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Entrevista InShadow – Pedro Sena Nunes: “Tudo na vida é movimento”

Em dias de InShadow, o Espalha-Factos partilha a conversa que teve com Pedro Sena Nunes, um dos pais fundadores deste festival de vídeo, performance e tecnologia. Invadimos o espaço da Vo’Arte, puxámos umas cadeiras, entrámos numa espiral de perguntas e esmiuçámos não só a história do festival ou a programação desta edição, mas também a posição crítica face ao vídeo-dança de um dos directores artísticos deste festival. Explorámos as sombras e percebemos que afinal “tudo na vida é movimento”.

1Espalha-Factos (EF): Como surgiu o InShadow?

Pedro Sena Nunes (PSN): O InShadow nasceu em 2009, mas antes já fazíamos uma mostra chamada Dança Sem Sombra. Essa mostra aconteceu durante três anos em diferentes pontos do país e que foi uma prova viva de que valeria a pena avançar para um festival. Foi um pré-aquecimento e uma certeza de que podíamos avançar para um festival e para uma competição internacional e nacional. Foi um compromisso muito saudável.

EF: Qual era o objetivo do Dança Sem Sombra e agora do InShadow?

PSN:O objectivo sempre foi destacar o que estava a acontecer na altura no vídeo-dança. Algo que gostamos muito, algo a que nos dedicamos, que  investigamos e no qual nos consideramos pioneiros em muitas frentes associadas ao vídeo-dança. Decidimos pegar numa área pouco divulgada em Portugal e dar-lhe visibilidade num espaço nobre na cidade de Lisboa que é o Teatro São Luiz. Em Portugal, o video-dança estava numa área muito sombria ao contrário do que se passava no estrangeiro.

EF: E foi dessa área sombria que nasceu o nome InShadow?

PSN: Na Vo’Arte construímos  uma espécie de constelação dos Ins: o InArte, o InMotion e o InShadow, sempre com um posicionamento internacional. A escolha do titulo foi muito intuitiva. Esta ideia da dança sem sombra era um tópico do impossível. Faz-me lembrar um pouco um herói de banda desenhada que era mais rápido que a sombra, o Trinita. Então este exercício da luta contra a própria sombra na lógica do movimento, é um exercício de fascínio. Para mim este pensamento sobre a sombra é dos pensamentos fortes sobre o Homem. O primeiro contacto com o mundo das sombras, do ponto de vista artístico e da sensibilidade, é como um refúgio muito mais luminoso para nós. No entanto ao mesmo tempo mantemo-nos em áreas que são híbridas e até indefinidas, que para muitos são desconhecidas e que acabam por ser um lugar de sombra natural.

EF: É partir da sombra para explorar a luz?

PSN: Sim, podia ser o contrario até.  Por norma as pessoas partem sempre da luz para a sombra e nós fazemos o inverso, se calhar até um pouco pela provocação. A sombra acaba por ser um tema geral de cada ano. Repete-se sempre a procura da sombra.

EF: O Inshadow é um festival de dança ou cinema? É para bailarinos ou cineastas?

PSN: É um festival pensado para todos. É um festival que não pensa só em coreógrafos ou realizadores, mas que pensa em equipas multidisciplinares onde coexistem realizadores, pensadores, encenadores, coreógrafos. Além disso há outras áreas em convívio como a arquitetura, a fotografia ou teatro. Não só a questão da dança e do cinema. É claro que essas se destacam, mas não são um exclusivo do festival.

No fundo as áreas em constante destaque são o corpo e a imagem. Essas sim são o grande resumo que nos permite explorar tudo o que cabe dentro do corpo e tudo o que cabe dentro da imagem

EF: 650 candidaturas de video-dança. Como foi o processo de seleção e organização?

PSN: Muito complexo. No início do festival chegámos a ter 200 a 250 candidaturas, mas ao chegar a este número  e com a mesma equipa por vezes é muito constrangedor porque o tempo de análise para ver 250 ou 650 candidaturas não é o mesmo e depois essa mesma riqueza de seleção e distribuição que é altamente complexa na verdade. O que se retrata, o que significa, os critérios que se aplicam a nível de qualidade, as questões técnicas e mesmo o pendor político e social, essas são zonas de difícil decisão.

