Chegaram ontem a Portugal 22 refugiados, vindos da Síria, da Eritreia e do Sudão, no âmbito da quota anual entre o nosso país e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). São adultos, crianças, bebés, que, para trás, deixam a guerra e a instabilidade. Como escreve o Expresso, a vida de todos deles “cabe em nove carrinhos de aeroporto“. Mas esta é apenas uma parte de um problema maior: são 50 milhões as pessoas obrigadas a abandonar as suas casas e que, na Europa, encontraram um refúgio.

O número não era tão elevado desde a II Grande Guerra. Mas este é um problema mundial: à guerra na Síria juntam-se os conflitos no Iraque, no Afeganistão, Iémen, na Líbia, Somália, Nigéria, no Sudão ou mesmo no Kosovo. E se hoje chegaram 22, a promessa é de que mais chegarão.

Como a arte e a vida andam frequentemente de mãos dadas, damos-te aqui alguns exemplos de livros, séries, filmes, músicas e peças de teatro que nos fazem pensar, refletir e, na melhor das hipóteses, agir. Ou não pode a arte ter uma força política e cívica?

Os livros recordam-nos o inesquecível

  • Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial, de Irene Pimentel

São várias as crises de refugiados que a nossa História já conheceu. O livro Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial, de Irene Pimentel, de 2008, relata-nos o encontro entre portugueses e refugiados judeus, fugidos das perseguições nazis na II Guerra Mundial.

Quando Hitler subiu ao poder e uma guerra se aproximava, Portugal começou a ser um destino para os judeus. Desde 1933 e o final da Segunda Guerra Mundial, estima-se que terão passado por Portugal cerca de 100 mil refugiados. Contudo, a sua estadia por terras dominadas pela ditadura salazarista nem sempre foi pacífica nesta fuga à guerra. A partir de 1938, após a Noite de Cristal, quando muitas casas e comércios de judeus foram destruídos, o regime impediu que arranjassem emprego, para que não concorressem com os portugueses. Se aí o medo era já económico, também mitos se instalaram na sociedade portuguesa. Se hoje se alega que muitos dos refugiados são terroristas, na altura algumas pessoas acreditavam que os judeus tinham cornos e havia quem fosse à Igreja confessar-se depois de saber que tinha conhecido os refugiados.

Também em 1938, a permanência se complicou, pois apenas eram autorizados a entrar em Portugal com um visto de trânsito com o máximo de 30 dias. Mas houve quem conseguisse permanecer por cá. Também os refugiados que receberam ajudas de organizações de auxílio devolveram as quantias após a guerra.

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  • Refugee Boy, de Benjamin Zephaniah

Benjamin Zephaniah publica em 2001 o livro juvenil Refugee Boy. Alem Kelo, de 14 anos, foge da guerra civil da Etiópia para Londres. Contudo, o pai de Alem não tem permissão para ficar no Reino Unido e volta para a Etiópia. Alem permanece na Inglaterra, mas entretanto descobre que a sua mãe foi assassinada. No seu percurso, o rapaz passa por uma série de discriminações.

Muitos dos refugiados são crianças, seres humanos que já sentiram a guerra e chegam a uma Europa que lhe pode garantir um futuro. E vão tendo apoios pelo continente fora: têm sido criadas plataformas de apoio aos refugiados. Conhece a portuguesa, aqui.

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Passam na televisão mas foram inspiradas em conflitos reais

  • The Honourable Woman (TVSéries)

Protagonizada por Maggie Gyllenhaal, esta minissérie coloca o dedo na ferida no já longo conflito israelo-palestiniano. Em 1948, na sequência da guerra da independência de Israel, 700 mil palestinianos fugiram das suas casas, espalhando-se pelos países da região. Mas o conflito não cessou totalmente desde então. Segundo o relatório anual da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), o número de refugiados palestinianos aumentou de 72 mil em 2000, para 868 mil em maio deste ano.

Em The Honourable Woman, Nessa Stein (Maggie Gyllenhaal) e o irmão, Ephra (Andrew Buchan), herdam o império milionário do pai, um fabricante de armas no Médio-Oriente. Anos após ter assistido ao assassinato do pai por um palestiniano, Nessa está agora à frente de um negócio que nada trouxe senão ódio e conflitos, num mundo de conspirações e espionagem. Mas a protagonista quer mudar o rumo da empresa, abrindo caminho para a paz entre Israel e a Palestina, o que não se adivinha fácil.

Este thriller político de oito episódios foi escrito e realizado por Hugo Blick para a BBC, no Reino Unido, e para a Sundance TV, nos EUA, e foi aclamado pela crítica. Maggie Gyllenhaal venceu um Globo de Ouro e a série um Peabody Award.

  • Homeland (FOX)

Homeland (Segurança Nacional em Portugal) é um thriller político da autoria de Howard Gordon e Alex Gansa, baseado na série israelita Hatufim. Claire Danes é Carrie Mathison, agente da CIA e especialista em terrorismo no Médio-Oriente. Ao longo das quatro temporadas, Homeland toca na problemática das organizações terroristas em países como o Paquistão ou o Afeganistão. Décadas de conflito fizeram com que o Afeganistão fosse o país com o maior número de refugiados, sendo considerado um dos países mais perigosos do mundo. Segundo um relatório das Nações Unidas, em 2013 e em média, um em cada quatro refugiados tinha nacionalidade afegã. Na fronteira com o Paquistão, diferentes grupos militares espalham a insegurança e instabilidade, obrigando à fuga de milhares de pessoas.

