Desta Carne Lassa do Mundo estreou na passada segunda-feira, dia 16 de novembro, às 22h, no Picadeiro do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa. A criação e direção artística partiu de Romeu e Julieta, de William Shakespeare, um clássico sobre dois jovens que se apaixonam, mas por tragédia pertencem a famílias adversárias, os Capuleto e os Montecchio

Com conceção, direção artística e figurinos de Daniel Gorjão, em Desta Carne Lassa do Mundo funde-se o mito que nos persegue, de geração em geração, para um questionamento sobre o amor total, um amor que se situa já na vida urbana, que é contemporâneo e que aborda a problemática do desejo e da erosão, pensando a insignificância da morte perante a felicidade da ternura como motor de vida.

fonte: página oficial de Facebook do Teatro do Vão

Fonte: Página oficial de Facebook do Teatro do Vão

Na humilde bilheteira improvisada no Picadeiro do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, é oferecida uma senha para um copo de vinho que se poderá levantar mais à frente, no caminho para o espaço no qual se realizará o espetáculo. O vinho, de João Portugal Ramos, intitula-se Pouca Roupa e provém do Alentejo. A versão apresentada é a tinta, apesar de existir em branco e rosé. Espera-se que o álcool inebrie o público tal como o amor inebriará os amantes.

Ao observar o Picadeiro, lugar destinado à mestria de cavalos, abarca-se com o olhar o cenário. Ao público estão destinados blocos do que aparenta ser cortiça escura. Pelo ar, propaga-se um qualquer DJset em jeito de warm-up. Um grupo de jovens protagoniza uma pequena dramatização: serão atores? Não, esses cruzam-se com o público, cumprimentam amigos e conhecidos, mas distinguem-se pela indumentária branca, de cima a baixo. Alguém grita o primeiro nome de um dos atores: é André Patrício, que interpretará Frei Lourenço. Romeu, Julieta, Tebaldo, Benvólio e a Ama estão também presentes. O PrincípePáris e Rosalina estarão algures. Ana Sampaio e Maia, Carla Galvão, João Duarte Costa, João Villas-Boas, Miguel da Cunha, Miguel Raposo, Teresa Tavares  e Vitor D’Andrade constituem o restante elenco.

“Súbditos rebeldes, inimigos da paz,/ É com sangue dos vossos que profanais o aço/ Não me ouvis?/ (…)/ Repito, sob pena de morte, retirai-vos todos./ Quem de novo abriu esta velha rixa?” – Princípe in Desta Carne Lassa do Mundo

Pouco depois das 22h, Desta Carne Lassa do Mundo finalmente começa. Inicia-se um confronto, entre os Capuleto, fação constituída por Julieta, Tebaldo e a Ama, e os Montecchio constituída por Romeu, Benvólio e Frei Lourenço. Ao som de OkiN, música original do compositor e músico Miguel Lucas Mendes, cria-se um campo de batalha, no qual os protagonistas interpretam uma luta coreografada. Quando prostrados, o Príncipe entra em cena através de um vídeo projetado numa das paredes. É introduzido o primeiro elemento audiovisual da noite, não em português, mas num inglês britânico, às vezes pouco difícil de compreender. A tradução das projeções foi disponibilizada, em formato impresso, à entrada, mas é pouco útil com tão precária iluminação, que apesar de não ajudar à leitura, por outro lado se adequa perfeitamente ao contexto.

Tebaldo, Julieta e a Ama. fonte: página oficial de Facebook do Teatro do Vão

Tebaldo, Julieta e a Ama. / fonte: página oficial de Facebook do Teatro do Vão

Benvólio, Romeu e Frei Lourenço/ fonte: página oficial de Facebook do Teatro do Vão

Benvólio, Romeu e Frei Lourenço / fonte: página oficial de Facebook do Teatro do Vão

Romeu amava Rosalina, antes de conhecer Julieta. Esta, por sua vez, é aconselhada pela sua Ama a deixar-se cortejar por Páris, um jovem nobre, parente do Príncipe. Julieta não se convence nem Benvólio parece convencer Romeu a ir à festa que a família da jovem organizou para aquela mesma noite. O filho único dos Montecchio discursa, poética e desesperadamente, sobre o seu amor não correspondido. Contudo, acaba por ser persuadido e é, entre personagens de copo de plástico na mão e ambiente de discoteca, que tropeça naquela que se tornará o seu novo objeto de afeto.

O desejo e o seu poder sedutor é temática abordada e Julieta refere-se muitas vezes a si própria como pecadora, por cair tão facilmente nos braços de Romeu. Ao seguirmos atentamente a cena em que os jovens se conhecem, na qual não há varanda, mas há um beijo muito apaixonado e com alguma duração, reconhece-se aquilo a que se apelida encontro do séc. XXI, um amor à primeira vista com poucas pernas para andar.

A ação Desta Carne Lassa do Mundo ocorre numa única noite, contada com o máximo de recursos disponíveis, desde o vídeo, que se assume como cenografia, às muitas coreografias, que por vezes não pausam o discurso. A música está sempre presente e os microfones nem sempre calibrados. Ainda assim, o espetáculo conquista pela experimentação e liberdade, explícita no furor sexual presente na peça e na criatividade da nova dramaturgia criada. Embora longe de ser perfeito, é de relembrar que a perfeição é só por si difícil de alcançar, sobretudo quando se ousa tanto. É ao pisar o risco que o espetador se sente impelido a focar cada vez mais a sua atenção no centro do conflito.

“A capa da noite esconde-me de seus olhos/ E, a menos tu me ames, eles que me encontrem./ Antes a minha vida acabe pelo seu ódio/ Que a morte me seja adiada, sem o teu amor” – Páris, in tradução projeções desta carne lassa do mundo)

Destaca-se a cena em que Benvólio e Tebaldo se aproximam, em câmara lenta, para um confronto anunciado, ao mesmo tempo que, surpreendentemente, se declaram, através de um apaixonante diálogo, talvez o mais bonito de todo o texto, dito também em projeção, mas em inglês, por Páris e Rosalina – e repetido entre mais dois pares de personagens. Não esquecer de elogiar a poderosa voz de Carla Galvão e a iniciativa de Daniel Gorjão, que potenciou um espaço humano e físico capaz de estimular a criatividade e originalidade.

Desta Carne Lassa do Mundo, uma produção do Teatro do Vão, está em cena até dia 22 de novembro, às 22h, no Picadeiro do Museu Nacional de História Natural e da Ciência. O bilhete tem um preço único de 7,50€.

Fotografias de ensaio: Rui Palma