O Hard Club está cheio. Neste momento, os Youthless estão a apresentar-se ao Porto. Trazem nos bolsos um álbum desconhecido que só sai no próximo ano. Um álbum que transpira rock danado. E há medida que começa a encher, sente-se no ar o calor da expectativa. Estas pessoas trazem em si a certeza que não vieram para estarem paradas. Até porque Unknown Mortal Orchestra não merece uma plateia parada. Tanto não merece como é impossível.

Há medida que se começa a ver uma migração geral para ocupar os lugares da frente, ouve-se um grupo de amigos que tentam adivinhar a setlist de hoje. “Multi-Love vai ser a segunda”. “Se eles não tocam a Swim and Sleep vou chorar”. Do fumo do fundo do palco entram Ruban, Riley, Jake e Quincy. Não tardou a adivinhar a primeira música. Like Acid Rain tratou de fazer com que aqueles jovens esquecessem as suas apostas. Não foi preciso fazê-las mais. Com uma abertura assim basta confiar. Eles sabem o que fazem, quando fazem, como fazem.

UMO_5

Segue-se uma pequena revisitação aos álbuns antigos. E segue-se a parte em que o público se sente a perder território. “I think Lisbon did better than you, guys. Well… Maybe.”, Ruban afirma da primeira vez que se dirige ao público do Porto. A Invicta não seria tão invicta se perdesse o amor de Ruban. O público sente a picada e o ambiente cresce. A partir de agora, entre cada música não há silêncio. Cada acorde é seguido de uma palma, cada nota é seguido de um grito vindo do fundo da sala. Ora, se há coisa que não se deve fazer é atiçar o público do Porto.

E é no meio deste reboliço que se ouve um bombo. Uma tarola. Um bombo. Uma tarola. Um bombo. Um bombo. Uma tarola. Ur Life One Night serve não só para tirar o restante dos casacos que ainda estavam vestidos. Serve para ver no palco um dos solos de bateria mais bem conseguidos de Riley. Ruban está a mexer nos pedais mas pára. Olha para trás. Sorri. O amigo está imparável. Olha para Jake e Quincy admirado e a rir-se.

UMO_6

Mas é em So Good at Being in Trouble que nasce um dos momentos altos da noite. O refrão arrepia. Toda aquela sala em uníssono, qual hino num estádio cheio. Poderá mesmo dizer-se que é um hino. Nunca um refrão soou tão bem numa sala fechada, quente, apinhada e suada. O Hard Club torna-se pequeno demais para aquele refrão.

Swim and Sleep (Like a Shark) merece uma nota de destaque. Por todo o som, por toda a nostalgia, por toda esta musicalidade que em palco se torna mais do que uma música de dois minutos e meio.

Na hipótese de errar e ser considerado blasfemo, Stage or Screen protagoniza o momento épico da noite. Ruban sai do conforto da sua guitarra. Põe um pé no palco e outro nas grades. Do nada desaparece. Está no meio do público, que abre logo um túnel por onde Ruban passa. Toda a música é cantada com quem ali estava. Já no palco o microfone que Ruban usa deixa de funcionar. O último refrão não se ouve. Mas vê-se. Ruban não deixa que aquilo lhe afete. Ao som da último compasso, uma pirueta e uma espargata. A plateia não aguenta. Fosse isto sentado e estava tudo de pé a aplaudir.

UMO

Multi-Love consegue encerrar ainda melhor o que já tinha começado da melhor forma. Quem lá esteve certamente leva no coração todo o amor que os Unknown Mortal Orchestra vieram dar. O concerto acaba. Riley ostenta na sua mão a garrafa de whisky, enquanto se levanta e sai com menos uma baqueta no estojo, já que a ofereceu a um mar de braços que se levantou para a apanhar. Ruban agradece o carinho. Mas o público não descansa. Pede mais. Aquele grupo de amigos sabe que eles vão voltar. Sabem que ainda falta pelo menos uma. Ruban aparece do meio da névoa que o palco artificialmente criou. Fosse isto numa manhã e estávamos perante aquele que nos iria resgatar do mundo comercial.

É com Can’t Keep Checking My Phone, e um irónico telemóvel a gravar da fila da frente, que o concerto termina. Morram nunca, meus senhores. Morram nunca.

Fotos gentilmente cedidas por Ana Marta Ferreira.