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‘O Meu Vizinho É Judeu’: Quem são os novos judeus?

O Espalha-Factos foi ver a nova peça de Bruno Nogueira e Miguel Guilherme e olha que aquilo não é só rir… Contamos-te tudo aquilo que podes esperar de O Meu Vizinho É Judeu, um texto de Jean-Claude Grumberg, em cena no Auditório do Casino Estoril.

Está uma noite gelada cá fora, mas basta pisar a entrada do Casino Estoril para sentir o ambiente aquecer. Estão imensas pessoas lá dentro porém, as máquinas de jogo são a diversão menos procurada: alguns dirigem-se à sala onde A Noite das Mil Estrelas, o musical de Filipe La Féria, ainda se encontra em cena, mas uma larga fatia vai direta ao Auditório, totalmente lotado esta noite. Estão lá para ver Bruno Nogueira e Miguel Guilherme naquele que é um aguardado reencontro em palco.

Desde 2011, quando se apresentaram em É Como Diz O Outro – também num Casino, mas para os lados do Oceanário -, que estes compinchas não pisavam o mesmo palco. A separação não podia prolongar-se mais e a iniciativa de Beatriz Batarda, a encenadora, veio finalmente quebrá-la.

Batarda já não é uma novata na encenação (encenou, inclusive, peças anteriores com interpretação de Bruno Nogueira) e volta a tomar as rédeas à tarefa, desta vez com um texto do dramaturgo francês Jean-Claude Grumberg: O Meu Vizinho É Judeu (Pour en finir avec la question juive, “pôr um fim à questão judaica”, na versão original). A peça é muito baseada na realidade do próprio autor (como, de resto, grande parte da obra de Grumberg o é), um cidadão francês, judeu de nascença, cujo pai foi morto num campo de concentração nazi.

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Aquilo que diz respeito à “questão judaica” nunca é um tema ligeiro, que possa ser tratado de forma leviana. Pode parecer difícil torná-la numa comédia e a verdade é que, neste caso, isso é bem evidente. O Meu Vizinho É Judeu não é uma comédia “típica”. Diria mesmo que estamos perante uma peça muito séria que o caráter caricato das personagens torna cómica. Mas o público só se apercebe disto à medida que o espetáculo avança.

Dois vizinhos que vivem num prédio, em Paris. Bruno Nogueira é o vizinho de cima, nascido e criado em França, e Miguel Guilherme é o vizinho de baixo, igualmente nascido e criado em França, só que judeu. Encontram-se frequentemente na entrada, quando vão a chegar ou a sair de casa, e são as conversas que se dão entre os dois nesses breves encontros que constituem a narrativa deste texto.

O cenário, de Wayne dos Santos, que não se altera durante toda a peça, está construído eficazmente para que os atores circulem dos andares de cima para a entrada e desta para o exterior do prédio, pela porta principal. Articula-se diretamente com o desenho de luz, de Nuno Meira, sendo protagonista de alguns momentos engraçados, na interação do personagem de Miguel Guilherme com o espaço físico. Mas é a sonoplastia, a cargo de Sérgio Milhano, que nos transporta efetivamente até a capital francesa, através de variadas sonoridades parisienses, desde as musicais às quotidianas. É também ela a responsável por mediar as transições entre cenas, evitando os espaços vazios.

Ok, vamos para a ação: o personagem de Bruno Nogueira tem uma mulher perita em “cusquice” que desenvolveu uma obsessão sobre judeus através de websites duvidosos na internet, que utiliza para obter toda a informação que tem sobre o tema. Na esperança de se tornar “homem o suficiente” para satisfazer a curiosidade incessante da sua mulher (coisa de que não se sente capaz), decide interpelar o seu vizinho de baixo, para ter uma fonte interna e fidedigna que o esclareça acerca do que é “isso de ser judeu”.

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Inicialmente, o vizinho judeu reage defensivamente e facilmente se irrita com as perguntas ignorantes do vizinho de cima sobre a sua “condição de judeu” mas, aos poucos, vai acedendo a alguns esclarecimentos – enquanto o vizinho não-judeu e a mulher acertam a organização, constantemente adiada, de um aperitivo lá em casa para discutir o tema a fundo.

A partir daqui, observamos o crescimento de uma curiosa relação entre os dois. Primeiro falam sobre de onde vêm os judeus (não necessariamente de uma terra distante “lá para os lados da Polónia”, podem perfeitamente nascer em França); depois, falam sobre o judaísmo (porque, afinal, parece que “isso de ser judeu” tem alguma coisa a ver com religião). Falam sobre costumes e tradições culturais judaicas (se são tão diferentes dos muçulmanos, porque é que também não comem porco?) e falam sobre o conflito da Faixa de Gaza – o vizinho de cima e a mulher ficam revoltadíssimos com aquilo que o vizinho de baixo fez aos palestinianos! A trama sofre uma reviravolta inesperada quando o obsessivo casal começa a corresponder-se com um ortodoxo rabino americano.

Mesmo com a evolução para uma interação mais amistosa e cúmplice, há sempre uma base de distância, de desconfiança, de julgamento constante, envolvida numa névoa de incompreensão. Destaque claro para alguns dos melhores momentos do espetáculo, como as alusões ao “lojista antissemita” e a “mini alegoria” do conflito palestino-israelita, com a oposição entre parcelas do prédio, que acerta em cheio no ponto.

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A interpretação não é memorável. Apesar da clara química e experiência de trabalho conjunta, a dupla não traz nada que nunca deles tivéssemos visto. Temos Bruno Nogueira num registo mais contido, que não defrauda expetativas, e Miguel Guilherme que, algumas vezes, se atrapalha na entrega do texto e não o deixa “respirar”.

O que retirar de O Meu Vizinho É Judeu? Esta é uma peça absolutamente atual – perdão, pelo lugar-comum -, uma temática que está na ordem do dia (até a localização da ação em Paris parece arquitetada, à luz dos acontecimentos recentes). Mais que alerta em relação ao outro, é preciso estar alerta em relação a nós mesmos. O medo do desconhecido gera a desconfiança generalizada que facilmente cai em extremismos, seja de que lado for… Estamos mais próximos que nunca mas a distância entre nós é abismal. E são o preconceito e o julgamento quem preenche o fosso.

Fotografias cedidas pela Força de Produção

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