O Espalha-Factos foi até ao Teatro José Lúcio da Silva (TJLS), em Leiria, para ver a tão aguardada peça Portátil do grupo brasileiro Porta dos Fundos. Não nos desiludiu e, por isso, contamos-te o que podes esperar dos quatro atores que apenas improvisam uma história. Uma coisa podemos já garantir: é rir do início ao fim.

À porta do Teatro José Lúcio da Silva, imensas pessoas esperam pelo início daquela que seria uma das peças mais aguardadas do mês. Entramos para a sala e encontramos um auditório completamente lotado. Estão lá para ver Gregorio Duvivier, Luis Lobianco, João Vicente e Gustavo Miranda em Portátil.

Rapidamente percebemos o quão conhecido é o grupo brasileiro, não só pela quantidade de pessoas que se dirigiu ao TJLS, mas também pelas sete datas em que este espetáculo vai estar em Portugal. Aparentemente, Portátil não tem dificuldade em esgotar salas, não tivesse também já esgotado o Theatro Circo, em Braga. O grupo garantiu-nos que tudo poderia acontecer durante os mais de 70 minutos da peça e não falhou.

A história da peça é sobre quem a vê

O cenário é simples: quatro cadeiras, um tapete branco e uma tela gigante. Os quatro elementos do grupo estão no palco e começam a contar-nos o que está a acontecer ali, o que já aconteceu e o que pode vir a acontecer. Dizem-nos que a história que ali se vai contar é sobre nós. Sim, nós, os espetadores. Perguntam-nos coisas, as mais variadas. Fazem-nos rir, e a história ainda nem começou. No meio das perguntas que nos fazem, questionam sobre quem se lembra da infância. Algures lá para trás, alguém levanta a mão e Gregorio Duvivier dirige-se até lá. Convidam esse espetador a partilhar uma história pessoal, fazem-lhe uma dúzia de perguntas, e a partir daí vimos quatro atores de comédia a inventarem, literalmente.

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Pedro, o jovem médico que contou a sua história, é agora a personagem principal desta peça, e é Luis Lobianco que assume o seu papel. Gustavo Miranda é pai de Pedro, enfermeira, criança, e umas outras tantas personagens que interpreta de uma maneira mais ou menos confusa, mas que muitas gargalhadas arranca a quem o ouve. Gregorio Duvivier é absolutamente genial nesta arte que é o improviso. O ator encarrega-se de fazer o papel de mãe, de patrão e de um dos filhos de Pedro (que atualmente não tem nenhum, mas que, segundo a improvisação, vai ter). Pelo meio, ainda consegue ser umas quantas mais personagens. João Vicente apropria-se da personagem da namorada e do outro filho de Pedro e de um ou outro papel secundário. O enredo torna-se mais complexo e já precisamos de alguma concentração para perceber tantas personagens diferentes.

O cenário nunca se altera, apenas de vez em quando aparecem títulos na grande tela para nos situarmos na história que improvisam. Os quatro atores multiplicam-se em personagens, procurando sempre manter uma coesão na história. Sendo de origem brasileira, é natural que desconheçam algumas das particularidades de Portugal, como a moeda ou mesmo algumas expressões. No meio das suas improvisações, dizem-nos com uma absoluta naturalidade que algo custa “quinze mil portugueses”, o que provoca um riso de morte entre quem assiste. No entanto, provam-nos que conhecem o melhor que o nosso país tem, isto porque, referindo-se à Nazaré, Duvivier diz: “um dia quero conhecer a maior onda do mundo”. O comentário anterior faz-nos bater palmas, muitas palmas.
Porta_dos_Fundos_High_Res003O grupo brasileiro constrói a sua peça segundo uma ordem cronológica, de forma a que podemos perceber os eventos que estão a retratar. Começam pela reconstrução do primeiro encontro entre os pais de Pedro. Depois, retratam o nascimento do jovem médico. Seguidamente, e já depois de tanto riso, improvisam cenas da infância de Pedro. O presente e o futuro também foram improvisados e, logicamente, inventados. Terminaram a peça com uma lembrança da infância do jovem, aquela que Pedro referiu logo no início de tudo isto.

Portátil vai ter sempre um episódio novo

O que retirar então de Portátil? Este foi um episódio que nunca se viu e não se vai repetir mais e, por isso mesmo, é muito mais que especial. É único! A combinação entre a história dos espetadores e a interpretação do grupo é absolutamente incomparável. Seja qual for a sessão de Portátil a que queiram assistir, e podem ainda encontrá-la em Coimbra, no dia 20, em Lisboa, no dia 21 e 22, e no Porto, no dia 23, uma coisa é certa: podem sempre esperar alguma coisa diferente, algo que nunca foi feito, nem nunca se vai voltar a fazer. Tudo pode acontecer numa peça destas, e nem tudo pode dar vontade de rir. Há emoções e pensamentos que saem cá para fora, fazem-nos pensar e isso é também um dos segredos do sucesso. Este espetáculo não é só para os amantes do Porta dos Fundos, é para todos aqueles que esperam o inesperado e, sobretudo, para quem gosta de rir às gargalhadas.

Fotografias de Márcio Menino