Na noite da passada sexta-feira, Paris voltou a chorar e o Mundo voltou a assistir a uma barbárie raramente vista no seio da Europa. O Espalha-Factos tem abordado, em vários artigos, o trágico acontecimento. Hoje chegou a altura da secção de cinema prestar também a sua homenagem à capital francesa, numa edição especial do 5.

Esta semana, em vez da típica lista de 5 filmes, decidimos multiplicar esse número por 3 (o mesmo número de máximas de França: Liberdade, Igualdade e Fraternidade) e oferecer uma mais vasta panóplia de títulos que têm a sua ação a decorrer em Paris, desde dramas a comédias, sem esquecer algumas animações. Todas servem para demonstrar uma cidade encantadora, bela e luminosa, e não uma cidade abalada pela tragédia. Porque, se o objetivo dos extremistas é impor-nos o medo e o terror, a nossa resposta é levantarmo-nos e relembrarmos Paris como ela é e pelo que ela representa.

Os Quatrocentos Golpes (1959)

Não só um dos grandes filmes franceses, como também um dos maiores de sempre. Os Quatrocentos Golpes é um inesquecível retrato da juventude parisiense em meados do século XX, levado a cabo pelo icónico François Truffaut. Paris serve de palco para Antoine Doniel (interpretado por Jean-Pierre Léaud) ser e fazer aquilo que uma típica criança é e faz: correr pelas ruas, brincar com os amigos, fazer as suas malandrices, etc. Incompreendido pelos pais e vítima da rigidez do seu professor, Antoine acaba por cometer um roubo e é consequentemente levado até uma prisão para rapazes problemáticos. Mas até lá, o que brilha mais é o espírito juvenil e a Paris de fundo, brilhantemente filmados por Truffaut.

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Bando à Parte (1964)

Realizado por um dos mestres da Nouvelle Vague francesa, Bando à Parte é apenas um dos filmes de Jean-Luc Godard que se passa em Paris. O filme fala-nos de dois companheiros que adoram filmes de Hollywood de série B e que convencem um aluno das aulas de línguas a cometer um assalto com eles. O filme serviu depois de inspiração para outros trabalhos, como o The Dreamers de Bertolucci, onde a cena ícone de correr pelo Louvre foi, precisamente, retirada do Bando à Parte.

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O Acossado (1960)

Também ele realizador por Jean-Luc Godard, O Acossado passa-se pela capital francesa e tem como influência os escritos de François Truffaut (outra grande voz da Nouvelle Vague francesa dos anos 60 do século passado). Nomeado para um BAFTA da academia britanica, o filme fala-nos de um criminoso que conhece uma aspirante a jornalista e a tenta persuadir e fugir com ele para a Itália.

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C’était un Rendez-vous (1976)

Esta curta-metragem assinada por Claude Lelouch de 8 minutos e meio é, porventura, o mais simples título desta lista. Filmado a alta velocidade num só plano, somos literalmente conduzidos por Paris, passando por locais míticos como o Arco do Triunfo ou a Praça da Concórdia. O passeio decorre ao amanhecer, pelas 5h30m da manhã, onde poucos são ainda os carros nas estradas e as pessoas nas ruas, sendo que o único som que se ouve ao longo dos 8 minutos é o motor do carro e os seus pneus a guinar. É possível assistir a C’étair un Rendez-vous no YouTube aqui.

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Três Cores: Azul (1993)

Primeiro capítulo da Trilogia das Cores de Kieslowski, Azul dá-nos a conhecer Julie, uma mulher que recentemente perdeu o marido e o filho no acidente de viação e que, numa tentativa de sarar estas feridas, se vai tentar isolar de tudo e todos. Os três filmes desta saga de cores representam cada um as três máximas de França, sendo este Azul aquele que se traduz na Liberdade, neste caso, nas próprias palavras do realizador, uma liberdade emocional e não política. Juliette Binoche é quem nos guia por esta procura de Julie de uma libertação dos fantasmas do passado, enquanto deambula pelas ruas de Paris.

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O Corcunda de Notre Dame (1996)

Grande parte dos filhos dos anos 90 terão tido o seu primeiro contacto com a cidade de Paris neste filme. Uma adaptação softcore do livro de Victor Hugo, este é, não obstante, um dos mais sombrios filmes da Disney. Com uma direcção de arte e fotografia a capturar habilmente o ambiente gótico, uma banda sonora que oscila entre a esperança cega e o desespero mortal, para além de abordar temas como desejo sexual vs fé, corrupção, genocídio, infanticídio e, sobretudo, a crença no perdão divino. No meio de tudo isto, consegue ser uma história com várias lições de bondade e onde o olhar de uma criança é mais importante do que o do resto do mundo.

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Moulin Rouge! (2001)

O épico musical do australiano Baz Luhrmann tem como cenário uma Paris boémia dos anos 20-30, a era dos musicais, da luzes e espectáculos. Este filme musical encabeçado por Nicole Kidman e Ewan McGregor ganhou dois Oscars e foi responsável por tornar o bar Moulin Rouge numa atracção conhecida a nível mundial.

