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Créditos: Carlos Manuel Martins

André Oliveira: «preciso de criar para me sentir vivo»

Espalha-Factos esteve à conversa com André Oliveira, uma das referências na argumentação de banda desenhada em Portugal. Esta é a primeira parte da entrevista em que o argumentista falou connosco sobre o seu percurso até à BD, as suas criações e sobre quem é André Oliveira.

Espalha-Factos (EF): Além de argumentista, quem é André Oliveira?

André Oliveira(AO): Na verdade, ser argumentista é apenas uma pequeníssima parte daquilo que penso que me define. Em primeiro lugar, sinto-me pai, marido, filho, neto, amigo, todas as posições que ocupo nas estruturas familiares e sociais que mais me importam, aquelas que julgo serem fundamentais para a vida e para a felicidade. Depois, aquilo que faço, a minha identidade criativa está imediatamente a seguir. Aí sim, enquadra-se a função de argumentista de banda desenhada, de copywriter, que é a minha profissão e principal fonte de rendimento, e de escritor para uma série de outros meios desde a animação aos textos literários. Acho que, fundamentalmente, preciso de criar para me sentir vivo. E talvez seja por isso que é raro estar confortável sem fazer nada.

“As crianças, quando se veem forçadas a entreter-se a si próprias, tornam o mundo envolvente exatamente naquilo que desejam e fazem os sonhos ganhar vida”

EF: Como surgiu a tua veia artística? Em criança já eras uma pessoa criativa?

AO: Creio que sim. Desde que me conheço que me vejo como criativo e isso pode estar ligado a uma série de fatores. Em primeiro lugar, há um lado inato que não pode, no meu entender, ser ignorado. Talvez tenha esta aptidão porque é algo que nasceu comigo. Tenho mais facilidade em ter ideias do que em fazer muitas outras coisas. Mas também sou filho único e isso obrigava-me a passar algum tempo sozinho e a pôr a imaginação a trabalhar. As crianças, quando se veem forçadas a entreter-se a si próprias, tornam o mundo envolvente exatamente naquilo que desejam e fazem os sonhos ganhar vida. Por isso, esta veia criativa também pode ter nascido mais por necessidade do que por qualquer outra coisa. Por fim, tive um avô que era mestre a contar histórias, com quem brincava muito e fazia um monte de coisas criativas. Isto e nunca ninguém na minha família me castrou ou me mostrou que ser criativo era ser inferior ou enveredar por um caminho sem futuro. Um destes fatores, ou um cocktail deles todos, ajudou-me, com certeza, a ser o que sou hoje.

EF: Formaste-te em Design de Comunicação. Alguma vez trabalhaste na área?

AO: Posso dizer que sim, mas sempre numa vertente temporária. Não acho que seja bom designer. Daí poderem perguntar-me porque fui eu tirar este curso… e seria uma pergunta perfeitamente legítima. A meio da licenciatura percebi que dificilmente seria bom a fazer aquilo, mas cativou-me o caráter subjetivo da mesma e o que estava por trás do trabalho gráfico. Ou seja, o depurar do raciocínio conceptual interessava-me muitíssimo. Talvez tenha sido por isso que fiquei até ao fim. Na realidade, gosto de estar na parte criativa e sinto-me mais à vontade a representar as minhas ideias através da escrita do que a materializá-las visualmente. Hoje, é exactamente isso que faço, como copywriter e como argumentista de BD.

EF: Nunca pensaste em ser ilustrador?

AO: Não. Quando era miúdo o meu principal talento era o desenho e era sempre através disso que me destacava. Mas, por alguma razão, não desenvolvi essa característica com o passar dos anos e, portanto, nunca pensei na ilustração como possibilidade profissional. Entretanto já fiz trabalhos pagos de ilustração , que na minha opinião nem ficaram muito mal, mas entendi-os como coisas pontuais porque não é isso que quero desenvolver e não é nisso que quero apostar. Além de mais, o meu estilo gráfico, apesar de eficaz em determinados contextos, é extremamente limitado. Basta esse handicap para nunca sequer pensar em ser profissional da área.

Algumas das suas obras

“A Ave Rara nasceu porque quis testar uma fórmula de produção e edição de BD em Portugal”

EF: Como nasceu a Ave Rara?