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EF: E a equipa não se alterou desde 2009?

PSN: A equipa é mais ou menos a mesma desde sempre. Na área de produção tem vindo a variar um pouco, mas na direção artística continuo a ser eu e a Ana Rita a assumir a visão artística do festival, os novos desafios que surgem e a lançar novos desafios a nós próprios  a cada edição.

EF: Os espetáculos que o InShadow leva a palco são pensados em função do próprio festival. Como surgem estas oportunidades?

PSN: O nosso convívio com artistas e os convites que surgem é muitas vezes mais internacional, o que é mais arriscado da nossa parte e por isso assumimos que temos um festival um bocadinho único nesta área e único na sua genética. Não há nenhum festival com estas características, com esta abrangência e sobretudo com esta provocação contemporânea e isso torna-nos um bocadinho mais ambiciosos e mais determinados em procurar esses contactos que muitas vezes se desenvolvem de viagens, de sermos convidados para festivais no estrangeiro ou não e estarmos lá por vontade própria mas também em análise de trabalho constante. Além disso ao longo do ano temos sempre propostas a chegar à VO’Arte com espécies de candidaturas de companhias internacionais. A nível nacional é sempre mais fácil, porque conseguimos enquadrar-nos nas típicas comunidades ou famílias  artísticaS, que são grupos produtores que têm certas pessoas que vivem eternamente assim na exploração própria, em estruturas já montadas.

EF: Este ano houve uma grande aposta nas exposições e instalações.

PSN: É verdade. Este é um ano difícil, é talvez o ano mais complexo para o festival. O que é estranho. Cada vez crescemos mais, somos mais reconhecidos (ainda agora recebemos um reconhecimento por parte desta instituição europeia: a EFFE- Europe for Festivals, Festivals for Europe) e isso é uma contradição no país em que vivemos. Porque por exemplo há muitas instalações que nós até gostávamos de selecionar  mas não encontramos um espaço justo e digno para a sua apresentação do ponto de vista da sua tecnologia e por isso têm de ficar de fora. Por outro lado temos a fotografia e o desenho é evidente que do ponto de vista da tecnologia se torna mais fácil de enquadrar num espaço. A fotografia foi um investimento nosso e dos artistas para estas exposições. Nós não fomos procurar aquilo que já havia, mas sim propor a alguns fotógrafos que nos são próximos, que conhecem o nosso trabalho e que nós achávamos que era o momento de lançarmos também novos desafios, mais do que ficar à procura das exposições de fotografia relacionadas com o movimento ou a dança, mas também provocar e levar as pessoas a trabalhar o movimento e a dança pela fotografia.

Imagem.promo_©Henrique-Frazão_web

EF: E porquê desconstruir o anjo através da fotografia de Henrique Frazão e dar-lhe uma forma humana?

PSN: O anjo e a sombra estão associados. Quando descobrimos esta figura angélica com cabeça de objetiva achámos que se aproximava muito  do universo do Dziga Vertov. Leva a que se crie uma espécie de gramática cinematográfica recriando todos os movimentos e todas as possibilidades que o cinema permitia, inclusive entre a imagem fixa e a imagem movimento. O anjo é nessa medida a sombra, não do universo sombrio, mas da sombra em si como um reflexo que nos segue para todo o lado. Acho que é muito fácil de aproximar esta ideia de um filme que eu elejo numa playlist muito pessoal que são As asas do desejo do Wim Wenders. Termos a percepção de que existe um duplo de nós, uma sombra, que pode ter asas ou não. E esta fantasia já se arrastava há algum tempo e decidimos que esta sétima edição era o número mágico necessário, onde podíamos abrir o capitulo de dar vida e corpo à nossa marca que é por si só misteriosa. A narrativa do festival é cada vez mais explicita para nós. O InShadow é uma história que vai sendo construída. Os anos passam e nós vamo-nos determinando e até percebemo-nos melhor a intuição de determinadas apostas que fizemos antes. Cada ano é uma nova concretização.

