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Passo a Passo com Mary Wigman

Mary Wigman, bailarina de exímio reconhecimento na Europa do início do século XX, é a figura e pensamento de destaque desta edição do Passo a Passo.

Baptizada como Karoline Sophie Marie Wiegmann a 13 de Novembro de 1886, em Hannover, na Alemanha, a bailarina, coreógrafa e professora de dança que encabeçou a entrada da dança no movimento expressionista foi também a grande fundadora da dançaterapia. Foi o método rítmico de Émile Jacques-Dalcroze (ginastíca rítmica) que deslumbrou Wigman e a seduziu a entrar no mundo da arte do movimento aos 24 anos. Já formada e certificada pelo e com o método do músico austríaco, em 1913, na Suiça, Wigman fez um curso com Rudolf Von Laban, o grande teórico da dança do século XX.

Em 1920 fundou a sua primeira escola, a Dresden Central School, edifício que inaugurou, oficialmente, o seu estilo de dança: Ausdrucktanz (a dança da expressão). As emoções e sensações assumiram um novo lugar na hierarquia de quem dança e, fazendo-se geralmente acompanhar de um ou dois instrumentos de percussão, os movimentos soltos e de improviso ganharam um sentido rítmico, de respiração e de repetição. Com Wigman, a dança desatou o laço fiel com a música e assumiu a sua potencialidade para ser feia, rude e performativa enquanto que o movimento passou a ser tido como fonte de análise introspectiva por oposição à ilustração da realidade fornecida pela mímica e representação.

Como pioneira do expressionismo na dança, Wigman sempre viu a arte, particularmente a do movimento, como livre, condenando radicalmente os padrões técnicos do ballet clássico. A ideia de uma arte pura e de essência esteve, por isso, na frente da obra da coreógrafa: a ansiedade e inquietude de um país em pós-guerra foi transportado para os corpos dos bailarinos da academia sob forma do grotesco, obscuro e demoníaco.

No entanto a singularidade do seu estilo artístico só chegou aos Estados Unidos por Hanya Holm, uma das alunas da bailarina que abriu uma escola de dança em Nova Iorque em tributo e com base nos princípios de Wigman, The Mary Wigman School of Dance. Muitos teóricos da actualidade crêem que a falta de reconhecimento internacional à artista se deveu, em grande parte, à ligação que esta estabeleceu com o regime nazi.

Entre coreografias a solo ou em grupo, Wigman substituiu a ideia de personagens por caracterizações universais: o Homem, a Mulher, a Vida e a Morte preconizaram a despersonalização necessária para que em palco se disputassem os extremos radicais das emoções. Entre 1921 e 1923, toda a companhia, acompanhada de Wigman, viajou pelo mundo, a atuar. Summeer Dance, Dream Image, Witch Dance (solo) e Cycles foram algumas das suas criações de maior reconhecimento.

Para despedida dos palcos, Wigman, com 56 anos, levou a espectáculo um poema composto por si. A bailarina faleceu em Berlim, a 18 de Setembro de 1973.

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.

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