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InShadow: ‘Urban Distortions’ – clausura na bolha do ser

Dia 2 de Dezembro o corpo voltou a desenhar-se na sombra no São Luiz Teatro Municipal. O InShadow voltou a ocupar o Teatro não só para tirar a vídeo-dança da sombra, mas também para fazer brilhar performances, instalações e espetáculos atuais e diferentes. Urban Distortions de Pierre Larauza, um espetáculo sobre a condição humana e a posição que cada um tem na sociedade, foi o primeiro a estar em cena.

Três corpos aprisionados numa grande bolha de ar. Ao fundo uma mulher no chão. Ao seu lado um homem com cabeça de cavalo e uma botija de ar. Há uma luz que se vai acendendo e desligando.

Aos poucos, sem que ninguém dê por isso, os corpos dentro da bolha vão tendo pequenos espasmos. Os espasmos tornam-se maiores, e tal qual peixes dentro de um aquário sem água estas três mulheres prisioneiras do seu próprio mundo saltam, contorcem-se, agitam-se dentro de uma bolha transparente. O ritmo é marcado pelo cavalgar do homem cavalo. O trote vai sendo acompanhado por vocalizações, gemidos e sons que parecem vir da profundeza do ser.

De volta à grande bolha que pode ser metáfora para a vida quotidiana das grandes cidades modernas, as três bailarinas que tudo vêem cá para fora, cingem-se ao espaço que conseguem alcançar à distância da mão. As relações com o outro são limitadas a um número restrito e fora desse mundo de reconhecimento mútuo do quotidiano, o diferente é visto como algo inalcançável. O sujeito está balizado por um limite plástico que não lhe permite grandes movimentos, grandes saltos ou oscilações. É dentro desse mundo tão ínfimo, dentro dessa grande bolha que nada mais é senão um exemplo microscópico do mundo real, que os sujeitos se vão desenvolvendo. O ar é pouco, o espaço também, mas nada disso impede as três bailarinas de se moverem nesse seu pequeno e limitado universo.

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Urban Distortions causa um sufoco a quem fica de fora. A bolha de ar desfaz-se, há duas pessoas ainda enclausuradas nesse mundo em queda. Sem ar, cobertas pelo plástico da bolha, dois corpos ficam caídos no chão. De fora, sem reação, sem qualquer tipo de movimento o público aguarda imóvel que elas se salvem. O desassossego é grande e aqueles segundos parecem horas. A sensação de sufoco passa para o espetador que se limita a assistir a uma cena onde o Homem é dominado e absorvido pelo meio.

Urban Distortions é uma performance de Pierre Larauza e de Emmanuelle Vincent que teve estreia nacional na abertura oficial da 7.ª edição do InShadow. Ao Jardim de Inverno do São Luiz Teatro MunicipalPierre Larauza trouxe uma adaptação da sua performance original em que bailarinos e músicos confrontavam territórios, velocidades e movimentos dentro de grandes bolhas insufláveis transparentes.

Espetáculos que fogem ao campo da percepção a que estamos habituados, espetáculos que arriscam e apostam não só numa cenografia muito forte, como também despertam um movimento muito biológico ou pelo contrário muito desafiador do natural. Entre a plasticidade e a tecnologia, entre o mais arcaico e natural ao mais teatral e controlado, os espetáculos e performances desta 7.ª edição do festival InShadow prometem surpreender.

Cenografia & Coreografia: Pierre Larauza e Emmanuelle Vincent

Bailarina: Emmanuelle Vincent

Bailarinas Convidadas: Ana Marta Kaufmann, Cecília Hudec

Intérprete: Pierre Larauza

Cantora: Vaniny Alves

Fotografias retiradas do site oficial

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