AO: A Ave Rara nasceu porque quis testar uma fórmula de produção e edição de BD em Portugal. Quis fazer livros curtos com um preço baixo, que permitissem que gente que não costuma comprar banda desenhada arriscasse um bocado e desse uma oportunidade. O facto de estar em inglês torna os comics um pouco mais universais e ajuda-me a divulgar o meu trabalho e o dos ilustradores que colaboram comigo em múltiplos contextos. Além disso, esta marca editorial, que não é nenhuma editora no verdadeiro sentido do termo, apesar de haver quem ainda ache que sim, é uma forma de eu poder controlar todo o processo com total liberdade. Gosto de trabalhar com os editores com que trabalho mas aqui não preciso de arranjar consensos com ninguém, pelo menos no que a decisões editoriais diz respeito. Isso, para mim, é absolutamente refrescante.

EF: Como argumentista, quais são as suas influências/inspirações?

AO: A vida real, acima de tudo. Podia dar o nome de vários autores, não só outros argumentistas de BD mas realizadores de cinema, atores, escritores, pensadores… Mas nada disso estaria absolutamente correto porque, ao termos contacto com a vida todos os dias, tudo nos influencia de alguma forma. Por isso, a resposta mais honesta será aquela que classifica o dia-a-dia, a minha família e amigos, o meu trabalho, os meus momentos sozinho a pensar, tudo isso, como as peças fundamentais sem as quais não teria material nenhum para criar. Isso e as memórias, se as deixarmos fermentar algum tempo, parece que adquirem qualidades mágicas quando as recordamos. Muitas vezes dão boas histórias, mesmo que envolvidas por uma manta narrativa absolutamente ficcional.

EF: Qual é a sua banda desenhada preferida e porquê?

AO: Nunca daria referências próprias, não me faz sentido por várias razões. Mas posso falar de outros livros de BD que me emocionaram ou entusiasmaram de alguma forma, a título de referência. Para manter isto dentro do contexto nacional (os estrangeiros já vendem o suficiente) posso falar em O Amor Infinito que te tenho e Outras Histórias, edições Polvo, de Paulo Monteiro, A Última Grande Sala de Cinema, do Círculo de Abuso, de David Soares e Tu és a Mulher da Minha Vida, Ela a Mulher dos meus Sonhos, edições Polvo, de Pedro Brito e João Fazenda. Três extraordinárias obras, muito diferentes, mas que são excelentes exemplos de produção nacional de banda desenhada. Livros bem escritos, bem ilustrados, bem pensados do princípio ao fim. Daqueles que deixam um estímulo grande nos leitores e criadores e que dão vontade de pôr mãos à obra e produzir coisas especiais.

“Julgo que quem se sentir intrigado sobre o que possa ter levado esta obra a ganhar um prémio, tem bom remédio: comprar e ler o livro”

EF: O Hawk ganhou o prémio nacional de BD de Melhor Argumento de Álbum Português. O que tem que o destaca?

AO: Não sou, nem de perto nem de longe, a pessoa indicada para responder a esta pergunta. Julgo que quem se sentir intrigado sobre o que possa ter levado esta obra a ganhar um prémio, tem bom remédio: comprar e ler o livro. Do feedback que tive de leitores apenas posso dizer que muita gente se identificou com a personagem principal e se emocionou com o decorrer da narrativa. No meu caso, essa é uma das melhores percepções que posso ter. Sentir que a história que escrevi tocou as pessoas de alguma forma.

EF: Como foi o processo de criação?

AO: O processo decorreu de uma forma muito orgânica, com as várias partes a darem contributos válidos e importantes para o resultado final. Comecei por escrever o guião e a enviar conjuntos de páginas ao Mário Freitas, editor da Kingpin, para ele ir acompanhando o processo. Quando acabei de escrever, o Osvaldo Medina entrou em cena e, após esboços iniciais, desenhou tudo de seguida. A legendagem do Mário e a pintura da Inês Falcão Ferreira tiveram início quando o Osvaldo levava um bom avanço em termos de desenho. Por isso, o livro foi feito sem percalços. Estava pronto dentro do tempo que assumimos como razoável e penso que agradou a todos. Foi um processo interessante até pela experiência, dado que foi o meu primeiro álbum de fundo.

É possível seguir o seu trabalho através do seu blogue oficial, André Oliveira: Menos Conversa e Mais BD. Lê aqui também a segunda parte da entrevista.

Revê a retrospetiva completa da 26.ª edição do Amadora BD – Festival Internacional de Banda Desenhada aqui, assim como um artigo dedicado ao cosplay. Se és amante da nona arte, o Espalha-Factos sugere-te ainda Banda Desenhada: 6 sugestões a não perder, Autor do Mês: Astérix e a fuga de informação e Saga – Volume Um: “É assim que uma ideia se torna real”. Lê também a entrevista ao diretor do Amadora BD, Nelson Dona.

Créditos fotográficos: Carlos Manuel Martins

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