Leonel Vieira é o nome que enche as bocas de Portugal: se por razões positivas ou negativas, fica ao critério de cada um. O realizador do filme português mais visto de todos os tempos, o remake do Pátio das Cantigas, tinha tido a sua última incursão ao leme de uma produção cinematográfica em 2008, sob a forma de Arte de Roubar: o filme analisado no Hollywood, tens cá disto? deste mês.

Dois ladrões “cheios de classe” (interpretados por Ivo Canelas e Enrique Arce) são presenteados com a hipótese de furtar facilmente um quadro de Van Gogh. E como é costume nestas situações, nada corre como planeado.

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Esta última frase pode sumariar o que de melhor e pior este filme tem. Trash até dizer chega, Arte de Roubar fervilha com referências cinematográficas: mais claramente a Robert Rodriguez, Quentin Tarantino, aos irmãos Cohen e a Guy Ritchie. O objectivo é mesmo dizimar qualquer pretensiosismo da obra e dar ao público hora e meia de entretenimento sem compromissos.

Nesse capítulo, Leonel Vieira factura positivamente. Ainda que com uma premissa reciclada, protagonistas sem grande complexidade e um elenco em que figuram Nicolau Breyner e Soraia Chaves (havia algum filme comercial português dessa altura que não tivesse os dois?), a película consegue apresentar alguns (bons) momentos de humor aleatório e tensão q.b.

José António Loureiro, director de fotografia, trabalhou habilmente a paleta de cores de forma a evocar o espirito western dos realizadores supracitados. Nuno Malo, compositor musical, acrescenta uma pulsação à la Morricone ao filme, numa banda-sonora que conta ainda com “guitarradas” de Dead Combo, Legendary Tigerman e The Soaked Lamb.

Os protagonistas, através de uma estrutura de guião (que está de longe de ser brilhante, mas é) competente, humanizam as suas personagens e, consequentemente investem-nos na acção. Canelas e Arce são de felicitar pelo muito que fizeram com tão pouco. Para além destes dois, a miríade de personagens secundárias que povoam o ecrã estão longe de ser memoráveis, mas, sendo caras conhecidas da televisão portuguesa, acabam por ajudar a temperar a salada que é Arte de Roubar.

Com algumas referências bem metidas lá pelo meio (nomeadamente através de “orelhas cortadas”, dinâmica mordomo-diva e posters), a que mais se destaca é a inclusão do ator Miguel Borges, de cabelo comprido, cicatriz na cara, pistola na mão e vingança no coração. As semelhanças ao El Mariachi (Antonio Banderas) da saga Desperado de Robert Rodriguez são demasiado propositadas para não provocarem ao menos uma risada.

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E, apesar de os cineastas claramente adorarem o cinema Trash, não fazem um all-in com a obra: e este é um estilo que só funciona se não se ficar pelas metades.

Se por um lado é falado num inglês aportuguesado para aumentar o mercado (e também para providenciar as míticas dobragens mal feitas ou inesperados laivos de português/espanhol), acaba por não conseguir agradar nem a gregos nem a troianos. A composição de alguns planos, num filme que deveria ser “mal feito” por natureza, podiam ter sido mais exagerados para acentuarem o estilo pretendido. A acção, que costuma ser um dos pontos fortes dos realizadores que inspiraram Vieira, acaba por ser descuidada. Não há espetacularidade, não há over-the-top nem uma sequência de planos que credibilizem as cenas de tiroteios ou “duelos”.

Por fim, a maior falha do filme é mesmo não ir buscar mais situações rocambolescas da vida portuguesa. Com uma certa dose de fantasia “filmográfica” estabelecida ao longo dos seus 103 minutos de duração, Arte de Roubar não capitaliza no ambiente em que se insere para comentar a sociedade e piscar o olho à sua audiência base (leia-se, os portugueses).

A personagem de Ivo Canelas, lá para o final da película, atira um inesperado “Tá tudo maluco?”. Embora seja um momento divertido, é inconsequente e não parece merecido: o filme tem muito pouco de português a condimentá-lo. A excepção acaba por ser a paisagem da Extremadura, que, pela sua beleza e aridez, bem podia ter sido usada por Sergio Leone em qualquer altura da sua carreira.

Arte de Roubar não é um filme a ser levado a sério. Não é uma obra genial, nem tão pouco mudará a vossa opinião sobre o cinema português. É sim uma primeira tentativa para abrir os horizontes da audiência (inter)nacional sobre o que pode ser feito em portugu… Quer dizer, por portugueses. Sem grande sentido de originalidade ou nacionalidade, é caso para dizer que Hollywood tem, definitivamente, disto.

Ficha Técnica:
Realizador: Leonel Vieira
Argumento: João Quadros, Roberto Santiago e Leonel Vieira
Elenco: Ivo Canelas, Enrique Arce, Flora Martínez, Nicolau Breyner, Soraia Chaves, Magüi Mira e Miguel Borges.
Duração:  103 minutos

5/10

HOLLYWOOD, TENS CÁ DISTO? PROMETE TRAZER, MENSALMENTE, ATÉ NÓS AQUILO QUE SÓ PORTUGAL NOS DÁ: O CINEMA PORTUGUÊS. NÃO QUE DE HOLLYWOOD NÃO CHEGUEM MUITOS TÍTULOS DE QUALIDADE, MAS DE PORTUGAL, AO LONGO DAS DÉCADAS, TÊM SIDO MUITOS OS GRANDES FILMES DE QUE POUCO SE FALA. ESTA É A RUBRICA CERTA PARA SE FALAR DELES.