Às 18 horas de Sexta-Feira estou sentado numa mesa de esplanada no Largo de S. Paulo no Cais do Sodré. Os outros três lugares são ocupados pelos Pista, banda que à noite tinha marcado para o Musicbox o primeiro de dois concertos de apresentação do álbum Bamboleio, que lançaram nesse dia. Para um rapaz que sonha um dia viver dos e nos bastidores do mundo da música, estavam lançados os dados para um momento de realização.

Há uma pergunta que tenho de colocar aqui diretamente. Porquê Pista? A resposta foi-me dada por Ernesto Vitali que, submetido a uma “praxe” de Bruno Afonso e Cláudio Fernandes (elementos fundadores da banda) e que segundo o próprio Cláudio foi contratado depois de ser despedido dos Scorpions, se viu na função de responder sobre uma decisão que não foi sua. Saiu-se bem: “Pista porque tudo pode ser uma pista e uma pista implica energia e movimento, tal como a nossa música. Mas essencialmente porque eles os dois andavam muito de bicicleta e ligados à cena urbana da bike. É um nome fácil, catchy e repentino”.

Dando um salto para as 23 horas e uns quantos minutos, quando começam a ecoar do Musicbox os primeiros acordes de Ar de Inverno, há duas coisas que são imediatamente compreendidas: os Pista são mesmo repentinos e de inverno, a música que também abre o álbum, tem muito pouco, mostrando assim o rumo certo para aquela noite: guitarras extrovertidas, uma bateria de respeito e uma felicidade dançante e cristalizada dentro daquelas paredes, enquanto lá fora o mundo assistia a níveis de violência quase pornográficos vindos de Paris. Ao menos aqui estamos a salvo e somos temporariamente ignorantes.

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À segunda música, aparece em palco Óscar Silva, conhecido como Jibóia. Chegou de guitarra ao ombro para ajudar a tocar Bamboleio, a faixa que dá título ao álbum. Estava assim aberto o caminho para que houvesse convidados em praticamente todas as músicas. E apesar de à tarde a banda ter brincado dizendo que não os conhecia parte nenhuma, Cláudio Fernandes explicou que todos eles eram músicos oriundos dos mesmos locais e escolas que a banda frequentava. Pessoas que admiravam, de quem gostavam e com quem queriam partilhar aquela festa. Ainda por cima vindos do Barreiro, cidade criativa onde “todos tocam com todos”.

Eram muitos e foram entrando e saindo, complicando a vida ao pobre jornalista (a lista de cada convidado em cada música pode ser vista no fim). Em Sal Mão, segundo single da banda e primeiro momento alto da noite, chegaram mais uns quantos. Eram eles Alex D’Alva Teixeira, Nick Suave, Fast Eddie Nelson e Benjamim. Este último tem um lugar especial nos corações do trio porque, segundo os próprios “ele veio trazer aquele toque e sensibilidade que eram precisos”. Foi também Benjamim que ajudou a banda na decisão de ir para Alvito, numa tentativa de “sair daqui e gravar num sítio onde estivéssemos dedicados [a banda] apenas àquilo”, diz Cláudio. Já Bruno Afonso afirma que o Alentejo foi o lugar ideal pela calma e paz de espírito que trouxe à banda.

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Depois de nos dar peixe, a banda leva-nos a fazer uma recuperação ativa dos pés de dança e das cabeças que abanam através de Ivone e A Tal Tropical.  Ao mesmo tempo faz-se a condução até Campipraia, música nova que mostra não só uns Pista um tanto mais “pesaditos” como, também, um Alex D’Alva Teixeira a comportar-se como uma autêntica estrela do rock.

Já o concerto ia a meio e confirmava-se cada vez mais a resposta unânime que eles me tinham dado à tarde, a pista dos Pista é mesmo o palco e é lá que se sentem melhor. De tal forma que o próprio álbum foi, com a exceção de alguns overdubs gravados posteriormente, gravado num só take. Prova de que a sua música é feita para mostrar, é a batalha de baterias presente na Onduras e que naquela noite foi travada entre Bruno Afonso e Ricardo Martins, outro dos convidados.

A música que se seguiu, anunciada como sendo uma nova, foi PUXA. Primeiro single do Bamboleio e aquele que pode ser considerado como o grande hino dos Pista. E, apesar de ter representado aquele que foi, provavelmente, o momento de maior êxtase da noite, foi paradoxalmente aquele em que parei para pensar. Em pleno século XXI, quando é cada vez mais complicado fazer alguma coisa que seja verdadeiramente inovadora e que nunca nos soe a rigorosamente nada que já tenha sido feito, os Pista estão a ser capazes de criar um estilo que encerra uma definição em si mesmo, que se alimenta e influência a si próprio. Eu sei que vão aparecer uma série de haters com uma lista intensiva de bandas semelhantes e mais antigas a tentar provar-me que só estou a dizer disparates. Mas, para mim, a partir de agora e para sempre, o som dos Pista nunca me vai soar à banda x ou y. Quanto muito, será o som de vindouras bandas e artistas que poderá ser parecido com o da malta de Sal Mão. Aquilo que quero dizer (perdoem-me a parcialidade própria do fã que sou) é que na casa que tem sido o rock dos últimos tempos, os Pista conseguiram criar um quarto próprio.

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Até ao fim do concerto, é importante destacar ainda a vinda ao palco dos Bro-X para uma interpretação espalhafatosa da sua Bum Bonba e ainda um dos momentos mais aguardados da noite, a preferida da banda Queráute, que soou ainda “mais grande” e imperial que no álbum, oferecendo também a proeza de meter dentro do pequeno palco do Musicbox todos os convidados da noite. Ao todo contavam-se duas baterias, um sintetizador, um baixo, Alex D’Alva Teixeira na voz e, prepararem-se, seis guitarras. Seis! Formando uma das orquestras mais badass que já vi na vida.

Depois do fim, saí à rua e soube do que se estava a passar. Não quero fingir que fiquei mais consternado do que aquilo que na realidade estava. Mas doeu perceber que são reais e palpáveis os motivos para ficar desiludido com o mundo e deixar de ter alguma fé na humanidade. Dentro daquela sala tinha assistido a uma das festas mais bonitas que já vi e tinha conseguido recuperar a excitação que se vai perdendo à medida que se vai vendo mais bandas e que se torna cada vez mais difícil ser surpreendido. Mas os Pista surpreenderam por tudo. Pela entrega, pela simpatia e pela atitude direta, sem rodeios, tiques de vedeta ou folclores que, muitas vezes, são só o disfarce para a falta de alguma coisa. Foram apenas e só a sua música e a sua música é a alegria e uma descarga energia a que todos nós devíamos ser obrigatoriamente submetidos como cura para os males da vida. Mandem-me de volta para o bamboleio e para dentro do Musicbox. Naquela pista nunca dançará a tristeza.

Fotografias de Margarida Sousa Silva.