EF: Mas o InShadow não se limita a mostrar. Os workshops e as masterclasses são uma forma de levarem o público a ser também produtor?

PSN: Workshop, masterclasses e aulas abertas, que estamos a fazer pela primeira vez, procuram dar uma parte física e participativa ao publico. O projeto educativo do InShadow é muito forte para nós. Procuramos de forma transversal dar a possibilidade que as pessoas possam experimentar com o corpo determinadas atividades mas também com a tecnologia porque alguns workshops promovem a relação com o corpo e com a câmara.

O projeto educativo relaciona-se com a sensibilização e formação do publico. É dar uma oportunidade ao público de estar com um artista em Lisboa que provavelmente não volta ou nunca esteve e fazer disso um momento importante de partilha de experiências. Por outro lado é pensar que os mais novos serão publico de futuro e essa transmissão para nós é mesmo fundamental e não queremos perder de vista. Além da nossa transdiciplinaridade somos claramente um projeto pedagógico

Os nossos workshosps têm uma formação muito inicial para que as pessoas experimentem e interajam de uma forma mais simbólica. Como somos uma associação sem fins lucrativos, se quiséssemos fazer algo mais profissionalizante teríamos de escolher um outro caminho e então achamos por bem que isto tem de ser visto como uma oportunidade e uma experiência nova em que cada um pode arriscar.

EF: E por isso o Little Shadow é uma forma de influenciar os mais pequenos e fazê-los entrar nestas áreas?

PSN: Eu não vou acreditar que todos os que por aqui passam vão fazer vídeo-dança ou entrar pela área artística. Eles podem fazer algo totalmente diferente, mas temos a consciência de que estas experiências vão fazer diferença não porque lhes vão mudar a vida, mas sim pela forma como nós as pensamos e as trabalhamos e com quem as fazemos. Acreditamos que podem fazer diferença numa questão de contexto social e escolar onde estão, pode ser uma chama viva para pensar o futuro de outra forma e voltar ao festival, já não com a escola mas com a família ou com os amigos mais tarde.

EF: Sobre o conceito de vídeo-dança, não será que o video vem acabar com o estatuto de performance? Não falamos nunca só de dança, nem só de video…

PSN: De uma certa perspetiva é verdade, vídeo-dança nem é vídeo nem é dança mas é vídeo-dança, ou seja, tem as duas coisas presentes. Mas não sei de que dança é que se esta a falar quando se diz que não é dança. Porque a dança, o corpo que se movimenta, não é necessariamente o corpo humano. Nós temos em competição alguns filmes que muitas vezes representam isso muito bem, como ter um dança de retroescavadoras num campo aberto imenso. Ou a dança de meia dúzia de fósforos. E aquilo é tanto dança como a do corpo humano. Portanto o conceito passa muito por onde é que esta dança se define. Sendo que a dança, na forma como deve ser vista no vídeo-dança, está na maior parte das vezes numa ideia de montagem. A dança está presente na própria montagem dos filmes, ou seja no corte da imagem para passar para outra. É que esta dança também esta associada a uma coreografia da própria câmara. Mesmo que o objecto que filma esteja fixo, isso continua a ser um parte coreográfica que é a decisão do movimento e do não movimento da câmara porque o não movimento também permite um movimento inerente que é uma diferente leitura de outra forma e a implicação e a disponibilidade do espetador estar envolvido de uma outra perspetiva.

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EF: Então falamos de dança como movimento de um corpo, apenas?

PSN: Sim, sendo que pode ser qualquer corpo. Aliás é pensar o gesto coreográfico em relação ao corpo, seja ele qual for, em articulação com a própria coreografia da própria câmara. Sem duvida que o próprio vídeo pode vir acrescentar algo à dança, mas também o contrário. Tem de haver uma sintonia entre a coreografia e o vídeo. Não pode ser uma decisão simples de filmar uma dança, uma coreografia que já esteja feita. Tem de ser uma decisão bem pensada.

