B Fachada + Pega Monstro, no Maxime Sur Mer

Quinta-feira foi noite de luxo no Maxime Sur Mer. De split EP novo debaixo do braço, o pai e as meninas de ouro da Cafetra Records preparavam-se para dar o primeiro de uma mini-tour de concertos que passaria ainda por Porto, Braga e Coimbra. Num esforço de dimensões e divulgação imprecedidas, dada a fraca apetência da referida gravadora para as luzes da ribalta, o espectáculo prometia ser único.

Os sinais estavam lá, e os fãs não falharam em conferir-lhes o devido valor. O preço acessível de 8 euros para a entrada fez lotar o recém-reinaugurado espaço da casa de espectáculos ribeirinha, e  a mais de meia hora do início do espectáculo o caminho para o palco, amontoado de instrumentos pela sua limitada dimensão, já se fazia difícil. Para surpresa dos que esperavam o esquema habitual da banda de abertura seguida do acto principal, é Bernardo Fachada o primeiro a dar a cara, visivelmente contente por retornar às performances na capital (a última foi em dezembro do ano passado, no Musicbox). Sem grandes cumprimentos para além de um ou outro aceno, dirige-se ao piano de cauda para uma performance inusitada de afro-xula, do álbum de 2012 Criôlo. Sem microfone, é tacitamente acompanhado pelo coro afinado e sempre em cima da batida do público, que deixa desde já explícito que conhece bem o trabalho do músico.

Do piano passa à sua viola braguesa de assinatura, com a qual interpreta as gémeas mana e mano, de o fim, antes de passar ao lançamento que, afinal de contas, era o centro das atenções daquela noite: do split B Fachada/Pega Monstro, no qual cada um dos artistas interpreta temas da sua contraparte, B despacha a sua versão esquelética de Branca, antes de se despedir provisoriamente do público na promessa de regressar “para a festa”. Quase instantaneamente, as Pega Monstro tomam o seu lugar, abrindo o seu set muito adequadamente com a versão original do mesmo tema, para delírio da plateia. Muito mais reservadas que o seu mentor, endereçam-se muito pontualmente ao público com um “obrigado” tímido, mas são irrepreensíveis na música em si, circulando pelas ferozes malhas de Alfarroba (2015). Com muita distorção, barulho e pedais à mistura, e incitando alguns moshpits e crowdsurfs pelo caminho, as Pega Monstro  fazem por merecer o amor do público, com destaque para a deslumbrantemente orquestrada versão de Responso para Maridos Transviados, de B Fachada.

Terminado o set de oito ou nove músicas das manas, dá-se o retorno do tio ao palco, de ânimos tão ou mais efusivos e sobriedade visivelmente adulterada. Mata saudades com Pall Mall, ambicioso cover das suas protegés que une ao som tradicional da braguesa as suas elípticas batidas electrónicas. A partir daí, centrando-se no autointitulado álbum de 2014, o sintetizador passa a estar nas luzes da ribalta, consubstanciado pela personalidade excêntrica de Fachada: se, por um lado, mostrava a irreverência de quem se ri do público, provoca o próprio engenheiro de som e compara casualmente a atual situação política ao processo revolucionário pós-25 de abril, por outro provava vezes sem conta o seu virtuosismo musical, suando com cada nota e cada palavra que cuspia para o microfone. Monta um verdadeiro baile tropical no Maxime com Camuflado, Dá mais música à bófia e Crus, apenas para logo depois desmontá-lo com uma emocionante rendição de boa nova, novamente à braguesa.

Termina como começou: ao piano, sem microfone e apoiado pela plateia no tema tó-zé. Sem encores ou grandes vénias que o tomem, B Fachada despede-se, consciente de que nunca deixou de ter o público na mão e de que, com a ajuda das Pega Monstro, fez valer cada cêntimo do custo da entrada. Que venham mais vezes, e que continuem a render o público da forma que só eles sabem.

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