniciais.

Apresentar crianças realisticamente no cinema é algo que muitas vezes falha, pois é complicado arranjar-se um ator novo com a mesma habilidade de atuação que um adulto. Felizmente, Afonso Pimental faz um bom trabalho no papel de Filipe, tendo a complicada responsabilidade de funcionar como o centro de todo o filme. Nada é visto fora da perspetiva de Filipe.

João Lagarto interpreta Manuel, o pai ausente de Filipe, que decide passar os seus últimos momentos nos Açores com o filho que nunca realmente conheceu. Sendo um ator mais velho e não tendo tantas cenas como Pimental, esta interpretação não parece tão impressionante. No entanto, Lagarto demonstra talento para subtileza nas suas cenas com o filho, revelando a falta de habilidade da personagem em lidar com crianças, apesar de estar a tentar mudar essa situação. Manuel não consegue mentir ao seu filho para que a realidade pareça melhor, ele simplesmente não é esse tipo de pessoa.

Adeus Pai 5

Há ainda um sub-plot em que Filipe cria amizade com um rapaz engatatão de 14 anos (Pedro) e se apaixona pela irmã deste (Joana). Há umas quantas cenas engraçadas com Filipe, mas o romance com Joana não é muito interessante pois a personagem dela é completamente genérica e sem características próprias. Os diálogos entre eles não têm qualquer química, e consistem sempre nela a informá-lo sobre a sua vida. Mas, de certa forma, este romance não passa da idealização de uma criança de 13 anos, e nessa perspetiva até faz sentido.

A cinematografia é elegante, mas, infelizmente, a melhor qualidade do filme que se pode arranjar é numa versão de DVD, que parece ter sido transferida de um VHS, e apesar de haver um bom enquadramento de cenas e de cores, a qualidade da imagem em si não é muito elevada. Talvez uma transferência direta das bobines originais para uma qualidade como o Blu-Ray ajudasse a melhorar este aspeto.

Outro aspeto que merece ser mencionado é a música Não vou ficar dos Delfins, que complementa o filme e ajuda a que algumas cenas tenham maior emoção. A parte da letra “Não vou ficar sozinho – não quero ficar – sozinho” transmite todo o estado de espírito de Filipe durante a narrativa.

Adeus, Pai é a história de um filho que gostaria de ter um pai que quisesse ter um filho, e isto acaba por ter um maior significado no final do filme, quando ele toma uma rota inesperada e quebra algumas das “regras não-escritas” do que se deve ou não fazer num filme. Pode não demonstrar o melhor do cinema português, mas entretém e consegue lidar bem com os temas que se propõe trabalhar.

Ficha Técnica:
Realizador: Luís Filipe Rocha
Argumento: Luís Filipe Rocha
Elenco: Afonso Pimental, João Lagarto, Adriana Aboim e João Aboim
Duração: 81 minutos

6/10

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