Há coisa de quatro anos menos dois meses, caía-nos do céu uma energética, talentosa e inescapavelmente encantadora nova artista, com um álbum que ainda se mostra bem presente no imaginário da indietronica corrente. É certo que já contávamos com dois registos de Grimes, mas foi à terceira que a intérprete de Vancouver deu o salto para o mainstream, perante o aplauso incessante dos fãs e da crítica.

De lá para cá, não se adivinhava difícil a vida de Claire Boucher, jovem, bonita e munida da recém encontrada fama. Adicione-se uma extensa tour internacional, algumas colaborações fortuitas, uma nova residência em Los Angeles e uns photoshoots de valor, e está encontrada a fórmula para o sucesso.

Mas a melhor notícia (ou pelo menos a mais promissora) sobre os paradeiros de Grimes enquanto não se editava mais música foi, paradoxalmente, a de que a cantora havia escrito e gravado um álbum inteiro para depois mandá-lo para o lixo. Podia significar que não ouviríamos mais de Claire por um tempo, mas mostrava também a dedicação que transparecia em Visions: a de uma artista que valoriza a própria arte e que, apesar do chamamento da fama, não se dá por contente e tenta retirar de si o máximo possível – uma artista, em suma, que sabe o que quer e recusa-se a apresentar menos. E foi assim que, com este sinal aparentemente claro de perfecionismo e perseverança, começaria a ser escrito do zero Art Angels, o disco que prometia elevar ao máximo expoente o legado deixado pelo seu predecessor de 2012. Para mal dos nossos pecados (ou dos dela), Art Angels não é nada que se assemelhe.

Não que o disco seja absoluta e irremediavelmente terrível, porque rotulá-lo de tal seria cometer uma injustiça perante todo o esforço investido na concretização deste conjunto de faixas, principalmente no que diz respeito à sua até bastante requintada produção. Longe vão, no entanto, os tempos das névoas ofuscadas e não raro conflituantes de som presentes em Visions, trocadas desta feita por uma abordagem pop muito mais directa e instantaneamente apelativa. Os vários tipos e formas de sintetizadores movem-se sempre fluidamente pelas faixas, com uma assertividade não muito diferente daquela trazida por Kevin Parker ao mais recente registo da sua banda. A abrangência de Grimes consegue ser, apesar disso, muito mais alargada, e apesar dos óbvios tropeços na instrumentação é logo na abertura de laughing and not being normal que se revela a ambição que procurávamos, com a inclusão de elementos tão díspares e eloquentemente orquestrados quanto cravos, xilofones, clarinetes, violinos e mesmo guitarras.

Os problemas começam quando, ao invés de aliar a sua farta instrumentação a este óbvio poder de orquestração para a criação de algo significativo e refrescante, Grimes decide assumir o seu ethos de Katy Perry e usá-los como enfeite para algumas das composições mais desinteressantemente comerciais que já gravou, repletas de motes vazios e nas quais a estrutura verso-refrão-verso parece nunca estar em demasia. Enquanto que Visions exibia progressões delicadas, melodias cíclicas e subversivas que lentamente revelavam a sua subtil beleza, este Art Angels contenta-se com a banalidade, composto por faixa atrás de faixa de mediocridade: Flesh Without Blood é a antítese de memorável, Easily vazia e desprovida de qualquer interesse maior, e Kill v. Maim é apenas plenamente irritante nas suas exageradas modulações vocais.

Até as influências trazidas à mesa ultrapassam a linha do cliché, com alguns sons emprestados do k-pop, do dubstep e do house de estádio a soarem abominavelmente – veja-se os sintetizadores pitbulescos que caíram na versão final de Realiti ou as guitarras ultra-genéricas em Pin – de tal forma que nem as participações teoricamente bem-vindas de Aristophanes e Janelle Monáe foram grande ajuda. A título de mérito,  o disco traz algumas boas faixas que contrastam com o pop pastilha elástica que por lá abunda, como a mais minimalista California ou a inventiva Belly of the Beat, mas o sumo que se retira, aliado ao desastre lírico de faixas como Artangels, Flesh Without Blood ou Pin, nunca poderia ser senão sensaborão, principalmente para quem entregou tão pouco depois de ter prometido tanto.

Nota final: 4/10