Ser português é olhar para trás na nossa História e constatar uma série de triunfos que, num enorme contraste com a situação atual do país, faziam de nós uma das maiores e mais ricas nações do mundo. Seria portanto de supor que um filme como Non, ou a Vã Glória de Mandar, que se propõem a olhar para o nosso passado, fosse recriar no grande ecrã um conjunto de episódios gloriosos do passado de Portugal.

Contudo, o épico de Manoel de Oliveira – que relembramos hoje no Hollywood, tens cá disto? não só em jeito de homenagem ao realizador que este ano nos deixou, mas também para antever o ciclo a que o mestre do cinema português tem direito na Viennale que agora decorre na Áustria – olha antes para Portugal segundo uma perspetiva da derrota. O nosso “guia turístico” por essa série de infortúnios, nascidos de um desejo de expandir o nosso Império, é o tenente Cabrita, que em plena África durante a Guerra Colonial vai partilhando e discutindo com os seus colegas de batalhão visões sobre o nosso passado.

Desde o assassinato de Viriato até à infame Batalha de Alcácer-Quibir, são percorridos séculos de derrotas, ligadas todas elas a uma sede insaciável de alargar o Império Português o mais possível, com resultados sempre trágicos. Os próprios protagonistas que vão narrando os flashabcks vivem naquele que foi o último suspiro do colonialismo nacional, surgindo várias discussões entre soldados (uns a favor do regime salazarista e apoiantes da guerra, outros sentindo-se obrigados a combater por uma causa na qual não se reveem) sobre a Guerra Colonial.

Ao contrário de outros filmes  do género, Non, ou a Vã Glória de Mandar não a olha para a guerra de uma forma romântica que deixe no ar a ideia de que é necessária e que as mortes que causa nunca são em vão. Como se pode ver nas várias etapas desta leitura da nossa História, a procura pelo poder e pela nossa afirmação no mundo levou-nos à desgraça: ora fosse a combater os romanos, ora a tentar criar uma União Ibérica, ora ainda a reconquistar terras sagradas, sempre nos deparamos com o “Non”, essa “terrível palavra”. E enquanto o tenente Cabrita e companhia vão relembrando estes fantasmas, estes começam a assombrar o batalhão, já que por cada evento narrado se vai chegando mais perto de uma nova (e última) derrota de Portugal além-fronteiras.

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Manoel de Oliveira já tinha em mente um projeto deste calibre desde a Revolução de Abril, mas a ideia só se concretizou em 1990, tendo estreado no Festival de Cannes desse ano com uma boa receção da crítica internacional. Porém, em Portugal é um dos filmes mais controversos da sua carreira, não tendo reunido consenso na altura em que saiu, talvez pela visão mais pessimista com a qual o realizador analisa a História lusitana. E a teatralidade, caraterística de outras obras suas e igualmente aqui presente, foi também um ponto que afastou (e, infelizmente, continua a afastar) as pessoas do filme.

Mas gostando-se ou não da visão de Oliveira e das várias ideias que ele transmite nos diálogos e narrações das suas personagens, é inegável o impacto visual desta sua décima longa-metragem. Raramente no cinema português se viu tamanha grandiosidade de cenários, todos eles ambiciosos e necessários para servir de palco para grandes pontos históricos, e de onde se destacam a imponente Batalha de Alcácer-Quibir e ainda a magnífica recriação do episódio da Ilha dos Amores d’Os Lusíadas. E há ainda um punhado de excelentes performances, lideradas por Luís Miguel Cintra na pele do tenente Cabrita, que, apesar de (ou, quiçá, devido a) serem mais teatrais que naturais, conseguem dar uma dimensão mais poética ao argumento.

Se ser português é olhar para trás e orgulhar-se de uma História repleta de sucessos, também é dar-se conta da desgraça que nos trouxe um incansável desejo de poder e grandeza. Non, ou a Vã Glória de Mandar é um dos maiores e raros filmes que toca nesta ferida, e duas décadas e meia depois continua a ser um dos mais ambiciosos títulos da nossa sétima arte, provando que Manoel de Oliveira era um cineasta de mão cheia.

Ficha Técnica:
Realizador: Manoel de Oliveira
Argumento: P. João Marques (texto histórico) e Manoel de Oliveira
Elenco: Luís Miguel Cintra, Diogo Dória, Miguel Guilherme, Luís Lucas, Carlos Gomes, Ruy de Carvalho, Leonor Silveira
Duração:  110 minutos

9,5/10

Hollywood, tens cá disto? promete trazer, mensalmente, até nós aquilo que só Portugal nos dá: o Cinema Português. Não que de Hollywood não cheguem muitos títulos de qualidade, mas de Portugal, ao longo das décadas, têm sido muitos os grandes filmes de que pouco se fala. Esta é a rubrica certa para se falar deles.