Passo um: escolher meia dúzia de ingredientes e temperá-los o mínimo possível. Passo dois: juntá-los num tacho a lume brando e ir mexendo lentamente sem deixá-los ganhar muito sabor. Passo três: empratá-los de forma cuidada e bonita para deixar os clientes a salivar, sem que estes notem tão nitidamente o quão insípido é o que estão a degustar. Se À Procura de Uma Estrela fosse um cozinhado, esta seria a sua receita. Mas não, trata-se antes do novo drama de Bradley Cooper dirigido por John Wells que hoje chega a Portugal.

Conta a típica história do “herói caído em desgraçada que quer a todo o custo voltar à ribalta”, desta vez servida no mundo da cozinha. Adam Jones é o protagonista, o ex-protégé de um dos maiores chefes de Paris que, há três anos, foi engolido pelo inferno da droga e da bebida. Agora, recomposto e livre dos vícios do passado, está pronto para voltar ao topo, e com um novo restaurante ao seu comando o único objetivo é alcançar a sua terceira estrela Michelin.

Lida a sinopse, o que se pode esperar de À Procura de Uma Estrela? Com certeza ninguém irá à sala com expectativas de encontrar grandes surpresas no desenvolvimento da narrativa, ou um desfecho que contrarie o happy ending inerente a este tipo de produções ou até personagens de grande profundidade. O filme segue todos os contornos que parecem já pré-definidos quando se pega numa história destas. Há o herói com problemas do passado já superados, embora se desconfie que mais tarde ou mais cedo volta a eles; há o pequeno romance entre dois sujeitos que de início não se suportam um ao outro mas que rapidamente vão descobrir que foram feitos um para o outro; há uma moral que Adam terá de aprender sobre confiar nas pessoas e não fazer tudo sozinho; etc…

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O que poderia fazer do visionamento do filme ligeiramente mais interessante (ou, no mínimo, que disfarçasse toda a falta de um tom próprio) seria o elenco de luxo e os homens encarregues de os conduzir atrás das câmaras. Para além de Bradley Cooper, podemos ver no ecrã nomes como Daniel Brühl, Omar Sy, Emma Thompson e, ainda que por breves minutos, Uma Thurman. E sabendo que o realizador John Wells é uma das mentes por detrás da politicamente incorreta e divertidíssima série Shameless e que o argumentista Steven Knight escreveu já vários e potentes títulos dramáticos, podíamos desejar para que pelo menos um humor mais negro surgisse ocasionalmente num qualquer momento intercalado entre cenas de enorme força emocional. Mas não. Ninguém consegue fazer de À Procura de Uma Estrela mais que aquilo que é: um drama insípido, que nem sequer tenta afastar-se da previsibilidade que já lhe é concebida à nascença.

O filme torna-se então numa aborrecida viagem até ao inevitável destino do sucesso de Adam Jones. Uma viagem que, por acaso, até começa de maneira interessante, com o cozinheiro a reunir a sua equipa para voltar à ribalta, nuns curiosos minutos iniciais que se assemelham a um heist movie. É um dos poucos segmentos mais bem elaborados e diferentes da fita, mas numa abrir e fechar de olhos é substituído pela genérica história de amor, por situações banais de confraternização entre personagens que só ganham (se é que o ganham) algum significado graças à música doce de piano de fundo, pelo surgimento de obstáculos no caminho de Adam que são facilmente solucionados por plot devices extremamente implausíveis… Até os cenários conseguem ser chatos, dominados por espaços interiores incolores (mesmo que seja moda no mundo da restauração, não evita que as cenas filmadas nos restaurantes sejam desinteressantes para os olhos) e espaços exteriores que se resumem ao típico postal turístico de Londres.

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Contudo, o verdadeiro aspeto que desilude em À Procura de Uma Estrela é a maneira como se filma a comida. Todas as cenas onde vemos Adam cozinhar são semelhantes a qualquer programa do 24Kitchen, não nos inspira a acreditar que ele vê arte na confeção dos seus pratos, que todos aqueles diálogos sobre querer que as pessoas tenham “orgasmos” a comer o que faz sejam sentidos e realizados (vemos mais vezes os seus empregados a provar os cozinhados do que os próprios clientes). A sua personagem nunca está em condições de ganhar a nossa afetividade ou compaixão: ele é arrogante, convencido, rude para quem o tenta ajudar e interessado só e apenas no sucesso da sua pessoa. A única oportunidade que teríamos de ter por ele qualquer tipo de admiração seria visualizar na cozinha e nos seus clientes o quão talentoso é a criar deliciosas refeições. Com o que nos é mostrado, tal é difícil.

À Procura de Uma Estrela é assim o desperdício do talento dos seus intervenientes num filme desinspirado. Apesar de se saber que em termos de história não poderá oferecer muito mais que outras fitas deste género, abre-nos o apetite com um elenco de alto calibre, um realizador que já deu provas de ter talento e um argumentista nomeado anteriormente ao Oscar. Os resultados, no entanto, são uma desilusão e a água na boca dá lugar a um frustrante amargo difícil de engolir.

3,5/10

Ficha Técnica:
Título: Burnt
Realizador: John Wells
Argumento: Steven Knight
Elenco: Bradley Cooper, Sienna Miller, Daniel Brühl, Riccardo Scamarcio, Omar Sy, Sam Keeley, Matthew Rhys, Emma Thompson
Género: Drama
Duração: 100 minutos