Para haver vídeo-dança tem de haver uma sintonia. Ter uma dança filmada não é vídeo-dança, não lhe tira nada. Pode-se filmar a dança como um registo, para mostrar aos intérpretes o efeito, para gravar o momento, sei lá há mil razões para se filmar dança e se fazer esses registos de danças. Vídeo-dança implica um screen-dance, isto é uma dança pensada exclusivamente para ao ecrã. É pensar na coreografia estando ela presente no corte dos planos, no corte e colagem de imagens. Mas não é só a dança adaptar-se à câmara, é a câmara adaptar-se à dança e conseguir chegar à sua narrativa. E esse encontro é conseguido muitas vezes apenas na fase de montagem onde se define tudo

EF: E vocês procuraram passar essa ideia de montagem e de relação com a tecnologia para os momentos performativos?

PSN: Os nossos espetáculos têm uma articulação com a tecnologia, com a imagem, com a luz e a sombra. Apostamos em espetáculos da ordem da tecnologia e da interactividade, que muitas vezes é invisível ao espetador. Isto é, às vezes não se nota que a luz só acende quando um dos interpretes levanta um braço ou que o som vem dele ter batido com o pé num determinado local. Todas essas articulações estão muito presentes nas peças que nos escolhemos, sabendo que também é uma aventura nova esta função ou possibilidade tecnológica na área artística. Este cruzamento é para nós crucial.

EF: Temem que o vídeo-dança acabe por cair na banalidade com tanta presença na publicidade e no videoclip ou muito pelo contrário…

PSN: Não, não de todo. Nem te deixo acabar. Claro que adoramos a ideia do video-dança estar dentro da rotina. Isso é uma nota muito efervescente de que aquilo em que apostamos e que temos vindo a desenvolver é o caminho futuro. Quer dizer, não estou a dizer que posso pôr no mesmo saco videoclips, publicidade e vídeo-dança tudo igual mas, bom, cada um com as suas características são importantes e jogam com a imagem e o movimento. Por exemplo, no videoclip a música tem uma presença de destaque, tudo é feito para promover a música, no vídeo-dança há uma narrativa ligada ao corpo e como as imagens se interagem. Por exemplo, há muitos vídeo-dança com grande carga política e económica, muito recentes. Há trabalhos impressionantes sobre a questão mais atual que é a dos refugiados. E nos videoclips, há trabalhos incriveis de vídeo-dança e por isso já pensamos, mais até a Ana Rita de fazer uma secção só de videoclips. Há vários, alguns bem conhecidos, estou-me a lembrar agora do Valtari dos Sigur Ros que é uma brutalidade e consagra tudo da vídeo-dança ali. Em relação à publicidade, basta pensarmos um bocadinho. Que anúncio de perfume não é vídeo-dança? Ou de carros? A ideia de festejar o corpo e a dança pelo movimento é algo muito presente atualmente. Se é moda ou se sempre aconteceu não sei, mas foi sempre existindo. A publicidade tem de ser muito eficaz, o jogo de palavras é curto e a há que passar a ideia da marca e nesse aspecto o vídeo-dança é muito preciso porque dispensa a palavra e o teatro. O vídeo dança tem esse lado volátil, de convite, de fazer o público perceber a mensagem por ele.

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Tudo na vida é movimento. O universo está em constante expansão, tudo gira, tudo corre, tudo mexe. E há uma área de estudo que é o animismo que se pode associar muito facilmente ao InShadow. O animismo defende que todos os objectos têm vida, mesmo os inanimados. Eu não sei se aquela ideia de que viramos as costas, fechamos a porta de casa e a seguir os móveis e objectos têm vida e dançam e no fim quando estamos a chegar voltam a onde estavam, não sei mesmo se isso acontece ou não.

A verdade é que de forma implícita o nosso olhar sobre um objecto obriga a que se pense em movimento, sempre sempre sempre. E se associarmos a esse movimento a um bocadinho de coreografia, de algo mais ritmado, seja música ou o coração, acho mesmo que temos essa implicação inerente de dança ligada a tudo. E qualquer corpo pode dançar tão bem como o dito bailarinos, corpos do dia a dia

Fotografia: Inês Delgado

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