Hoje é o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Por isso, decidimos destacar quem dá a palavra, de um forma ou outra, por um mundo mais justo. 

Svetlana Aleksievitch, a jornalista corajosa

 “É assim que eu oiço e vejo o mundo: como um coro de vozes individuais e uma colagem dos detalhes do quotidiano. É assim que os meus olhos e ouvidos funcionam. (…) É assim que posso ser ao mesmo tempo escritora, repórter, socióloga, psicóloga e oradora”.

Em 2015, Svetlana Aleksievitch tornou-se a 14.ª mulher a receber o Nobel da Literatura. Segundo Sara Danius, secretária da academia, Svetlana apresenta uma “escrita polifónica, monumento ao sofrimento e à coragem na nossa época”.

Cedo descobriu o gosto pela escrita e foi ao jornalismo que dedicou grande parte da sua vida. E a sua obra reflete-o: Svetlana documenta nos seus livros, que sublinha não serem ficção, os relatos de sobreviventes de desastres como Chernobyl ou a Guerra Soviética no Afeganistão. De facto, é transversal à sua obra o retrato do indivíduo soviético e pós-soviético. É sobre ele que escreve em O Fim Do Homem Soviético, o único livro publicado em Portugal, e um retrato de centenas de testemunhas que viveram o regime. No seu blog, Svetlana diz que o que tenta captar não é apenas uma “história dos factos e eventos mas uma história dos sentimentos humanos. O que as pessoas pensaram, compreenderam e lembraram durante um acontecimento”.

Tendo sentido a repressão do regime comunista, Svetlana baseia-se também na sua experiência. O seu espírito crítico valeu-lhe a perseguição do regime ditatorial de Alexander Lukashenko, o que a obrigou a abandonar a Bielorrússia em 2000. Só aí pôde regressar 11 anos mais tarde.

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Raif Badawi, o blogger que confrontou a Arábia Saudita

“Todo este sofrimento cruel aconteceu-me a mim porque expressei a minha opinião”

Raif Badawi tem 31 anos e é ativista e blogger na Arábia Saudita…ou era, não estivesse preso desde 2012 por, segundo a acusação, ter “insultado o Islão através de canais eletrónicos”. O “crime” de Raif? Ter criado um site chamado Free Saudi Liberals, com o objetivo de discutir pacificamente política e religião. Desde então, foi acusado de apostasia e condenado a 10 anos de prisão e a 1000 chicotadas, que deveriam decorrer ao longo de 20 semanas. No início deste ano, Raif foi sujeito a 50 chicotadas, em público, e o estado de saúde ficou tão debilitado que as rondas seguintes tiveram de ser adiadas.

Segundo a Human Rights Watch, o site do autor agregava materiais que criticavam algumas figuras religiosas. Em 2012, a Amnistia Internacional considerou Raif um prisioneiro de consciência, “detido por exercer o seu direito a exprimir-se livremente”. De facto, os apelos internacionais têm sido vários: desde o uso da hashtag #JeSuisRaif por anónimos, a condenações de organismos, organizações e personalidades internacionais endereçadas ao Salman da Arábia Saudita. Também a mulher de RaifEnsaf Haidar, que obteve asilo político no Canadá, não tem desistido de levar a cabo uma campanha internacional pela libertação do marido, para que o seu caso não seja esquecido.

Raif venceu o Sakharov Prize for Freedom of Thought. O prémio é entregue a pessoas que tenham tido “uma contribuição excecional na luta pelos direitos humanos no mundo”.

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Domingo da Cruz, um escritor contra o regime

“Pegar em armas levaria à ditadura a agradecer, na medida em que teria legitimidade interna (…) Usar armas demonstra que somos igualmente selvagens como o ditador”

Um livro pode fazer tremer um regime e levar à detenção de 15 ativistas em Angola. Foi este o efeito de  Ferramentas para destruir o ditador e evitar nova ditadura – Filosofia Política da Libertação para Angola, de Domingos da Cruz.

