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Coliseu do Porto rende-se a Tiago Bettencourt

Foi numa aparentemente normal noite de sábado, 7 de novembro, que Tiago Bettencourt pisou pela primeira vez o palco do Coliseu do Porto e foi recebido pelo imenso público com muito amor, palmas e vozes em coro.

Confessou, mais tarde, que estava nervoso: era a sua primeira vez no Coliseu, já não vinha ao Porto há muito tempo e estremeceu perante uma sala cheia. No entanto, Tiago Bettencourt sentou-se ao piano como se nada se passasse e, com a confiança de quem é considerado um dos melhores músicos da sua geração, inaugurou a noite com Espaço Impossível. Antes de cumprimentar o público, brinda-nos com Largar o que há em vão.

Porto, estou tão contente por terem vindo. Muito obrigado” exclama, confrontado com um Coliseu tão feliz por estar ali. A noite foi composta por uma viagem entre um passado longínquo, ainda com os Toranja, e um passado mais próximo, com os mais recentes trabalhos de Tiago Bettencourt, com os Mantha: O Jardim, Em Fuga e Do Princípio, que o público provou saber de cor. “Fiquei nervoso quando cheguei aqui e vi esta moldura tão bonita”, foram algumas das palavras que não poderiam ter ficado por contar.

Seguiu-se Sol de Março e um momento mais cómico, mas não menos importante – Tiago Bettencourt deu um pequeno curso intensivo sobre como e quando bater palmas, uma componente obviamente importante de qualquer espetáculo. “Têm que ser disciplinados a bater palmas. Quando começam no início de uma música, têm que aguentar até ao fim. Na próxima música, só podem começar depois do terceiro refrão!” Mas, quando se ouvem os primeiros acordes da mítica Canção Simples, ninguém resiste em quebrar o acordo antes combinado. Dá-se uma pausa na guitarra para uma pequena repreensão. “Então, estive aqui a falar para quê? Assim não vai resultar!Tiago Bettencourt sabe agarrar o público, seja com música ou com sentido de humor.

Canção Simples foi uma das canções mais bonitas de se assistir, com todo o Coliseu a completar os seus versos, da maneira mais afinada. Fizeram muito mais do que o sol, cumpriram com as palmas no terceiro refrão e cantaram, do início ao fim, a tão velha e conhecida Pó de Arroz. Mesmo Tiago Bettencourt não resistiu a parar de cantar, só para ouvir aquele coro tão bonito e sincronizado que encheu a sala.

De volta ao piano, onde aconteceu, simultaneamente, Fúria e Paz. Mais tarde, toda a gente enumerou as qualidades de várias mulheres, mas sobretudo queriam a Maria e por ela chamaram, até ter chegado o primeiro convidado da noite. “O primeiro convidado é um grande amigo meu e um dos melhores bateristas de sempre”. Assim foi apresentado Fred Ferreira, que partilhou um abraço, o palco e uma canção com Tiago Bettencourt. Ameaça, também do último álbum, contou com a participação de Fred na bateria, para um momento de mais adrenalina.

Sabemos que O Jogo é o próximo momento, quando se dão as primeiras notas no piano e ficamos, inevitavelmente, arrepiados. Para além de ser uma canção que toda a gente sabe de cor, é uma canção que toda a gente sente. Inconfundível é também o início da emblemática Laços – ainda do tempo dos Toranja, o público não resiste em acompanhar e cantar em força o tão conhecido refrão Devolve-me os laços, meu amor.

Sara, tudo o que dói sara foi o que se cantou antes da tão aguardada Canção de Engate, na versão que homenageia António Variações. Se é que já não tinha acontecido antes, este foi o momento em que o Coliseu do Porto se rendeu completamente aos encantos de Tiago Bettencourt.

 Foi Só Mais Uma Volta até termos sido surpreendidos pelos primeiros acordes da Carta, enquanto nos era feita uma introdução falada: “A primeira vez que vim ao Porto foi com os Toranja, no Sá da Bandeira. Foi um concerto muito engraçado e emotivo. Uma das pessoas que esteve nesse concerto foi o meu próximo convidado. Sete ou oito anos depois, ele está cá.” Esta é a parte em que entra em palco Pedro Abrunhosa, para dar à Carta o toque característico da sua voz grave, sempre acompanhado por todo o Coliseu. Difícil foi existir alguém que não soubesse a canção e a letra de cor.

