O MUVI Lisboa conseguiu ao terceiro dia elevar a qualidade dos filmes (apesar de um problema técnico que afetou a sessão da noite), através de documentários interessantíssimos sobre temas muito distintos. O final da noite, como já é hábito, foi preenchido por mais um grande showcase, desta vez a cargo de Tiago Saga.

Nosey Atlanta

Primeiramente uma web-series sobre o rap de Atlanta, Noisey Atlanta foi apresentado no MUVI com alguns episódios exclusivos em antestreia. Os 10 episódios da série passaram seguidos uns aos outros, numa interessante sessão de duas horas.

Thomas Morton é o apresentador do documentário, levando-nos ao encontro de algumas das maiores figuras do panorama musical de Atlanta, entre eles 2 Chainz, Gucci Mane e Migos. Apesar de, como condutor da série, Morton passar mais de metade do tempo com um ar amedrontado e intimidado (mesmo perante verdadeiros gangsters com ar assustador, pedia-se maior carisma da sua parte), o apresentador não impõe limites em relação ao que mostrar (muito menos os protagonistas, que ostentam orgulhosos as suas armas, drogas e riqueza) e consegue reunir um vasto leque de testemunhos não só sobre o rap em si, mas também sobre o próprio funcionamento da cidade de Atlanta.

Passando pelos músicos e pelos maiores produtores no ramo, obtendo ainda um interessante relato de um agente da polícia, Morton consegue montar uma interessantíssima, estimulante e até chocante dezena de episódios, que tem como cereja no topo do bolo a elevada qualidade estética. Faltaram apenas as legendas (as que o MUVI recebeu vinham descoordenadas), visto que o forte sotaque negro da maioria dos rappers (ainda por cima a falarem sobre o efeito de drogas) ser difícil de perceber até para os mais entendidos na língua inglesa.

8/10

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Porque não sou o Giacometti do século XXI

Devido a problemas técnicos, a sessão dupla das 21h15m na Sala Manoel de Oliveira só pode mostrar um dos filmes programados, já que Música Moderna – Um Filme em Disco de TochaPestana foi adiado para sábado à noite.

Porque não sou o Giacometti do século XXI foi assim o único filme passado na sessão. Assinado por Tiago Pereira, o documentário é composto pelos seus pontos de vista sobre o seu cinema e sobre o processo de criação de Música Portuguesa a Gostar Dela Própria (canal do Vimeo), onde reúne em arquivo uma série de atuações musicais por parte de gente da aldeia. A partir de entrevistas e extras das filmagens, o realizador vai falando sobre o porquê de fazer o que faz e sobre a falsidade do que filma, pois nada do que é rodado é feito por acaso e os próprios intervenientes criam uma personagem para serem captados pelas suas câmaras.

Tiago Pereira torna este seu making of em forma de introspeção num produto interessante não tanto pelos seus relatos (que, por vezes, chegam a contradizerem-se uns aos outros), mas pelos segmentos de MPAGDP com que completa o filme. As histórias de vida partilhadas em rimas por parte da gente da aldeia (umas mais divertidas, outras mais tristes) e a sua própria maneira de ser são extremamente cativantes, e o amor com que o realizador os trata é assinalável. Pereira vai, entre estas filmagens, tecendo comparações à etnomusicologia e respondendo quer aos elogios que lhe fizeram (entre os quais se encontram várias comparações ao estudioso Michel Giacometti, que ele tenta desmentir – daí o título do filme) quer às críticas que o seu trabalho lhe trouxe.

O resultado final pode não ser o pretendido no que toca a provar que, de facto, não é o Giacometti do século XXI, já que o que mais sobressai no filme é o seu discurso algo contraditório e inquieto, principalmente aquele gravado na Fajã de Santo Cristo. Contudo, a encantadora população aldeã que canta a sua vida torna a visualização de Porque não sou o Giacometti do século XXI muito mais rica, atenuando algumas das suas falhas.

7/10

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Tiago Saga

Ao contrário dos anteriores showcases, pontuados pela energia estonteante dos temas de DJ Kwan e Les Crazy Coconuts, o de Tiago Saga foi marcado pelo intimismo. Em palco, usando apenas a sua guitarra como instrumento para acompanhar a sua bela voz, o músico acabadinho de chegar de Inglaterra deu um excelente concerto onde sobressaiu, para além da calma e do tom cósmico das suas canções (uma delas cantadas em português), o seu à vontade com o público, mostrando-se descontraído e em frequente diálogo com quem estava na plateia. Nitidamente cansado da viagem de avião e de uns últimos meses exaustivos, Tiago Saga não deixou de responder às perguntas colocadas de bom grado, anunciado que vai para a Índia daqui a duas semanas, que faz tensões de em 2016 lançar o seu álbum (já o tem gravado) e que quer, em especial, ir ao próximo Paredes de Coura.

Foto retirada do Facebook do MUVI Lisboa

Foto retirada do Facebook do MUVI Lisboa