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Créditos: Carlos Manuel Martins

André Oliveira: «Menos Conversa e mais BD»

André Oliveira tem-se tornado numa referência na argumentação de BD em Portugal. O Espalha-Factos falou com o argumentista e se numa primeira parte podemos descobrir quem é André Oliveira, nesta segunda parte fazemos uma viagem mais aprofundada sobre as suas obras.

Espalha-Factos (EF): Este ano o Volta – O Segredo do Vale das Sombras ganhou o prémio nacional de BD para Melhor Argumento para Álbum Português. Como foi criar algo durante quatro anos e ver esse trabalho reconhecido, um ano depois de ganhares o mesmo prémio com Hawk?

André Oliveira (AO): Foi completamente inesperado. Não só porque tinha ganho no ano anterior mas também porque os outros álbuns nomeados eram também muito bons. No entanto, de facto, tenho de respeitar todo o trabalho que eu e o André Caetano tivemos durante o tempo em que estivemos a concretizar a obra, desde a pesquisa à escrita do argumento, desde os esboços ao desenho, desde a arte final à legendagem. Dedicámo-nos muito a criar o ambiente, os cenários, as personagens, e penso que isso se sente no resultado final. De facto, é muito bom sentir reconhecimento relativamente a algo a que demos tanto. Mas, de qualquer forma, se o livro não tivesse ganho nada, também não perderia qualquer valor aos meus olhos. Continuaria a ter as virtudes e os defeitos que lhe reconheço.

EF: O que mais te divertiu criar neste álbum?

AO: Não foi um processo particularmente divertido… Aliás, tirando o Tiras do Baralho!, até hoje nenhum livro de BD que escrevi foi. No entanto, como disse, foi extremamente interessante e enriquecedor idealizar tudo o que teve a ver com as componentes da narrativa e acompanhar a realização do livro do princípio ao fim. Isto embora o álbum seja apenas a primeira parte de uma trilogia.

Tiras no Baralho!, editada por El Pep, ganhou Melhor Publicação de Humor
Tiras no Baralho!, editada por El Pep, ganhou Melhor Publicação de Humor 

EF: Como foi trabalhar com o André Caetano?

AO: O André, além de extremamente talentoso, é um ilustrador que privilegia o diálogo e a discussão em relação a todas as medidas a tomar no que diz respeito ao desenho. Tivemos inúmeras conversas via chat (ele mora perto de Coimbra e eu em Lisboa) sobre tudo o que tinha a ver com a representação visual da história, foi tudo pensado ao pormenor. Trabalhar com ele foi muito bom, sobretudo porque nunca deixou que nada na narrativa, nas suas personagens e cenários, fosse deixado ao acaso. Tem particular atenção ao detalhe e sem dúvida que a influência dele me ajudou a deixar menos pontas soltas ao longo do livro.

EF: Como é que surgem as parcerias com os ilustradores?

AO: Surgem de várias maneiras diferentes, cada caso é um caso. Às vezes são ilustradores que conheço, com quem já trabalhei, e surge a oportunidade e a vontade comum de fazermos algo juntos. Outras vezes, são desenhadores que não conheço pessoalmente mas cujo trabalho aprecio e por isso decido abordar. Mas também há situações em que são os próprios ilustradores a contactar-me, interessados em fazer banda desenhada com argumento meu. Isso aconteceu, por exemplo, com o Sérgio Marques com quem fiz uma BD curta no Casulo, publicado pela Kingpin.

“Num país em que a banda desenhada está inserida num nicho e em que dentro desse nicho a BD portuguesa é outro nicho… Julgo que qualquer iniciativa que traga algo de novo e de válido é sempre bem-vinda”

EF: Qual a importância de iniciativas como o Amadora BD – Festival Internacional de Banda Desenhada?

AO: Num país em que a banda desenhada está inserida num nicho e em que dentro desse nicho a BD portuguesa é outro nicho… Julgo que qualquer iniciativa que traga algo de novo e de válido é sempre bem-vinda. Quando falamos de um festival com a longevidade e com os feitos do Amadora BD então não é difícil concluir que se não existisse, tudo seria muito mais complicado para todos nós. Num mercado frágil e residual como o nosso, o Amadora BD é fundamental e aproxima as pessoas da banda desenhada, desmistificando clichés e mitos sem qualquer sentido no século em que vivemos e numa sociedade moderna e informada.

EF: Como tem sido participar no festival?

