Ter que escrever uma crítica a Anomalisa meras horas depois da sua sessão é um esforço em vão. O novo filme de Charlie Kaufman é um daqueles que se entranha de tal forma em nós que, muito depois de termos saído da sala, continuamos efusivamente a pensar nele, nos seus simbolismos, na sua história… E não é por ser de difícil compreensão nem nada que se pareça, mas sim porque pode ser visto de tantas perspetivas e interiorizado de tantas maneiras que a experiência do seu visionamento varia de pessoa para pessoa.

O protagonista desta fita é Michael Stone, conferencista incapaz de se relacionar com as pessoas, vendo-as e ouvindo-as todas literalmente da mesma fora. Isto até conhecer Lisa, uma verdadeira anomalia na sua forma de ver o mundo. Ao contrário das outras pessoas, ela tem uma voz e um aspeto próprio (à exceção destes dois personagens principais, todos os bonecos têm a mesma face e são dobrados apenas por Tom Noonan) e cedo capta a atenção de Michael.

Não vale a pena entrar em mais pormenores da narrativa. Em apenas hora e meia de duração, Anomalisa conta uma história rápida mas cheia de pequenos detalhes. O destino de Michael e a relação que mantém com Lisa, bem como todas as suas dúvidas face à vida e ao desinteresse que nutre por toda a gente, são desenvolvidos no curto espaço de tempo (uma noite) em que ele está de viagem para uma nova conferência (apesar de ser mais que percetível através de alguns diálogos que os seus dias sempre foram dominados pela monotonia). Mas é dentro desse tão pouco tempo que vemos representadas, quer em Michael quer em Lisa, muitas das incertezas que cada um de nós experiencia, naquele que é um estudo simples mas perspicaz das relações humanas.

anomalsia

O que acontece entre Michael e Lisa (que, diga-se de passagem, muito ganham com as vozes de David Thewlis e Jennifer Jason Leigh, respetivamente) após se conhecerem e o amargo desfecho do filme em si não são totalmente claros, há muitas camadas de simbolismo por escavar nestes segmentos, cabendo a cada pessoa analisá-las como quer. Kaufman vai inserindo aos poucos alguns detalhes que podem ajudar a uma melhor compreensão da história, mas nunca o realizador nos conduz por um só caminho, deixando Anomalisa aberto a várias interpretações, que podem até variar a cada vez que se vir a fita (um bocadinho como outros títulos seus, como o mais complexo Sinédoque, Nova Iorque).

O filme prima também por uma boa dose de humor, indispensável para manter o ritmo nalguns momentos mais parados, e pela magistral animação. Poucas vezes se vê o stop-motion a ser aplicado de forma tão brilhante: planos longos e de difícil execução; movimentos e tiques de personagens soberbos; a entrada em terrenos muito mais adultos, onde meros bonecos tornam algumas cenas incrivelmente realistas e humanas, etc… Se a Kaufman tem que ser dado mérito pela forma como criou mais uma história original e interessantíssima, a Duke Johnson, o corealizador, e à sua equipa dos estúdios Starburns tem que ir muito do crédito pelo efeito visual da obra.

Anomalisa pode então ser aclamado universalmente pelo seu rigor técnico e amado individualmente por cada um de forma distinta. Foi sem dúvida uma das melhores escolhas para este primeiro dia do LEFFEST 2015, prometendo permanecer durante os próximos tempos na cabeça daqueles que assistiram à sessão ontem no Monumental. E isso é algo que só está ao alcance dos grandes filmes.

9,5/10

Ficha Técnica:
Título: Anomalisa
Realizador: Charlie Kaufman e Duke Johnson
Argumento: Charlie Kaufman
Elenco: Jennifer Jason Leigh, David Thewlis, Tom Noonan
Género: Drama, Animação
Duração: 90 minutos