Licenciado em Filosofia e Pedagogia e mestre em Ciências Jurídicas, o angolano Domingos da Cruz é autor de seis livros, nomeadamente de Quando a Guerra é Necessária e Urgente, que lhe valeu um processo-crime por alegação de incitamento à guerra e violência. Nesse livro, Domingos da Cruz defendia que quando um governante não satisfaz as necessidades de um povo, o povo tem o direito de o deitar abaixo. Mas é Ferramentas para destruir o ditador e evitar nova ditadura que está atualmente a agitar Angola. 15 ativistas estão a ser julgados por participarem em reuniões onde discutiam o futuro do país, as suas políticas e o governo de José Eduardo dos Santos. A base dessas reuniões era o livro de Domingos da Cruz.

O livro tem cerca de 168 técnicas e princípios de desobediência civil democrática e pacífica e servia de plano para terminar com o regime do Movimento Popular de Libertação de Angola. Este livro é uma adaptação de Da Ditadura para a Democracia: Como Derrubar uma Ditadura, de Gene Sharp, que foi publicado em 1993, na Tailândia, para ser distribuído entre os dissentes na antiga Birmânia. Entretanto já inspirou o combate pela democracia em Myanmar e da Primavera Árabe. A editora Tinta-da-China vai publicar a versão em português no próximo ano. Entretanto, o livro de Domingos da Cruz divulgado pelo jornalista e ativista Rafael Marques na internet.

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Kamel Daoud, ele colocou a questão do momento

“Na sua luta contra o terrorismo, o Ocidente declara guerra a um mas aperta a mão ao outro”

O escritor e jornalista Kamel Daoud nasceu na Algéria e este ano ganhou o o prémio Goncourt. Mas é o seu artigo Arábia Saudita, um ISIS bem-sucedido, publicado no New York Times, no dia 20 de novembro que está a dar que falar. No texto, o escritor fala do Ocidente como um “mecanismo de negação” que não olha a consequências. Para o escritor, enquanto isto estiver em funcionamento continuarão a nascer gerações de jihadistas. “Os ataques a Paris expuseram estas contradições outra vez, mas, tal como aconteceu depois do 11 de setembro, isso corre o risco de ser apagado das nossas análises e consciências”, escreveu Kamel Daoud para o jornal norte-americano.

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Malala, uma pequena grande voz pela educação

“Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo. A educação é a única solução.”

Malala Yousafzai foi até agora a pessoa mais nova a vencer o Prémio Nobel da Paz. Na sua atribuição esteve em jogo a sua defesa pelos direitos das mulheres e pelo acesso à educação no nordeste do Paquistão.Tudo começou a chegar até nós em 2009, quando Malala enviou para a BBC um texto num blog com um pseudónimo, aí relatava a ocupação talibã e o seu controlo na educação. No ano seguinte, o New York Times publicou um documentário com o seu dia-a-dia. Em consequência pelo seu ativismo, em 2012, \foi atingida com um tiro na testa por um talibã. Depois de ter estado em coma, Malala continuou a lutar pelos direito pela educação. O seu discurso na sede da ONU ou a campanha I am Malala faz dela uma das personalidades que mais inspira o mundo.

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Raqqa, um site que mostra o terrorismo 

“Estamos a lutar contra a ideologia do extremismo. Se conseguíssemos derrotar o Estado Islâmico amanhã ou depois o problema voltaria a surgir com uma nova geração”

Raqqa is Being Slaughtered Silently? é uma forma de reação à destruição do Estado Islâmico. Num site e nas redes sociais são publicadas notícias cedidas por cidadãos sírios. Segundo as declarações de um dos elementos do grupo à BBC, o objetivo é mostrar ao mundo a realidade construída pelo Estado Islâmico. Ao todo, o grupo tem 18 repórteres na cidade de Raqqa e mais 10 em outras localidades. Os elementos que estão em Raqqa enviam o material, que apagam de imediato após o envio, para a equipa que está fora da Síria, para que possa ser publicado online. Pela sua ação, o grupo venceu Prémio Internacional de Liberdade de Imprensa, pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ).

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Orhan Pamuk, uma voz turca pelos curdos

“Eu considero-me um contador de histórias de Istambul. A minha matéria é a minha cidade. Eu considero-me um explorador dos recantos mais ocultos e clandestinos da minha cidade (…)”

No dia 12 de outubro de 2006, Orhan Pamuk tornou-se no primeiro turco a ser galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. Traduzido em mais de 50 línguas e autor de livros como O Livro Negro, A Vida Nova ou Istambul: Memórias e a Cidade, Pamuk também se destaca pela sua veia ativista. O escritor tem sido um nome proeminente na defesa dos direitos políticos dos curdos. Um dos momentos mais conhecidos da sua ação foi uma entrevista à Das Magazin. Pamuk referiu que ninguém fala do genocídio de 30 mil curdos pela Turquia. O escritor teve mesmo de fazer declarações em tribunal.

