Fomos conversar com Elmano Sancho e Ana Monte Real acerca de I Can’t Breathe, a peça que mistura teatro e pornografia para falar sobre a sociedade contemporânea.

A morte de Eric Garner [um cidadão norte-americano que, sem motivo aparente, foi morto em público por um polícia, na cidade de Nova Iorque, em julho de 2014, tendo o acontecimento ficado registado em vídeo, enquanto todos assistiam] viria a gerar um movimento de protestos ao qual a peça da autoria de Elmano Sancho vai buscar o nome. Foi este o ponto de partida para uma reflexão sobre a exposição total em que vivemos.

Espalha-Factos (EF): Como é que de um acontecimento como a morte de Eric Garner se evolui para uma relação da realidade com a pornografia?

Elmano Sancho (ES): Eu estava nos Estados Unidos na altura em que se deu o acontecimento do Eric Garner e vi o vídeo através da televisão. De repente, pareceu-me uma violência ter de assistir à morte em direto… Quando estava a ser violentado, ele disse onze ou doze vezes que não conseguia respirar [“I can’t breathe”]. Pareceu-me quase uma metáfora daquilo que eu sentia, essa incapacidade de encontrar um lugar como indivíduo numa sociedade que tende à uniformização. Esse foi o primeiro ponto de partida para tentar dar resposta à inquietação que sentia e abordar as várias formas de pornografia, que não é só a pornografia que nós imaginamos dos filmes pornográficos, mas a pornografia da violência, a pornografia da ausência de intimidade, tudo o que nós podemos entender por pornografia – que é uma autêntica estética do vazio, em que não há filtros, tudo é revelado, tudo é exposto.

Pensei fazer um espetáculo sobre o que era tentar resgatar o mistério e a ilusão, e não apenas corresponder ao que a realidade nos apresenta, uma realidade nua e crua, sem qualquer poesia, sem qualquer fantasia. Queria fazer um trabalho com uma atriz (porque a minha primeira encenação tinha sido um monólogo). Inicialmente tinha pensado numa atriz de teatro mas, depois, pensei: “Não, é óbvio que tem que ser uma atriz que represente o que eu entendo por pornografia”. Pensei em atrizes de Portugal e de Espanha, mas não precisei de ir muito mais longe. [risos]  A Ana tem-se revelado, nos ensaios, a parceira ideal para fazer este trabalho, pelas qualidades dela como atriz, pelo empenho, pelo método,… Por isso o meu instinto estava certo! [risos]

Ana Monte Real e Elmano Sancho

EF: Como recebeu a Ana este projeto? Nota-se, pelo texto, que esteve muito envolvida na conceção…

Ana Monte Real (AMR): A princípio duvidei um bocado porque aparecem muitas e muitas propostas todos os dias. Quando li uma mensagem do Elmano, não estava a acreditar muito, não sabia se era ele ou não. Quando vim cá a Lisboa para nos encontrarmos e tivemos a primeira conversa, foi automático, eu disse logo que sim.

EF: O que a fez querer participar?

AMR: Tudo o que é novo, tudo o que eu possa aprender e descobrir, para mim, é interessante, chama-me à atenção. Não ia desperdiçar, nunca, uma oportunidade de trabalhar com um ator como o Elmano.

“A pornografia é uma autêntica estética do vazio, em que não há filtros, tudo é revelado, tudo é exposto” – Elmano Sancho

EF: É o primeiro espetáculo que o Elmano encena em que é autor…

ES: É. A criação do texto foi feita através de improvisações, com o Rui Catalão, que trouxe uma proposta para que eu e a Ana pudéssemos improvisar e recolher material. Por isso, acho que este texto, na verdade, foi criado por três pessoas: eu, a Ana e o Rui. Depois, quem decidiu o que ficava no texto e organizou o texto fui eu, com o apoio do Rui, sempre. Mas é a primeira vez que sou autor, sim, porque a temática exigia um trabalho de raiz. Ou encontrava um texto que respondia a essa inquietação e que preenchia todas essas premissas ou então tinha que o criar, criá-lo através de matéria, e essa matéria sou eu e Ana. Um ator, uma atriz, um homem, uma mulher. Pessoas que também estão a viver nesta sociedade contemporânea e lidam com essa exposição. Sinto que é um projeto que não está propriamente fechado. Embora eu assine a encenação, o texto, a interpretação, eu sinto que é, realmente, um projeto muito coletivo, que depende das pessoas que estão aqui. Dito isso, também é um projeto muito querido, porque o risco também é maior… É novidade para a Ana mas, na verdade, é novidade também para mim.