AO: É sempre muito bom rever amigos e ter contacto directo com os leitores. Vou tendo feedback ao meu trabalho, sobretudo por gente que me conhece pessoalmente, mas nem sempre essas impressões são imparciais, por muito que queiram. Durante os autógrafos muitas vezes me dizem coisas que me deixam a pensar e isso depois ajuda-me mais tarde. Participar no festival é sempre um prazer e é com agrado que sinto a minha participação crescer de ano para ano. Assumo sempre as minhas obrigações com agrado e responsabilidade porque acho que todos temos um papel a cumprir, para fazer de cada evento um espetáculo melhor do que o do ano anterior.

EF: Chegou a ver as exposições? Qual ou quais destaca?

AO: Gostei muito da minha, não só por ter os meus guiões todos integrais, qualquer pessoa podia analisá-los do princípio ao fim, mas também por deixar que estivessem representados dezenas de ilustradores. Acaba por ser uma exposição coletiva em que eu sou uma espécie de fio condutor. Esse caráter associativista, pode dizer-se, tem pautado o meu percurso e foi com agrado que o vi traduzido na exposição. De resto, gostei também, e sobretudo, da exposição de O Pugilista, com chancela da Polvo, de Reinhard Kleist,  de 1000 Tormentas, com chancela da Kingpin, de Tony Sandoval, da Zona de Desconforto da Chili com Carne e a mostra associada à Tertúlia de Lisboa. Todas elas estavam muitíssimo bem montadas e para a minha perceção ajuda também gostar bastante do conteúdo, no caso da Tertúlia talvez funcione mais uma certa nostalgia e ligação emocional.

Gentleman, de André Oliveira e Ricardo Reis, com chancela da Ave Rara
Gentleman, de André Oliveira e Ricardo Reis, com chancela da Ave Rara

EF: Acredita que o nicho da banda desenhada tem cada vez mais público?

AO: Acredito que está a melhorar um bocadinho. Este ano, no Amadora BD, senti grande entusiasmo em relação à produção nacional e aos autores portugueses. No entanto, esse “grande entusiasmo” é sempre avaliado à luz daquilo do que é, no nosso entender, o nosso mercado. Continua a ser pequeno, continua a ser residual, mas começamos a ter já alguns livros que contam com várias edições. Está bem que estamos a falar de uma média de quinhentos exemplares por edição, mas ainda assim… É uma evolução relativamente a um passado próximo. Portanto, sim, parece-me que está a haver um crescimento mas há ainda um longo caminho a percorrer com muita insistência e sacrifício. E isto falando apenas de Portugal, é lógico que o mercado maior e mais apetecível está lá fora. Mas só existe para quem consegue exportar o seu trabalho ou torná-lo universal.

“O trabalho traz a experiência e a experiência faz com que os resultados vão aparecendo cada vez com melhor qualidade. Não dá é para fazer pouco e querer muito em troca”

EF: Qual o seu próximo projeto?

AO: Em dezembro, tenciono começar a escrever o sexto número da série Living Will e o segundo volume do Volta. No entanto, tenho já mais coisas em andamento, é difícil saber que projeto será lançado a seguir. De qualquer forma, haja o que houver, está apontado ao Festival Internacional de BD de Beja, em junho do próximo ano.

Living Will VOL. 5, de André Oliveira e Joana Afonso
Living Will VOL. 5, de André Oliveira e Joana Afonso, com chancela da Ave Rara

EF: Algum conselho ou conselhos para novos argumentistas?

AO: Aquilo que está no meu blog e que tenho assumido como lei durante todo o meu percurso até aos dias de hoje: “Menos conversa e mais BD”. O trabalho traz a experiência e a experiência faz com que os resultados vão aparecendo cada vez com melhor qualidade. Não dá é para fazer pouco e querer muito em troca.

Podes seguir o seu trabalho através do seu blogue oficial, André Oliveira: Menos Conversa e Mais BD. É possível rever a retrospetiva completa da 26.ª edição do Amadora BD – Festival Internacional de Banda Desenhada aqui, assim como um artigo dedicado ao cosplay. Se és amante da nona arte, o Espalha-Factos sugere-te ainda Banda Desenhada: 6 sugestões a não perder, Autor do Mês: Astérix e a fuga de informação e Saga – Volume Um: “É assim que uma ideia se torna real”. Lê também a entrevista ao diretor do Amadora BD, Nelson Dona.

Créditos fotográficos: Carlos Manuel Martins

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