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O Fabuloso Destino de Amélie (2001)

O porquê de O Fabuloso Destino de Amélie estar nesta lista nem se prende tanto pelo simples facto de a sua história decorrer em Paris. É, isso sim, pela forma como um dos cenários mais famosos do filme, o Café de 2 Moulins, se ter tornado, desde 2001, uma das maiores atrações turísticas da cidade. É a prova não só da enorme popularidade de Amélie, como também da eterna ligação que a obra tem e continuará a ter com a capital de França.

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Os Sonhadores (2003)

Renascimento, rejuvenescimento, revolução, tentação e cinema. Tudo palavras que podem ser, de uma forma ou de outra, sinónimos de Paris, mas também deste clássico moderno de Bernardo Bertolucci. Uma ode ao espírito rebelde que reinava nos anos 60, o filme rejubila com a força, sensualidade, intelecto e carisma dos seus 3 protagonistas: Eva Green, Michael Pitt e Louis Garrel. Uma obra que faz jus ao nome da cidade que habita e que assombrará a mente da sua audiência com questões fundamentais.

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Antes de Anoitecer (2004)

A trilogia de Richard Linklater tem a particularidade de ter os seus dois protagonistas a passarem por fazes decisivas da sua relação com uma localização europeia de fundo. Em Antes de Anoitecer, o capítulo do meio, Jesse e Céline reencontram-se em Paris, nove anos após se terem conhecido em Viena. As conversas, os pensamentos e os sentimentos que os dois partilham um com o outro ao longo do dia têm já de si o seu grande encanto, ou não fosse o argumento co-escrito entre Linklater e os dois atores Ethan Hawke e Julie Delpy, mas muito ganham com as paisagens parisienses a ambientarem a paixão do casal.

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Em Paris (2006)

O título não deixa lugar a enganos: a narrativa decorre na capital francesa. Mostrando a dicotomia das vidas entre os irmãos PaulJonathan, o primeiro deprimido e de ressaca do fim de um relacionamento, o segundo sempre jovial e pronto para o engate, Em Paris é um filme é extremamente melancólico mas não menos belo e arrebatador. Romain Duris e Louis Garrel são os atores principais numa obra de excelência em todos os detalhes.

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Paris, je t’aime (2006)

Uma carta de amor à capital francesa, ou melhor, dezoito cartas de amor à capital francesa é o que constitui este Paris, je t’aime. Cada uma delas é passada num arrondissement diferente e realizada igualmente por cineastas distintos. E não se pense que por ser uma filme sobre Paris que aqueles que o assinam são todos franceses. Os encantos da cidade levaram a que Wes Craven, Alfonso Cuarón, Gus Van Sant e até os irmãos Coen se juntassem a este projeto, no que resultou numa série de variadíssimas curtas-metragens compiladas numa lista de “histórias de amor da cidade do amor”, como diz o seu slogan.

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Ratatui (2007)

Ratatui é um filme de animação da Disney Pixar realizado por Brad Bird. Passado nas ruas de Paris, e também nos seus esgotos, este é um filme que nos fala de um rato que sabe cozinhar e de um aprendiz a chef que, quando contratado para um restaurante bastante famoso da cidade, começa a ser ajudado por este pequeno companheiro. O filme é um dos ícones do cinema da Pixar, ganhando o Oscar para melhor animação em 2008 e através dele conseguimos homenagear toda uma cidade e o nível de restauração da mesma, que é mundialmente reconhecido.

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Meia-Noite em Paris (2011)

Um dos mais recentes filmes de Woody Allen, esta sua obra, que recebeu um Oscar da Academia e foi nomeado para outros três, é uma autêntica carta de amor à cidade da luz, moda e romance. O realizador tem já por hábito realizar filmes em cidades que o marcaram de qualquer forma, em Meia Noite em Paris podemos perceber que a capital francesa é talvez uma das maiores influências europeias no cinema de Allen.

(O Espalha-Factos tem uma crítica integral a Meia-Note em Paris aqui)

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Libre et Assoupi (2014)

Libre et Assoupi, protagonizado por Baptiste Lecaplain, Charlotte LeBon e Félix Moati é uma comédia que nos inquieta o pensamento por ter um permanente drama em fundo, o drama de uma sociedade que aceita mal os sonhos, que vive mal com o que não é quantificável, que é viciada em horários, manuais de procedimentos e contagens.

Sébastien é um jovem de quase 30 anos que após ter realizado dezenas de formações superiores continua perante uma inevitabilidade: Não quer fazer nada. Não quer apaixonar-se, porque isso é demasiada emoção forte e demasiado esforço para conquistar. Não quer trabalhar, porque para chegar mais longe tem de trabalhar muito. Não quer viver, porque a contemplação pode bem chegar-lhe. Pessoalmente, Paris é dos meus lugares preferidos no mundo e chegar-me-ia para ser feliz, sempre.

(O Espalha-Factos fez, aquando da estreia do filme na Festa do Cinema Francês, uma crítica integral a Libre et Assoupi, que podes ler aqui)

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Artigo redigido por Diogo Simão, Pedro Miguel Coelho, Ricardo Rodrigues e Sebastião Barata