Ana Monte Real e Elmano Sancho

EF: Quão diferente é apresentar e interpretar um texto que é nosso desde início?

ES: Eu não tenho pensado muito nisso. Eu quero partilhar esta experiência em cena com a Ana, é o que me interessa. É a construção da nossa relação aqui em cena que está a acontecer. Quando trabalhamos com um ator de teatro, nós sabemos o percurso dele. Com a Ana, não. Nós não nos conhecíamos, não sabíamos o que ia acontecer. Eu acho que isto, até a nível emocional, vai mudar, dia após dia, à medida que se aproximar o fim do espetáculo. Porque a matéria somos nós. Somos nós hoje, somos nós expostos, por isso é que a configuração cénica é essa: a violência de estar exposto e de falar de assuntos que não são propriamente públicos. São assuntos que são nossos e estamos a torná-los públicos. Até que ponto é que isso não é violento para nós? Até que ponto é que isso é necessário? E até que ponto é que isso me provoca uma sensação de sufoco, uma incapacidade de respirar? E a incapacidade de respirar é a morte. É um bocado nós sentirmos pressões de vários sítios, que não sabemos muito bem quais são. Temos de estar visíveis, se não aparecemos no Facebook é porque não estamos vivos, não estamos na linha da frente, se aparecermos demais, acabamos por sofrer com isso. Não sabemos muito bem quais são as regras do jogo, não é?

“Aquilo que as pessoas veem é aquilo que elas querem ver, aquilo que elas imaginam. Eu vendo uma fantasia. Aquilo não sou eu. Aquilo não é uma intimidade” – Ana Monte Real

EF: O teatro tem essa vertente de deixar o público desconfortável, talvez porque está também a ver-se refletido…

ES: Sim e o teatro tem sempre esta caraterística da exposição. A diferença aqui é que o material é outro, é um material que não temos necessariamente de expor. Porque um ator está sempre exposto em cena, mas com este tipo de material a violência é outra. É mesmo perguntar às pessoas porque temos de acabar com essa intimidade, com aquilo que deve permanecer oculto. Se não há oculto, qual é a graça? Qual é a possibilidade de imaginar?

EF: É esse o medo do fim da ilusão e do mistério?

ES: Eu acho que sim. Porque é que temos de desvendar tudo o que é nosso? Nós nem sabemos o que é nosso, primeiro. Quando desvendamos tudo, qual é o interesse? Eu queria fazer um espetáculo sobre isso e a pornografia reflete isso. Embora, depois, em conversas com a Ana, tenha percebido que os atores [pornográficos] não desvendam quase nada. A Ana, já o disse, sente-se muito mais exposta aqui do que quando interpreta uma personagem num filme pornográfico.

“Quando tudo é possível, é maravilhoso – uma pessoa está perdida, mas tudo é possível! Quando se começa a definir, perde-se essa inocência” – Elmano Sancho

EF: É muito interessante esse facto de a Ana se sentir mais exposta aqui. O ambiente é mais controlado num filme?

AMR: No set de filmagens eu estou a interpretar uma personagem e aquilo que as pessoas veem é aquilo que elas querem ver, aquilo que elas imaginam. Eu vendo uma fantasia. Aquilo não sou eu. Aquilo não é uma intimidade. As pessoas acham que um corpo exposto, numa situação de sexo, é expor-me completamente. Eu não estou a expor-me nada. As pessoas não sabem nada de mim, não estão a ver nada de mim. Enquanto um ator de teatro convencional usa os próprios sentimentos, as próprias emoções, as próprias experiências, para interpretar, eu não. Eu só estou a usar o meu corpo, é o meu instrumento de trabalho. É como se estivesse a fazer treino físico.

Ana Monte Real e Elmano Sancho

EF: Como se constrói a relação entre os dois atores numa peça deste género?

ES: Acho que se vai construindo de modo muito natural. Acho que nos entendemos logo desde o início. São aquelas coisas que uma pessoa não sabe muito bem explicar como. Nós entendemo-nos bem e fomos para o desconhecido. Fomo-nos conhecendo, fomos trabalhando, fomos questionando,… Às vezes isso acontece: com desconhecidos, acabamos por trabalhar de uma maneira que não acontece com conhecidos. E é a beleza destas coisas, porque é um encontro de desconhecidos, também. Quando é um encontro de desconhecidos há sempre mistério e há sempre evolução.

“Os dois personagens nunca se tocam, mas estão a tentar uma intimidade” – Elmano Sancho

EF: Estas duas personagens que estão em palco não têm qualquer reticência em perguntar seja o que for e contar os factos mais íntimos uma à outra. Mas há alguma intimidade entre elas?

