Não há nada como começar o fim-de-semana com um concerto. Exceto, talvez, começar o fim-de-semana com um bom concerto: foi o que Benjamim proporcionou aos portuenses na sexta-feira (18), com o Auto Rádio no coração e o Maus Hábitos como pano de fundo.

Ainda é cedo. Um palco modesto, instrumentos montados sem ninguém que os toque e algumas pessoas – poucas, para já – compõe uma das salas do Maus Hábitos, no Porto, numa normal noite de sexta-feira. Poucos saberão quem é Benjamim e o que é o Auto Rádio, outros terão comprado o bilhete na esperança de que o entretenimento valha a pena e outros não saberão aquilo para o que vieram, mas vão querer ficar.

Já não é cedo, aliás, passa já da hora, quando Benjamim e o seu fiel amigo António Vasconcelos se apoderam daquilo que lhes pertence: o palco. De cerveja na mão, preparam o concerto que cá os trouxe sob os olhares de um público um tanto ou quanto hesitante (ainda) e que se fixa, por enquanto, no fundo da sala. Passados cinco minutos, estão sentados no chão, perto do palco, cigarro na boca, copo na mão, música nos ouvidos, sorriso nos lábios.

Eu Quero Ser o Que Tu Quiseres é a frase que se repete e abre o concerto, uma canção que mesmo não sendo absolutamente extraordinária nos mostra o registo que Benjamim dará à noite. Ela manda em mim e eu mando no que ela quer – assim começa Tarrafal, uma das canções de ouro do álbum Auto Rádio e aquela que desperta o público para uma ligeira dança, tanta quanto o ritmo permite. Na primeira fila, há quem saiba a letra de cor e a complemente com a bela da cerveja.

Para quem não conhece, Benjamim (de seu verdadeiro nome Luís Nunes) é natural da vila de Alvito, que segundo o próprio “fica entre Évora e Beja, mesmo no meio”. Quem já conhece o artista, sabe que estas palavras introduzem uma das suas canções mais emblemáticas e com mais significado: O Quinito Foi para a Guiné conta a história do jovem português que abandonou a sua terra natal e que não viu o filho nascer, em prole da guerra e do amor pela pátria. O refrão fica inevitavelmente no ouvido e é cantado em coro por toda a sala.

Benjamim ‘verdadeiramente fixe’

Depois de nos presentear com uma das suas canções de intervenção – O SangueBenjamim faz-nos pequenas confissões. “Segundo as nossas contas, já demos 54. Este é o último, o número 54. É um prazer encerrar esta odisseia no Porto.” Apesar de os portuenses saberem o que valem, não há elogio que deixe de saber bem. Certo?

Auto Rádio, a canção que gentilmente dá nome ao álbum, proporciona o melhor momento da noite. Marcado pelo ritmo que cativa, pelos corpos que dançam, pela música que nunca mais acaba (no melhor sentido possível) e pela atmosfera – perdoem a banalidade do adjetivo – verdadeiramente fixe. Um pequeno aparte: não sei se o espetáculo de bateria incrível que se seguiu estava incluído no bilhete ou se foi brinde, mas é certo que o tivemos e que nesses instantes, António Vasconcelos teve todos os olhos postos em si e na sua mestria.

Fazemos uma ode ao Volkswagen Golf 96 de Benjamim com a canção do mesmo nome – Volkswagen – que nos acalma e deixa descansar um pouco, após um Auto Rádio elétrico. Nesta canção, há que parar para apreciar e valorizar a letra.

Vamos queimar gasóleo
Para a marginal,
Deixa que eu acelero.
Vamos trocar as voltas,
Eu ponho a mudança
E tu quebras o gelo.

 É nas tuas costas que eu venho
Rejuvenescer.
Disparamos tiros para o ar
Sem ninguém ver
Celebramos a união.

Misturamos português com inglês com Rosie, composta por Fausto Bordallo Dias e AP Braga há algum tempo, interpretada por Benjamim e António Vasconcelos nos dias de hoje, num dueto bonito. Por entre músicas e conversas com o público, muitas são as pausas para afinar a guitarra; mas não faz mal, porque “A afinação é uma coisa burguesa, já dizia o Zé Mário Branco” e todos perdoamos. Vale tudo a pena.

Sobrevivemos à reta final do concerto com Os Teus Passos, a canção mais “dançável” e com o teclado mais contagiante de todo o álbum, que nos faz sentir a própria batida dentro de nós. “Obrigada a todos por terem vindo e por terem ficado.” São palavras sinceras de um músico bem acolhido no Porto.

A próxima canção é sobre termos saudades de casa e quando voltamos, a nossa casa está em ruínas.” O Exílio é o tema que encerra a noite, num longo suspiro que anseia pela cidade de Lisboa (apesar de estar no Porto, mas não é problemático) e que nos traz a bela harmonia feita pelas duas vozes do palco.

 Cessam as notas musicais, a noite chegou ao fim. Calorosamente e à moda do Porto, Benjamim despede-se: “Agora vamos todos lá fora beber uma cerveja!”.

Fotografia: Luís Pereira