Apenas uma semana após a estreia, em Amesterdão, Lisboa teve a honra de receber Total Eclipse Of The Heart (mesmo que só por três dias) na Culturgest! O coletivo Kassys escolheu a capital lisboeta para primeira paragem da sua digressão e o acontecimento eclipsou de tal forma o coração do Espalha-Factos que fomos a correr ver o espetáculo!

Hello, hello, hello, hello!”, cumprimenta Kurt Cobain. “Hello!”, responde-lhe Lionel Ritchie. O arranque desmonta o público em gargalhadas e prepara-o para a hora de mixórdia pop que se adivinha. Durante a próxima hora vão estar em palco quatro homens e uma cadela e as únicas palavras que ouviremos sair das suas bocas são letras de canções pop.

Não estamos a brincar. Todo o texto de Total Eclipse Of The Heart, cada um dos diálogos, é composto puramente com letras de música pop. De Adele a Bob Marley, de Spice Girls a Beatles, de Robbie Williams a Whitney Houston, de Michael Jackson a Pink Floyd e até mesmo de Coldplay a José Cid! Variedade e popularidade não faltam, temas tão transversais que em qualquer assento da plateia são reconhecidos. E sim, é mesmo possível construir uma narrativa linear e dotada de sentido só com uma miscelânea de êxitos comerciais.

“Total Eclipse Of The Heart foi a oportunidade que encontrou [Liesbeth Gritter] de confrontar os seus problemas com o teatro: fazer uma peça sobre aquilo que nele a incomoda”

A história é mais ou menos isto: quatro amigos e a sua cadela estão, aparentemente, a preparar um barbecue e, do nada, começam a ter necessidade de deixar as “máscaras” de lado e começar a falar uns aos outros dos seus verdadeiros sentimentos. Ao longo da peça, cada um vai tendo o seu momento de destaque, em que partilha com os companheiros e com o público as suas angústias e dúvidas existenciais: sentimentos de solidão, a sensação de que não se está a viver ao máximo,…

A exploração dos mecanismos comportamentais humanos, como “a beleza do sucesso e do falhanço” ou “a fronteira turva entre fingido e real”, são pontos centrais do trabalho do coletivo Kassys identificáveis na peça. A encenadora, Liesbeth Gritter, confessa a sua relação amor/ódio com o teatro, admitindo que tem alguma dificuldade em acreditar nele. Para Gritter, uma coisa que está a ser experienciada ao vivo mas tem algo de fingido, particularmente a dramatização de sentimentos e emoções, não se lhe afigura genuína. Total Eclipse Of The Heart foi a oportunidade que encontrou de confrontar os seus problemas com o teatro: fazer uma peça sobre aquilo que nele a incomoda.

persfoto Total Eclipse Of The Heart van Kassys 2 (1)

A recriação das grandes emoções, este “exagero do pathos”, é posta a nu à frente de todos, em Total Eclipse Of The Heart. Ali não há embuste algum: se é teatralidade dos sentimentos que o teatro nos quer dar, é isso mesmo que aqui vamos ter! E que melhor forma de o fazer senão recorrendo ao dramatismo e fatalismo do universo pop? O exagero predominante, as dicotomias nunca/sempre, tudo/nada, amar/odiar tão inquestionavelmente presentes! A visceralidade das nossas emoções é verdadeiramente traduzida por este género musical!

“Como ponto alto das duas vertentes estruturantes da peça, o texto musical e a dimensão física e visual, destaca-se o momento ‘fotográfico’ em que a partir dos objetos em palco, as personagens criam ‘instrumentos musicais’ e simulam a disposição de uma banda”

A comunicação do interior dos personagens é conseguida pelo recurso à música -os instrumentais de alguns temas pop são tocados pontualmente mas a música principal é nos dada pelos próprios personagens, que não se limitam a citar as canções mas entoam-nas na sua melodia original. A relação com o espaço físico é a forma de expressão complementar nesta peça. No cenário encontra-se um monte de tralha que poderíamos descobrir num sótão ou num terraço desarrumado: material de jardinagem, de limpeza, velharias,… A forma como os atores utilizam os adereços e se relacionam com o meio em seu redor é excelente, sendo as opções de encenação de Liesbeth Gritter de uma visualidade e fisicalidade enormes (outra das grandes marcas do trabalho de Kassys).

Como ponto alto das duas vertentes estruturantes da peça, o texto musical e a dimensão física e visual, destaca-se o momento “fotográfico” em que a partir dos objetos em palco, as personagens criam “instrumentos musicais” e simulam a disposição de uma banda. Toda a sequência em torno da preparação do barbecue, em que um dos personagens comete um erro, é também absolutamente deliciosa.

“Os quatro holandeses impregnam de uma comicidade subtil a sua performance e a forma como entregam o texto expõe o ridículo do dramatismo das músicas pop, quando aplicadas a diálogos do dia-a-dia”

À parte do imaginativo conceito, a grande mais-valia de Total Eclipse Of The Heart, que permite toda a dinâmica e estímulo do visual/auditivo, é a interpretação dos atores: GJ Rijnders, Harm van Geel, Peter Vandenbempt e Vincent Brons. Com uma diferença etária que vai desde os 25 anos do ator mais jovem aos 65 anos do mais velho, há aqui uma diversidade de estilos cuja dinâmica é interessante de observar (ressaltando-se a cena em que van Geel, Vandenbempt e Brons cantam juntos, antes da saída de cena de Rijnders). Harm van Geel destaca-se claramente pela sua presença em palco, não roubando protagonismo aos restantes atores nos seus “solos”, mas impondo-se com uma força singular e, ao mesmo tempo, despretensiosa e descontraída, quando chegam os “seus momentos”.

Os quatro holandeses impregnam de uma comicidade subtil a sua performance e a forma como entregam o texto expõe o ridículo do dramatismo das músicas pop, quando aplicadas a diálogos do dia-a-dia. Mas após essa constatação do ridículo, porque não questionar o porquê de ser risível. Porque é tão absurda a aplicação das letras do pop ao quotidiano quando são elas que falam sobre a verdade e totalidade dos sentimentos mais humanos – do amor, da rejeição, da frustração, da vergonha. Porque comunicamos diariamente através de convenções e fórmulas pré-determinadas e ridicularizamos a expressão dos nossos verdadeiros grandes sentimentos? Porque os remetemos para o teatro ou o cinema? Qual o porquê de só nos sentirmos confortáveis com eles quando são “fingidos”?

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Quando comparada com a explosão de sentimentos e desabafos proclamados pelos humanos, o papel da atriz de quatro patas pode parecer quase insignificante, mas ela está lá exatamente como o elemento que não fala sobre os seus sentimentos, que não precisa de os exteriorizar nem de os fingir, que não tenta forçar qualquer tipo de interação.

Total Eclipse Of The Heart é uma peça agradável de assistir, com um estilo muito próprio e que desperta de forma cómica e indireta alertas sobre a nossa sinceridade para com os outros e, mais importante, para com nós mesmos. A plateia portuguesa ficou rendida. Pode ser que tenha sido desta que Liesbeth Gritter se reconciliou com a sua arte…

Fotografias de Liesbeth Gritter