Mirror People, o nome do projeto saído do imaginário de Rui Maia, é, seguramente, um dos nomes em foco da música nacional da atualidade. Com o lançamento de Voyager, o álbum de estreia de Mirror People, editado pela NOS Discos, e do recente segundo single Dance The Night Away, que conta com a colaboração dos Hard Ton, estivemos à conversa com Rui Maia, abordando tópicos como a fase inicial do projeto, a participação em festivais de verão e planos para o futuro.

EF: O que te levou a iniciar um caminho a solo enquanto DJ e produtor? Inicialmente, sentiste-te confortável ou receaste um pouco?

Rui Maia: O processo aconteceu naturalmente. Comecei por tocar nos X-Wife e, naturalmente, estando encarregue da parte electrónica da banda, o meu gosto pela música de dança cresceu: uma coisa levou à outra. Comecei a ter imensas canções que não encaixavam na banda e que podiam ser editadas. O DJing aconteceu também naturalmente. Quando era miúdo adorava gravar compilações perfeitas em cassete e sempre sonhei ter um programa de rádio – quando fui convidado a meter música a primeira vez, em 2003 gostei da experiência – desde então, tenho atuado com DJ regularmente.

EF: Mirror People é, inegavelmente, um projeto que reaviva tendências retro das pistas de dança. Como é feita a ponte entre uma estética voltada para o disco sound dos anos 70 e as sonoridades atuais?

RM: De facto, Mirror People tem uma veia virada para o disco sound, mas acho que outros estilos podem ser encontrados nas canções do projeto: desde indie, punk ao house ou world music. Basicamente, são todos os estilos que me influenciam como ouvinte e que tento combinar nas canções.

EF: Apesar de o álbum de estreia, Voyager, ter sido editado apenas em fevereiro deste ano, diversos EPs e singles haviam sido lançados anteriormente. Porquê um lançamento tão tardio?

RM: O projeto é um “work in progress”. Demorei imenso tempo a gravar o álbum porque queria que fosse o mais perfeito possível dentro dos meus parâmetros. Tive de mudar imenso os instrumentais para o disco soar como “um todo”. Também o facto de ter tantas vozes convidadas levou o seu tempo – foram dias de troca de ficheiros pelo mundo.

EF: Neste disco tiveste a oportunidade de trabalhar com Rowetta, James Curd,  Hard Ton, Iwona Skwarek, Maria do Rosário e Rodrigo Gomes. De que forma é que esses artistas com backgrounds tão dissemelhantes enriqueceram este registo em estúdio?

RM: Como são artistas com vivências (e idades) diferentes, estas características acabaram por dar uma certa identidade às canções.

EF: Falando dos Hard Ton, o duo de italo disco e acid house que participa no teu mais recente single Dance The Night Away, identificas-te com a sua sonoridade exuberante e festiva?

RM: Tive o prazer de remisturar os Hard Ton no tema Off The Wall. A música deles é recorrente nos meus DJ sets, movimentam-se pelo acid e disco house. É música de festa. Acho que o que fazem é mesmo único em termos de performance e atitude.

EF: Após o sucesso de I Need Your Love, que conta com a colaboração de  Maria do Rosário, por que razão a escolha recaiu sobre Dance The Night Away para segundo single?

RM: A meu ver, o Dance The Night Away é um single óbvio. O facto de ser com os Hard Ton e de ser uma música bastante mencionada quando o álbum saiu, levaram-me a escolhê-la para sucessor single do I Need Your Love.

EF: A opção por um videoclip com rostos sul coreanos e com tanta boa disposição prendeu-se com algum motivo em particular?

RM: Por ser um tema totalmente disco sound imaginei um vídeo com rollerskates. Já me tinha cruzado com estas imagens da Coreia do Sul, então, decidi entrar em contacto com o realizador porque achei que o vídeo encaixava perfeitamente no espírito da música.

EF: Em jeito de retrospeção, como correram as atuações em festivais de verão  como o Super Bock Super Rock, o Vodafone Paredes de Coura e o LISB-ON Jardim Sonoro?

RM: As três experiências foram diferentes. No Super Bock Super Rock apresentei um concerto mais pop e simples, com mais canções do álbum, com a Maria do Rosário nas vozes e o António Bastos no synth e saxofone. No Vodafone Paredes de Coura, apresentei um concerto mais virado para after hours – bastante maquinal e instrumental, com a Maria do Rosário a cantar três canções. No LISB-ON, toquei pela primeira vez com a Voyager Band. 4 elementos em palco, com bateria, baixo, eletrónica e voz – foi uma experiência única e bastante orgânica. Vejo as performances de Mirror People como mais um veículo para mostrar a minha música. Sendo este um projeto “a solo”, tenho a liberdade de colaborar com diferentes pessoas em diferentes formatos.

EF: Mirror People não é a tua única faceta. Falando um pouco sobre outros projetos, qual foi a sensação de veres a Movin’ Up dos X-Wife entrar na soundtrack do FIFA 2016? És fã de videojogos?

RM: Não sendo fã de videojogos, gostei imenso de ver os X-Wife na banda sonora, principalmente porque o Movin’ Up é o primeiro single dos X-Wife em quatro anos. Foi muito gratificante para a banda este convite para entrar no FIFA 16.

EF: Como projetas Mirror People e os X-Wife num futuro a curto e a longo prazo?

RM: Para já, vou continuar a promover o álbum Voyager. Ainda tenho mais algumas ideias em mente para esta fase do projeto. Ao mesmo tempo, estou a começar a trabalhar em novas canções de Mirror People, a experimentar processos novos de composição e gravação.

Há planos para gravar novas canções de X-Wife. As coisas estão a acontecer sem pressões…

EF: Que avaliação fazes do panorama electrónico atual em Portugal?

Existem excelentes projetos e DJs em Portugal. As coisas estão a crescer bastante. Já é mais usual ver um nome ligado à eletrónica (com gosto) portuguesa em grandes circuitos. É um bom sinal!