Mas a quinta temporada de Homeland irá abordar temas como o ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo, o caso Edward Snowden, Vladimir Putin e o conflito na Ucrânia, e o Estado Islâmico. “O que o Estado Islâmico está a fazer no terreno parece tão medieval e horrível que tentar retratar o que estão a dizer de forma clara e percetível é muito difícil”, disse o produtor executivo, Alex Gansa.

Homeland recebeu vários prémios, entre os quais cinco Globos de Ouro. A quinta temporada estreou a 9 de outubro na FOX.

Da realidade para o grande ecrã

  • Casablanca, de Michael Curtiz

Segundo as Nações Unidas, a crise de refugiados que a Europa enfrenta é a maior desde a Segunda Guerra Mundial, altura em que o número de pessoas que se encontravam nesta situação rondava os 50 milhões.

Casablanca, um clássico da sétima arte, chegou aos cinemas em 1942 e retrata a vida em tempos de guerra. No auge da II Guerra Mundial, muitos refugiados fugiram da ocupação nazi, chegando a Marrocos. Aí, enquanto que alguns conseguiam vistos que lhes permitissem procurar uma vida melhor noutros países (muitos tinham de recorrer, por exemplo, ao mercado negro), outros tinham de esperar em Casablanca.

É o caso de Rick Blain (Humphrey Bogart), expatriado e dono de um café onde se reúnem militares do partido nazi, políticos ou refugiados. Victor Laszlo (Paul Henreid), da resistência checa, e Ilsa Lund (Ingrid Bergman), os protagonistas deste romance, procuram refúgio em Casablanca fugidos das perseguições nazis.

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  • The Last Survivor, de Michael Kleiman e Michael Pertnoy

The Last Survivor é um documentário de 2010 com quatro histórias de sobreviventes do genocídio da Segunda Guerra Mundial, do Ruanda, do Darfur, e do Congo. São histórias de quem conseguiu fugir da guerra e refazer a sua vida. Será que os refugiados sírios vão também conseguir encontrar a felicidade?
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 A música como arma

  • Help is coming, Crowded House

Benedict Cumberbatch faz a abertura de Help is Coming. Esta música é relançada pelos Crowded House com a Save the Children (organização que luta pela defesa dos direitos das crianças), para angariar dinheiro para os refugiados sírios. O vídeo é bastante direto, mostrando imagens de crianças refugiadas, as rotas que fizeram e a guerra na Síria.

Mas esta não foi a última vez que Benedict Cumberbatch marcou uma posição quanto a crises humanitárias. No final dos seus recentes espetáculos da adaptação de Hamlet, de Shakespeare, o ator tem discursado sobre a crise de refugiados com o objetivo de angariar fundos para esta causa. O ator já conseguiu angariar cerca de 209 mil euros para a Save The Children. No mês passado, em entrevista à Sky News, Benedict defendeu que “o que está a ser feito não é o suficiente“.

  • The Refugee, U2

Não é surpresa ver os U2 associarem-se a causas humanitárias. No início de setembro passado, a banda irlandesa apelou a uma “liderança humanitária” num concerto em Itália. Bono disse também não saber qual a solução para a crise dos refugiados, frisando que é preciso “trabalharmos em conjunto” para a descobrir. Em referência à imagem do menino sírio morto numa praia turca, a banda alterou, durante o concerto, um dos versos da música Pride (In the Name Of Love) para “One boy washed up on an empty beach“.

Mas a música de que aqui queremos falar é The Refugee, do álbum War, lançado em 1983. Com versos como “War, war, she’s a pretty face / But at the wrong time in the wrong place“, a música refere-se aos refugiados que vêem familiares recrutados para a guerra ou que tentam fugir de conflitos na procura de melhores condições de vida (“In the morning / She is waiting / Waiting for the ship to sail / Sail away“).

A realidade também sobe ao palco

O coletivo internacional de artistas andcompany&Co tem habituado os espectadores à crítica política sobre os mais variados temas, aliando a História e a Mitologia à atualidade. Em Orpheus in der Oberwelt: Eine Schlepperoper, o grupo “viaja” até à fronteira na Europa de Leste do rio Evros, palco de mortes de refugiados e migrantes que desesperadamente tentam chegar a porto seguro. Segundo a mitologia grega, a cabeça de Orfeu também aí flutuava. Agora, Orfeu regressa para se tornar traficante de refugiados. O mito e a comédia encontram, mais uma vez, a dura realidade.

Também a Companhia Olga Roriz não vai ficar de braços cruzados perante esta crise humanitária. A coreógrafa apresenta a sua criação no próximo Dia Mundial da Dança, a 29 de abril de 2016. Para já sabe-se apenas que os ensaios começam no início do próximo ano.

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Para terminar, deixamos-te com um excerto do poema Home, do poeta somali Warsan Shire:

“you have to understand,
that no one puts their children in a boat
unless the water is safer than the land
no one burns their palms
under trains
beneath carriages
no one spends days and nights in the stomach of a truck
feeding on newspaper unless the miles travelled
means something more than journey.
no one crawls under fences
no one wants to be beaten
pitied

no one chooses refugee camps
or strip searches where your
body is left aching
or prison,
because prison is safer
than a city of fire
and one prison guard
in the night
is better than a truckload
of men who look like your father
no one could take it
no one could stomach it
no one skin would be tough enough”