A artista portuguesa Madalena Victorino dá corpo e alma ao Apsarases deste mês. Vale, peça que este ano comemora cinco primaveras, viajou por dezoito teatros da região de Lisboa e Vale do Tejo com o intuito de abrir o palco a quem nele quisesse estar. Uma obra que, embora tenha partido da herança, tradição e das gentes desta região não se quis esgotar na sua representação.

Madalena Victorino, um dos pensamentos mais sonantes do universo artístico português, nasceu em Lisboa em 1956. Estudou na London School of Contemporary Dance e formou-se, enquanto professora, na Universidade de Londres Goldsmith’s College 1, Laban Centre for Movement and Dance. Madalena Victorino, a mulher da dança que vive sob o selo de que ‘’o movimento humano é uma linguagem. Uma linguagem que leva o corpo a transcender-se, a ir mais longe; que pode reconfigurar a vida’’, trabalha hoje como coreógrafa, educadora, pedagoga e investigadora do mundo das artes performativas e das suas relações e efeitos em comunidade.

Autora de premiados e reconhecidos trabalhos coreográficos como Projecto Tojeira, de 1989; Torrefacção, de 1990; Diário de Um Desaparecido, de 1992; Fotocena e Clowns, com encenação de João Brites; Anna Anna de 1994; Sonho de Uma Noite de Verão, com encenação de João Perry, de 1996 e, entre tantos outros. Madalena Victorino é co-fundadora do Forum Dança, assessora para a área de pedagogia e animação na Fundação Centro Cultural de Belém e professora de composição coreográfica no curso de intérpretes do Fórum Dança e no Curso de Formação de Atores na Escola Superior de Teatro e Cinema.

Vale, um projeto de arte em comunidade, propôs-se chegar aos dezoito Teatros da região de Lisboa e Vale do Tejo que integram a Arteemrede e durante quatro meses abrir portas, todos os fins de semana, a um espectáculo que levava a palco sete bailarinos, seis músicos de cada região e gente daquele concelho e comunidade com vontade de participar num espectáculo ‘’popular e experimental’’, como definiu a coreógrafa.

Vale nunca quis ser retrato ou definição de uma região ou mero ’‘objeto de que se pode gostar mais ou menos’’Vale foi ‘’o que emana dele, do contacto com as pessoas”, sublinhou Madalena Victorino. E assim nasceu a obra: a partir da integração, em palco, de quem habita aquele território. “Uma das coisas mais bonitas desta peça é que não faz uma ilustração nem uma representação literal dos elementos mais clichés desta região, mas utiliza-os para levar as pessoas a sentirem-se atraídas pelo que estão a ver” e levar, como a criadora sublinha, cada participante ao desapego e à redescoberta através da linguagem artística que tanto preza, a dança. A dedicação às pessoas que Madalena vê como prioridade faz de Vale um espectáculo impossível de se assemelhar.

 

Subiram a palco Ainhoa Vidal, Costanza Givone, João Vladimiro, Lucília Raimundo, Marta Silva, Martinho Silva e Miguel Fragata e tocaram os temas de Carlos Bica, músico da região.

 

“Nesta terra onde o rio é mar, aprendemos que a pele tem flor, que o gado tem vida de homem, que os lençóis são de água escura, que as pedras se rebentam para fazer nascer as oliveiras, que no tomilho poisam morcegos, que o vento lava, leva e traz” –  Madalena Victorino