Decorreu ontem a sessão de homenagem a José Fonseca e Costa na Cinemateca. Uma sala bem composta para prestar tributo a um dos maiores cineastas portugueses através do visionamento de Sem Sombra de Pecado, uma história de intrigas passada na Lisboa dos anos 40, recheada não só de mistério mas também de belos momentos de humor.

Antes do início do filme, foi dada a palavra a várias personalidades que, de uma forma ou de outra, se foram cruzando no percurso de Fonseca e Costa dentro e fora do ecrã. Lia Gama, Inês de Medeiros, Jorge Leitão Ramos, Pedro Pires, Sérgio Godinho, António da Cunha Telles e José Alves Pereira foram relembrando, emocionados, momentos da vida do realizador, descrevendo o quão bom amigo ele era, o seu mau feitio, as hilariantes histórias que protagonizava e, acima de tudo, a importância que teve na nossa 7.ª arte.

António-Pedro Vasconcelos foi quem encerrou este início de sessão. Tal como os anteriores relatos, o seu foi repleto de histórias divertidíssimas contadas com saudade e tristeza, naturais vindas de alguém que acabou de perder um amigo.

Contudo, o seu discurso destacou-se acima de tudo pela raiva com que recordou as dificuldades pelas quais Fonseca e Costa passou na realização dos seus filmes. Tal como já tinha referido no dia do seu falecimento, Vasconcelos salientou a discriminação de que o seu amigo e colega foi vítima por parte de um sistema de júris anónimos que decide em Portugal que projetos vão ou não para a frente. E, olhando com atenção para o currículo do cineasta que nos deixou no passado domingo, deparamo-nos com uma carreira de mais de quarenta anos (se excluirmos os documentários, curtas e filmes publicitários que assinou antes do 25 de abril) onde se contam apenas uma dezena de títulos.

Não deixa então de ser estranho que um dos grandes nomes do cinema moderno tenha sido tão desprezado por um sistema que, neste sentido, poucas vezes beneficiou a arte de fazer filmes no nosso país. Se nos tempos da ditadura salazarista José Fonseca e Costa era perseguido pela PIDE (Jorge Leitão Ramos, que se encontra prestes a lançar uma sua biografia, revelou ontem na sessão que cada passo que o realizador dava era registado pela polícia política), que o impedia de ter a sua liberdade, tendo chegado a prendê-lo. Não se pode também dizer que depois da Revolução dos Cravos tenha tido autonomia total para exercer a sua paixão.

E é com muita pena que tal se tenha passado. Ele foi dos poucos realizadores portugueses que conseguiu conjugar o apreço do público e da crítica, que tinha nos seus trabalhos ideias e histórias interessantíssimas, bem executadas e muito inteligentes que não eram dirigidas a um público específico mas sim a toda a gente. Sem Sombra de Pecado, o filme escolhido pela Cinemateca para lhe prestar ontem homenagem, é um bom exemplo disso mesmo: é uma história cheia de mistério entre um militar e uma mulher sedutora, excelentemente elaborado (é assinalável a reconstituição do espírito da capital naquele época) e não menos divertido e capaz de entreter qualquer espectador.

Não foi por acaso que, apesar dos obstáculos que lhe impuseram e da pouca frequência com que conseguia levar os seus projetos até às salas, conseguiu ter alguns sucessos de bilheteira. Após se ter iniciados na realização de filmes de ficção na década de 70, com O Recado em 1972 e Os Demónios de Alcácer-Quibir em 1977 (ambos virados para temas sociopolíticos), eis que surge, no início dos anos 80, Kilas, o Mau da Fita, onde podemos ver como protagonistas Mário Viegas e Lia Gama, duas caras que viriam a colaborar em mais filmes de Fonseca e Costa ao longo dos anos. A comédia foi, na altura, o filme português mais visto de sempre e está ainda hoje presente no imaginário coletivo dos conhecedores do cinema nacional.

"Kilas, o Mau da Fita"

Kilas, o Mau da Fita

A década de 80 foi, sem dúvida, o auge da carreira do cineasta. Seguiram-se a Kilas dois grandes sucessos: o já referido Sem Sombra de Pecado (1983) e a coprodução com Espanha A Balada da Praia dos Cães (1987), os dois já aqui esmiuçados no Espalha-Factos na rubrica Hollywood, tens cá disto?. O último filme que assinou neste período de maior êxito foi A Mulher do Próximo em 1988, estando muito provavelmente longe de saber que, com quase trinta anos de vida ainda por percorrer, já tinha assinado metade dos filmes que preenchem o seu currículo.

De entre os quatro títulos subsequentes, o que merece mais destaque é talvez Cinco Dias, Cinco Noites (1996), um drama que regressa ao tema do salazarismo numa história sobre a emigração clandestina. Os Cornos de Cronos (1991), O Fascínio (2003) e Viúva Rica Solteira não Fica (2006) são os restantes que completam a obra de Fonseca e Costa antes de ter falecido. Atualmente, encontrava-se a rodar Axilas, o seu derradeiro filme, que deverá ser finalizado por Paulo Branco, através das indicações que lhe foram deixadas pelo próprio realizador.

O que o cineasta nos deixou após ter partido aos 82 anos foi um conjunto de títulos que se podem inserir na definição de cinema popular, sem por isto querer dizer que não primam pela qualidade, originalidade e rigor do cinema de autor. Aliás, se há algo que nos ensinou acima de tudo, é que não vale a pena rotular uma coisa e outra, que, mesmo em Portugal, é possível fazerem-se filmes de alto calibre que podem ser descobertos e apreciados por quem quiser. Conseguiu-o com uma dezena de filmes, resta-nos imaginar o que conseguiria se não o tivessem travado durante anos e impedido a concretização de outros projetos. Tal como disse António-Pedro Vasconcelos ontem na Cinemateca, “a história do cinema português é a história dos filmes que não se fizeram”. E muitas das páginas dessa história foram, indiscutivelmente, escritas por José Fonseca e Costa.