Chegando ao fim da supracitada canção, houve um certo inception com É Preciso Ter Calma, de Pedro Abrunhosa, que acabou com um conjunto de versos poderoso – declamados com uma intensidade tal que todos se calaram a ouvir:

Silêncio

Imenso,

E dor, e pior meu amor,

A lembrança que descansa

Os olhos teus nos meus

Adeus.

O dueto, que pode ser descrito como mágico, terminou com uma sentida frase de Pedro Abrunhosa: “Bem-vindo a casa, Tiago”. Porque a cidade do Porto é isto mesmo: a casa de todos, mesmo daqueles que cá não nasceram.

Chega Morena, a canção que conquista o público e o faz levantar das cadeiras, palmas ritmadas, sem parar de cantar, sem parar de dançar – o verdadeiro epicentro da felicidade. Em jeito de falso alarme, Tiago Bettencourt “despede-se” com um “Muito obrigado Porto, amo-vos” apesar de, no fundo, saber que o encore era um futuro óbvio. Sai do palco por instantes. No mesmo, são colocadas duas cadeiras e dois microfones.

Quando regressa, Tiago Bettencourt traz a doce Márcia pela mão, também ela surpreendida com tal moldura bonita no coliseu. Foram evidentes a química e a amizade que une estes dois artistas, que conversavam entre eles e o público como se todos fôssemos um grupo de amigos que casualmente se reunia num café. Acolhedor é o adjetivo certo para descrever o ambiente. Do público, alguém grita “Viva a música portuguesa”.

Se me aproximar foi o primeiro tema do encore a dois e que os levou a partilhar, de seguida, A Insatisfação de Márcia e o amor do Coliseu (uma frase que não faria sentido, caso não fosse esse o nome da canção) que não queria que o momento acabasse. Mas tudo o que é bom acaba depressa e depois de agradecimentos feitos e carinho expressado, Márcia saiu de cena. Tiago Bettencourt volta para o seu adorado piano rústico, para nos dar Aquilo que eu não fiz, a canção de forte mensagem política e que se adequa à situação atualmente vivida em Portugal.

Não tenho propriamente músicas alinhadas. O que querem ouvir?Eu Esperei, foi o pedido do público e que foi rapidamente concedido, apesar de Tiago ter avisado que se podia enganar. “Esta é uma música que fala das pessoas que estão à frente no nosso país. Se bem que agora a coisa está movimentada, são muitos cães ao mesmo osso.” Ninguém resiste às palmas, que desta vez foram bem aplicadas (afinal, sempre deu jeito o tutorial anteriormente dado).

O encore prossegue com O Jardim e ninguém dá pelo tempo passar. “Em quanto tempo vai o concerto?” pergunta Tiago. Duas horas e meia, alguém responde. “Se estiver a ficar chato, avisem. Não me deixam dar concertos muito longos, dizem que as pessoas se fartam.” Ninguém ali estava farto – quando muito, queriam outras duas horas e meia. Só Nós Dois foi a música que antecedeu os agradecimentos: à banda, à equipa técnica, ao público, que o fez sentir em casa.
Uma pessoa esquece-se do bom que é voltar ao Porto. É tão bom voltar a casa.

Um momento mais intimista, com Caminho de Voltar, anuncia-nos que está próximo o fim do concerto. Mas como nem todas as despedidas são sinónimo de tristeza, Tiago Bettencourt opta por terminar com um ritmo mais festivo e pede a todos que se voltem a levantar: Chocámos Tu e Eu, a última música da noite, marcou o fim desta estreia tão especial no Coliseu do Porto.

 Mil agradecimentos, palmas que só cessaram quando se esvaziou o palco e o sentimento de que a partir desta noite, todos nós ficámos completos. Agora, ansiamos pelo dia em que Tiago Bettencourt regressará a casa.

Fotografia por Luís Pereira

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