ES: Nós pegamos um bocado em factos, alguns verídicos, outros ficcionados, e criamos estas personagens que não têm um nome. Nós damos-lhes nomes só no final da peça. Podem ser amantes, marido e mulher, desconhecidos, atriz e encenador,… Quanto menos fechado estiver, maior é a possibilidade de imaginação, e nós queremos isso. Nós não queríamos fechar um guião com início, meio e fim. Pegamos nas caraterísticas da pornografia, em que não há propriamente personagens, não há tanto uma história narrativa. Tentamos ter um espetáculo assim também, em que não há uma estrutura linear mas onde identificamos várias coisas e conseguimos depois criar o nosso filme com o espetador. Eu acho que é tudo. É a Ana e o Elmano, é ele e ela. Poderia ser qualquer pessoa, e acho que isso é que é curioso.

EF: Há um pormenor muito engraçado na peça: a insistência nos 13 anos, na primeira vez…

ES: É como querer concentrar tudo num ano, não é? Aquela coisa de dizer: “Ah, os meu 18 anos é que foram não sei o quê…”! O treze… É só o querer concentrar tudo numa idade que é a transição para a adolescência, onde tudo é possível, mas tudo se começa a definir, também. Eu dei aulas e lembro-me, que os miúdos do 9.º ano eram muito engraçados, porque é a altura em que se começam a definir, começamos a vê-los mais como pessoas. E ao mesmo tempo que uma pessoa se começa a definir, perde um bocado esse mistério. Quando tudo é possível, é maravilhoso – uma pessoa está perdida, mas tudo é possível! Quando se começa a definir, perde-se essa inocência, e foi nesse sentido que eu escolhi os treze – tudo acontece aos treze.

Ana Monte Real e Elmano Sancho

EF: A questão fundamental na peça é a ausência da intimidade ou a exposição total da intimidade? Ou isto é o mesmo problema?

ES: Eu acho que tem tudo a ver.  Na verdade, acho que é a exposição total da intimidade mas na tentativa de ter uma intimidade. Os dois personagens nunca se tocam, mas estão a tentar uma intimidade. O Catalão [assistente à dramaturgia na peça] dizia uma coisa muito interessante: as personagens nunca se tocam e o toque é a criação desta peça. Eu perguntei-me muitas vezes porque é que eles não se tocam e acho que o toque é este encontro, como o meu e da Ana. O toque é essa experiência.

“Eu sou menos pornográfica que a maioria das pessoas no Facebook” – Ana Monte Real

EF: O que há de pornográfico na nossa sociedade?

ES: Depende, eu sei que, se calhar, sou um bocado exagerado em relação a isso. Há determinadas coisas que as pessoas expõem e que, para mim, são pornográficas, coisas que não deviam expor. Mas será que são? Será que sou eu que vejo as coisas desta maneira? Mas eu acho que não, porque a sociedade está assim: não haveria Big Brother, não haveria este tipo de redes sociais, em que tu podes mudar a fotografia quando te apetecer, dizeres que estás num sítio onde não estás,… Tu podes criar! E é fantasioso! Mas é como se a realidade não nos chegasse, temos que a deturpar. E isso é estranho. Passa por uma necessidade de ter que expor tudo da tua vida.

AMR: Eu acho que passa pela mesma ideia. O conceito de “pornografia”, em que o Elmano “bate” sempre, é a tal ausência de filtros. No exemplo das redes sociais: o meu Facebook não tem nada de exposto da minha vida, ninguém sabe nada de mim. As pessoas conhecem aquela imagem da Ana dos filmes e das fotografias, nada mais. Eu sou menos pornográfica que a maioria das pessoas no Facebook [risos].

ES: E é assim: ninguém é forçado a fazer isso. Nós decidimos fazer um espetáculo em que nós escolhemos expor.  É quase como um grito a dizer: “qual é a necessidade disto?”. Mas posso até assumir que é uma coisa muito pessoal, que não é um problema para todas as pessoas. Para mim não é um problema mas chegou a ser um bocado angustiante. Esta necessidade de estar em todo o lado, em todas as festas, ser simpático, ser performativo, nunca falhar, ser tudo perfeito, não poder envelhecer,… É óbvio que toda a gente envelhece, toda a gente erra. Mas que mundo é este? Acaba por nos sufocar porque é escarrapachar a realidade. Nós sabemos qual é a realidade, nós precisamos é do imaginário, se não, como é que nós avançamos? Não avançamos.

Fotografias de Inês Pereira