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Moullinex e Throes + The Shine inauguram o Tanque

É na Rua das Portas de Santo Antão que se situa um dos mais históricos espaços da capital portuguesa: o Ateneu Comercial de Lisboa. Fundado em 1880 e passando por vários locais até chegar ao Palácio de Povolide (a sua localização desde 1895), o Ateneu tinha como objetivo aquando da sua criação por um grupo de comerciantes e operários, proporcionar às classes menos privilegiadas de Lisboa a possibilidade de acederem à educação, à cultura e à prática desportiva, coisas que no século XIX estavam apenas ao alcance de uma pequena elite.

Volvida uma história que este ano comemora 135 anos e que foi feita de avanços e recuos, de pontos altos e baixos, e, acima de tudo, com a manutenção da casa a ser conseguida por meia dúzia de pessoas com eterno amor à camisola, o Ateneu Comercial encontra-se hoje insolvente, sem grandes condições de subsistência e, principalmente, a ser o campo de batalha entre interesses “imobiliário-empreendedores” de uns quantos e a vontade inconvenientemente teimosa de outros em lutar para que o Ateneu continue a ser aquilo que sempre foi e deve continuar a ser: um espaço lúdico de prática desportiva e difusão cultural.

Os ventos não são benéficos. No ringue já não se joga basquetebol, nas salas já não se dão aulas e na piscina já não se nada porque, de facto, já nem água tem. Mas nem tudo é mau. Num movimento de revitalização do espaço começado sobretudo pelo Bar Primeiro Andar e pelas suas tertúlias de poesia e atuações musicais, o Ateneu ganhou agora uma nova arma para se manter minimamente próximo dos seus nobres propósitos: o Tanque.

O Tanque não é mais que o aproveitar de uma piscina vazia onde agora está montado um palco, o Tanque não será mais que os cem metros de costas ou mariposa convertidos aos concertos, às festas chique/hipster/trendie e a ser um dos espaços da edição do Vodafone Mexefest deste ano. O Tanque pode ser apenas isto. Mas ser isto já é muito mais e muito melhor do que vir a ser um hotel qualquer com um restaurante fino que a maior parte de nós não tem dinheiro para pagar. Ao menos a cultura continua a ser (relativamente) barata.

A inauguração do local que mantém as boias, os azulejos e todos os adornos próprios de uma piscina decente ficou a cargo de Moullinex em formato de banda e da fusão musical frenética que são os Throes + The Shine. A ligação entre os artistas é muito simples. O primeiro, com a “sua” Discotexas, vai ser o produtor do terceiro álbum dos segundos. E é por isso que Moullinex se atira ao baixo e ao microfone acompanhado de um guitarrista e uma baterista para tocarem algumas canções no seu segundo e mais recente disco, Elsewhere. A atuação, que não chegou a uma hora, começou alegremente com Anxiety e terminou com uma versão mais “pesadita” da faixa que também encerra o álbum, Sing My Heart Asleep. No entanto os destaques óbvios foram para os hinos Take a Chance e Take My Pain Away, que foram capazes de fazer mostrar de forma mais assumida a voz do público e os pés marotos de dança daqueles que se atreveram a dançar.

Pouco depois, já os Throes + The Shine estavam a “partir chão” com um arranque fulgurante ao som de Dombolo. E esta foi uma atuação engraçada. Graças ao tipo de sonoridade que a banda oferece, aliada a uma acústica que está longe de ser maravilhosa (não esquecer a piscina), ao longo de uma hora tornou-se difícil discernir o que era o quê dentro de uma parece de som que chegava com agressividade. Mas ninguém pareceu importar-se particularmente com isto. Os “Throes” foram desfilando os seus maiores êxitos desde Tuyeto Mukina, passando por Tipo YA e finalizando com a triunfal Batida. Pouco importou se as vozes nem sempre foram claras e se as teclas quase nunca foram limpas. No fim do concerto, já com as duas bandas em cima do palco, seriam poucos aqueles que no Tanque não se sentiam como se tivessem acabado de correr uma maratona.

À medida que ia passeando pelos refrões de Moullinex e pelo “rockuduro” dos Throes + The Shine a única coisa que conseguia sentir era uma felicidade um tanto ou quanto ingénua por acreditar que com persistência e uma boa dose de juvenil insubordinação ainda é possível fazer com que a cultura vença as coisas que fazem bem ao PIB. A acústica do espaço não é a melhor e o calor dentro da “sala”, de vez em quando, roçou o insuportável. Mas nem nos melhores salões de um hotel de cinco estrelas eu seria capaz de dançar como dancei. Como toda a gente dançou. Viva o Tanque.

“Foi bonita a festa, pá. Fiquei contente.”.

Fotografias: Élio Santos

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