Steven Spielberg já provou por diversas vezes que, quando filma a guerra e a política, consegue ou oferecer verdadeiras obras-primas ou produzir filmes mais medíocres. A Ponte de Espiões é o seu novo trabalho e transporta-nos agora até à Guerra Fria. Será este então mais um título de alto calibre que faz jus ao nome do realizador, ou apenas um produto esquecível longe do nível a que já nos habitou?

À primeira vista, parece vir a inserir-se na última categoria. Tomando como base para a narrativa a história de James B. Donovan, advogado americano, que, em 1960, levou a cabo as negociações entre EUA e URSS na troca de prisioneiros, o filme apresenta-nos os bastidores da Guerra Fria e a forma como os vários intervenientes e ideias políticas foram tendo influência nessas mesmas transações.

Lida a sinopse, não é difícil de imaginar uma história contada de forma básica, com alguma tendência a apresentar os americanos de uma forma muito limpinha e os russos como uns rígidos e frios maus da fita. Pois bem, isso acaba tudo por acontecer. A narrativa linear sem grandes surpresas (conhecendo-se ou não o caso verídico, o tom com que a intriga se desenvolve vai indicando aos poucos como esta vai ser finalizada) e o favorecimento da apresentação dos EUA em relação à URSS (veja-se a diferença de tratamento dos espiões prisioneiros nos dois países, ou até as cenas filmadas nos tribunais das respetivas nações) comprovam algumas das primeiras impressões que o filme nos dá.

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Mas o que vai tornar A Ponte dos Espiões numa proposta muito mais interessante do que aparentava ser, são alguns detalhes muito mais cuidados e onde é colocado muitíssimo empenho. A ideia de que Spielberg havia ligado o “piloto automático” para nos apresentar um filme que se ficaria pelos mínimos acima enunciados é quebrada por variadíssimos aspetos.

Acima de tudo, o que mais surpreende é o visual da fita. Longe de uma realização convencional e sem grande encanto (algo que por vezes acontece no seu cinema), Spielberg vai construindo, com a ajuda do já parceiro de longa data na fotografia, Janusz Kaminski, magníficos planos onde joga com a luz e as sombras, que quer impressionam pela sua beleza quer pela sua importância na tensão da história. Enquanto a narrativa se desenrola nos EUA, o efeito das imagens pode não ser o mais fascinante, mas com a mudança para a Alemanha (onde decorrem os momentos fulcrais das negociações), o cineasta busca em seu auxílio o melhor a que tinha acesso nos cenários da Alemanha dos anos 60 para nos dar uma forte ideia do estado em que o país ficou depois da II Guerra Mundial. O tempo em que decorre a ação é, nada mais, nada menos, aquele em que começou a ser construído o Muro de Berlim, e é aí que o realizador vai criar algumas das cenas mais impressionantes do filme, desde o separar das famílias à tentativa desesperada de atravessar a barreira que separava a capital alemã (num momento que será mais tarde relembrado eficaz e perturbadoramente).

A força emocional e o sentimento de transporte para aquela época são acentuados por estas ideias visuais, mas é importante realçar outros pontos favoráveis que acrescem qualidade a A Ponte dos Espiões. É muitíssimo perspicaz como nos demonstram de que modo Donovan defendeu, antes de se iniciarem as negociações, Rudolf Abel, o espião russo preso nos EUA. O tema “será que um inimigo tem direito a um julgamento justo” e os comportamentos daqueles que rodeiam o “advogado do diabo” e a sua família podem nem ser dissecados por muito tempo (não porque se ignore ou se esqueça do assunto, mas porque na vida real assim foi), mas enquanto são o foco principal do filme, não há dúvida que estão extremamente bem executados, especialmente no que toca aos diálogos e às discussões entre o advogado e todos os que esperam que ele pouco ou nada faça em benefício do Abel (e aqui se faz bem sentir o talento dos irmãos Coen, encarregues do argumento). E atente-se ainda na breve representação do medo dos americanos face à ameaça russa, levando-os a ter teorias e ações (como se pode assistir numa das poucas vezes que vemos o filho de Donovan) que hoje parecem exageradas, mas que na altura eram o pão nosso de cada dia.

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A tal narrativa banal e a perspetiva mais americanamente favorável dos acontecimentos acabam por se ir disfarçando graças à inteligência de Spielberg, mas continua a haver alguns problemas que trazem falhas muito possivelmente evitáveis. As pontas soltas criadas em minúsculos sub-plots nunca são devidamente concluídas, o que retira até algum sentido ao porquê de sequer terem sido iniciados, e alguns mecanismos para apealar à emoção do público são uma perda de tempo, nomeadamente quando conhecemos a família de Abel. E, como seria de esperar, num filme de quase duas horas e meia, alguns momentos parecem mais lentos, não existindo por vezes muita fluidez.

A Ponte dos Espiões é, concluindo, uma boa surpresa por parte de Steven Spielberg. Pode não primar pela excelência das suas operas magnas, mas está bem longe de ser uma produção desprovida de encanto ou interesse. Completado pela boa performance de Tom Hanks e por uma banda sonora assinada pelo sempre agradável Thomas Newman, este é um filme que se afirma como um bom candidato à award season em que agora entramos.

7/10

Ficha Técnica
Título: Bridge of Spies
Realizador: Steven Spielberg
Argumento:  Matt Charman, Ethan Coen e Joel Coen
Elenco: Tom Hanks, Mark Rylance, Austin Stowell, Alan Alda, Sebastian Koch, Scott Shepherd
Género: Thriller, Drama, História
Duração: 141 minutos