O MUVI Lisboa arrancou ontem à noite a sua segunda edição. Com uma aposta mais forte na programação dentro e fora da sala (exposições de arte e fotografia estão espalhadas um pouco por todo o São Jorge) e o regresso de algumas das melhores secções do ano passado (as competições internacional e nacional, os showcases, as inúmeras sessões especiais), esta nova edição promete superar a primeira e afirmar o MUVI como um dos mais interessantes festivais de Lisboa.

Neste primeiro dia, vários títulos em competição foram apresentados e houve ainda lugar para, no final da noite, DJ Kwan animar a Sala Montepio com o seu projeto Let’s Scratch de Movies.

Paco de Lúcia: La Búsqueda

A sessão de abertura do MUVI apresentou-nos a Paco de Lúcia, um dos mais talentosos guitarristas de flamenco de sempre que, muitos dizem, reinventou por completo o estilo. Paco de Lúcia: La Búsqueda foi realizado pelo filho do músico, Curro Sánchez, e dá-nos a conhecer a vida e a carreira de Paco através dos seus próprios relatos (o filme ainda estava a ser rodado quando faleceu em 2014) e de registos fotográficos e audiovisuais antigos.

Por muito básico que o documentário seja a nível técnico (não foge do estilo já visto enésimas vezes quer em cinema quer em televisão), limitando-se a alternar entre os testemunhos do guitarrista e as fotos mais representativas da sua vida, Paco de Lúcia: La Búsqueda não deixa de nos prender à biografia que vai contando. Porque, se não é possível negar a falta de criatividade na forma como nos é apresentada, a vida de Paco, por si só, já é rica o suficiente para nos agarrar do princípio ao fim, ainda para mais quando é o próprio a relembrar momentos chave do seu percurso musical.

O filme vai, então, deixar a narrativa e a biografia a cargo de Paco (e de algumas personalidades próximas dele), que nos conta como, apesar do seu talento natural, foi necessário trabalhar e aprender com outras pessoas a aperfeiçoar a sua técnica, e como a sua internacionalização e fama foi considerada indecente por vozes mais conservadoras que apoiavam o flamenco tradicional. As pausas que faz neste recordar de vida e carreira dão lugar a pequenos pensamentos extremamente fortes (como quando diz que desejava ter metade da alegria que tinha a tocar quando era novo, visto que agora, famoso como é, tem demasiada pressão exercida sobre ele, o que lhe retira parte do gozo em fazer a sua música) balanceados com algumas imagens de convivência com o seu neto, dando assim ao documentário uma maior força sentimental que eleva a qualidade de uma biografia já de si cativante.

Apesar de a seleção de testemunhos poder estar melhor montada e escolhida, em especial um momento final de referência à Andaluzia que parece servir apenas para mostrar algumas paisagens mais turísticas da região, e de alguns dos próprios convidados que complementam os relatos do músico serem dispensáveis, saímos da sala satisfeitos e desejosos de descobrir (e escutar) a obra do guitarrista ao pormenor. O final, tratado com o respeito natural que um filho tem pelo pai, dá a entender que o espírito de Paco de Lúcia nunca morrerá… e nós, depois de assistirmos em hora e meia a uma vida tão rica e uma carreira tão brilhante, só podemos concordar.

7/10

PacoDeLucia-3

DJ KwanLet’s Scratch the Movies

Primeiro showcase do festival, num formato um pouco diferente dos do ano passado, primeiro grande momento de animação do MUVI. DJ Kwan apresentou ao público o seu Let’s Scratch de Movies, um espetáculo onde, para além de remisturar bandas sonoras, usa também cenas de filmes icónicos para criar um efeito visual bastante interessante. Desde ficção científica ao terror, a lista de títulos utilizados para a sua performance é interminável e caiu que nem uma luva no ambiente que o MUVI quer trazer: a junção entre o cinema e a música. Os fãs de DJs e do seu género musical poderão ter achado os cerca de quarenta e cinco minutos de espetáculo excessivos e repetitivos, mas, no geral, os presentes na Sala Montepio não pararam de gritar, apoiar e dançar ao som de DJ Kwan, agradecendo-lhe pelo momento com uma ovação final de pé.

Foto retirada do Facebook do MUVI