Atualmente é professor de Literatura na Universidade Columbia. O último livro de Orhan Pamuk foi A Strangeness in My Mind e coloca mais uma vez Istambul no centro da sua obra.

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Can Dundar, ele mostrou um vídeo ‘proibido’

“Nós somos jornalistas, não somos servos civis. O nosso dever não é esconder os segredos sujos do Estado mas apurar os responsáveis em nome do povo.”

No final de novembro, o diretor do jornal  turco Cumhuriyet foi detido por “espionagem” e “divulgação de segredos de Estado”. Em causa está a publicação de um vídeo, em maio, onde refere que os serviços secretos da Turquia estavam a entregar armas aos islamitas na Síria. Pelo seu trabalho, Dundar recebeu o Prémio para a Liberdade de Imprensa dos Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e da TV5 Monde.

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Rafael Marques, o investigador do sangue nos diamantes

“Quando se negoceia com a indústria diamantífera angolana, negoceiam-se, de facto, diamantes de sangue. A comunidade internacional e as organizações internacionais têm de assumir este facto”.

Jornalista de profissão, Rafael Marques tem dedicado a sua vida à investigação de casos de violação dos direitos humanos. Mas este espírito interventivo trouxe-lhe dissabores. Depois de, em 2011, ter publicado Diamantes de Sangue: Tortura e Corrupção em Angola, um livro sobre alegadas violações de direitos humanos em minas de diamantes em Angola, por militares e empresas privadas, Rafael apresentou uma queixa-crime contra as entidades que denunciou. O resultado? Foi formalmente acusado de denúncia caluniosa.

Desde então, a vida de Rafael Marques não mais foi a mesma: na sentença final, foi condenado a seis meses de prisão com pena suspensa por dois anos. Segundo a Amnistia Internacional, “Rafael Marques está a ser alvo de perseguição por exercer o seu direito à liberdade de expressão protegido pelo direito internacional”. O livro foi disponibilizado gratuitamente no site da editora Tinta da China e registou 15 mil partilhas em menos de 48 horas.

Mas esta não foi a primeira vez que a investigação de Rafael “incomodou” o regime: já em 2000 fora processado pelo presidente José Eduardo dos Santos após publicar o artigo “O Batôn da Ditadura” onde acusa o presidente angolano de corrupção. Foi, por isso, condenado a seis meses de prisão.

De entre vários prémios, recebeu, em 2000, o Prémio Percy Qoboza para a Coragem Exemplar da Associação Nacional dos Jornalistas Negros dos Estados Unidos da América e, em 2006, o Civil Courage Prize da Train FoundationRafael escreve regularmente no seu website, Maka Angola.

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Ashraf Fayadh, um poeta calado pela Arábia Saudita

“O petróleo é inofensivo, exceto no rasto de pobreza que deixa para trás”

Ashraf Fayadh é um poeta palestiniano mas vive atualmente na Arábia Saudita. Em 2013, aos 35 anos, foi condenado à morte por apostasia e insultos ao Islão. Tudo aconteceu depois de um homem, com quem teve uma discussão, ter chamado a polícia religiosa. Segundo a Human Rights Watch, Fayadh foi acusado devido a “supostas declarações blasfemas durante uma discussão em grupo e num [dos seus] livros de poesia“. O livro em questão é Instructions Within, de 2008.

A sua sentença levou vários escritores e poetas de todo o mundo a erguerem a voz, pedindo a sua libertação imediata. Num comunicado publicado pelo Pen International, uma associação que promove a literatura e a liberdade de expressão, lê-se: “Não é crime defender uma ideia, mesmo que impopular, nem é crime expressar uma opinião pacificamente. Cada indivíduo tem a liberdade de acreditar ou não acreditar. A liberdade de consciência é um direito humano essencial.” Fayadh tem até 17 de dezembro para recorrer da sentença.

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Escrito por Beatriz Ferreira e Teresa Serafim