O segundo dia do MUVI Lisboa 2015 teve uma programação muito mais completa, com mais filmes e mais pontos de interesse para um público mais vasto. Desde a rebeldia festivaleira ao rock português, não faltaram motivos de interesse nesta segunda jornada do festival, que encerrou com um excelente concerto dos Le Crazy Coconuts.

No Cameras Allowed

A história de James Marcus Haney é de fazer inveja a qualquer um. Conseguiu entrar em inúmeros festivais sem pagar (entre eles os icónicos Coachella e Glastonbury), registar fotograficamente vários concertos e tornar-se companheiro dos Mumford & Sons, tendo-os acompanhado numa tour como fotógrafo.

No Cameras Allowed é o documentário que, com vídeos gravados nos vários festivais por onde James passou e com entrevistas não só ao jovem festivaleiro mas também à sua família e amigos, conta como foi possível entrar sem pagar em tantos festivais e as consequências que estas atitudes lhe trouxeram. Pode parecer um filme deveras interessante, tendo, sem dúvida, tudo para resultar, mas um conjunto de más decisões torna-o extremamente incompleto e, a dada altura, irritante.

Antes de mais, o realizador do documentário é o próprio James. Embora isso possibilite termos acesso direto a tudo o que ele registou, fica a sensação de que o jovem escondeu um conjunto de informações que seriam interessantes para complementar a fita. Porquê? Talvez preguiça, talvez desejo de não se mostrar com “má imagem”. Um dos exemplos mais significativos disso mesmo são as consequências de não ter feito os seus exames finais e ter assim chumbado o ano. É de deduzir que foram bastantes e que o conflito com os pais sobre o assunto terá sido quente… mas nada disto nos é dado a conhecer.

James limita-se a mostrar imagens dos concertos que gravou e a expor em modo filme romântico as relações com namorada, amigos e família, martelando pelo meio um conjunto de frases cliché que nunca soam a genuínas. Ele tem talento, quer na câmara fotográfica quer na câmara de filmar (as fotos e vídeos dos festivais conseguem dar bastante fluidez ao filme, torna-lo fresco e jovem, transbordando bem o ambiente que se vivia nos festivais), mas no que toca a contar a sua história, pedia-se muito mais do que aquilo que nos é apresentado em No Cameras Allowed.

4/10

No Cameras Allowed film

Wantd Fred

A primeira edição Wantd (uma iniciativa que convida artistas a conceber e realizar, em 30 dias, um projeto à sua escolha) levou Fred (dos Orelha Negra e Banda do Mar) a produzir um espetáculo onde o seu pai, Kalu, baterista dos Xutos e Pontapés, cantaria, em português, as dez músicas da sua vida. Wantd Fred acompanha a preparação do concerto, num documentário de quase meia hora que não faz mais que filmar os ensaios e as conversas entre músicos, mostrando ainda um pouco da relação entre pai e filho. O resultado é uma curta que interessará aos fãs de Kalu acima de tudo, estando assim apontada a um público limitado. O restante, dificilmente encontrará uma proposta aliciante.

5/10

fred

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Phil Mendrix

Filipe Mendes é um dos maiores guitarristas portugueses, daí que o seu nome de palco seja Phil Mendrix, em clara alusão ao Deus dos Guitarristas, Jimi Hendrix. O documentário sobre a sua vida e carreira, ligadas diretamente à história do rock em Portugal, foi o “cabeça de cartaz” deste segundo dia de MUVI.

Aposta acertada? Nem por isso. Phil Mendrix não aproveita o sujeito que tem como objeto de estudo, mergulhando pouco ou nada no percurso do guitarrista. O realizador Paulo Abreu torna-se invisível, deixando tudo o que seja relatos do músico e do seus amigos entregue aos próprios. Somos guiados por Filipe Mendes a falar para uma câmara no seu carro e alguns dos seus conhecidos gravam os seus relatos diretamente de sua casa (falam como quem fala no Skype), sendo pelo meio incluídos pedaços da história do rock nacional, supostamente servindo para complementar as entrevistas mas não apresentando grande ligação com elas (aliás, o documentário nunca apresenta grande fluidez ou coesão).

Phil Mendrix é um registo amador, acima de tudo mal filmado e mal gravado, que vale pelas imagens de arquivo da RTP e dos concertos dos Ena Pá 2000 ou dos Chinchilas, onde podemos ver Filipe Mendes em ação. Não há dúvida que é feito com amor e admiração por essa talentosa e peculiar figura do rock português, mas isso não impede o filme de ser desinteressante e de baixa qualidade. Pena que assim seja, visto que Mendrix merecia um documentário à sua altura.

3/10

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Les Crazy Coconuts

O showcase deste segundo dia de MUVI compensou e bem a baixa qualidade dos filmes que haviam passado anteriormente. Os leirienses Les Crazy Coconuts deram um concerto simples (não foram muito além das versões estúdio dos seus temas) mas muito animado. A música de Gil Jerónimo e Tiago Domingues é soberbamente acompanhada pelo sapateado de Adriana Jaulino (que, como se fez questão de salientar, é mais que um aspeto diferenciador, sendo utilizado como um instrumento) e o produto final é o conjunto de temas que deixaram o público a mexer-se e a bater o pé. No final da sessão, os três membros da banda deram a conhecer um pouco do seu percurso e anunciaram que em 2016 farão um concerto em Espanha. Se é o início da internacionalização da banda, ainda não se sabe… mas, a julgar pelo concerto de ontem e pelas provas de talento que têm vindo a dar nos recentes anos, o trio tem capacidade para tal.

Foto retirada do Facebook do MUVI Lisboa

Foto retirada do Facebook do MUVI Lisboa