Guillermo del Toro está de regresso ao mundo da fantasia e dos fantasmas com Crimson Peak: A Colina Vermelha, uma produção repleta de grandes cenários gótico-românticos do século XIX onde decorre uma sinistra história de amor e mentiras. A antestreia teve lugar no Cinema São Jorge na passada quarta-feira, onde várias celebridades e membros da imprensa se juntaram para assistirem a um desfile dos criadores Storytailors alusivo ao tema do filme.

O desfile contou, para além de uns poucos convidados que seguiram o dress code proposto, com alguns figurantes, pintados de vermelho e de preto, segurando velas e ostentando um vestuário magnífico. Por momentos, o São Jorge  tornou-se num fantástico palco de figuras tão belas quanto misteriosas, estando por isso o grupo Storytailors de parabéns por ter criado o ambiente indicado para a visualização de Crimson Peak. Algumas fotografias do evento, disponibilizadas pela Lift Consulting, podem ser vistas no final desta crítica.

Mas vamos ao que realmente interessa: o filme. A história gira em torno de um trio de personagens: Edith Cushing, filha de um rico homem de negócios, aspirante escritora e assombrada desde criança pelo fantasma da sua mãe; Thomas Sharpe, um aristocrata britânico à procura de investidores para extrair argila com uma nova invenção; e Lucille Sharpe, irmã de Thomas. Quando o pai de Edith morre acidentalmente, a jovem casa com Thomas e muda-se para Inglaterra com os dois irmãos para começar uma nova vida. Só que aquilo que pareceria um novo começo rapidamente se torna num pesadelo, à medida que ela vai descobrindo as verdadeiras intenções do marido e da cunhada.

Visualmente, Crimson Peak é absolutamente impecável. Desde o guarda-roupa das personagens até aos cenários interiores (onde se insere, para além da beleza das habitações americanas, uma palpável atmosfera sinistra na sombria mansão dos Sharpe), não há dúvida de que temos diante dos nossos olhos uma grande amostra do séc. XIX. Seria impossível pedir melhor maneira de nos ambientarmos dentro do filme e sentirmo-nos transportados no tempo. E o brilhantismo estético da fita não fica por aqui. Se no que toca à recriação de uma época os resultados são impressionantes, o mesmo pode dizer-se do imaginário fantástico e mais surreal criado por Del Toro: a argila encarnada das minas a infiltrar-se no meio da neve branca e o incrível conceito visual dos fantasmas que assombram Edith, por exemplo, são duas imagens extremamente marcantes, simultaneamente belas e assustadores.

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Podemos então concluir que Del Toro, nos últimos anos mais ligado a blockbusters, não perdeu o jeito no que toca a oferecer um visual único aos seus trabalhos. Mas e o que dizer das personagens, da história, daquilo com o qual o público se quer identificar? É aí, infelizmente, que vamos encontrar os grandes problemas de Crimson Peak. Não basta que os cenários sejam surpreendentes para que a fita como um todo também o seja. É necessário dar aos protagonistas personalidades fortes e cativantes, desenrolar a narrativa com um surpresa aqui e acolá, deixar aquele nervoso miudinho no espectador. No fundo há que saber espalhar o gótico e o romântico por todas as vertentes do filme. E o objetivo é atingindo? Nem por sombras.

Todas as portas que se poderiam abrir para que se percorressem as vivências das personagens por caminhos originais e imprevisíveis são fechadas e trancadas por decisões nada acertadas de Del Toro no que toca à construção da sua obra. Em vez de se esmerar em conciliar com os estonteantes panos de fundo os outros aspetos do filme, o realizador deita tudo a perder. É inacreditável como se consegue desperdiçar tanto potencial, especialmente por parte de um cineasta que já deu provas no passado de nos envolver numa história fascinante. Desta vez, pouco ou nada se esmerou em levar-nos numa viagem inesquecível pelo universo gótico-romântico, já que tudo o que poderia originar algo memorável acaba por dar lugar aos maiores clichés do género do terror, como o jump scare criado a partir da quebra de um silêncio por um efeito sonoro ou os fantasmas (estes com um aspeto tão estupendo) que só sabem assustar quando o que querem é comunicar seriamente.

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Ficamos então com o quê? Pouco mais de duas horas pautadas pela falta de surpresas e de pontos de interesse. Nem o elenco de renome (Mia Wasikowska, Tom Hiddlestone e Jessica Chanstain) se safa, já que, interpretando Edith, Thomas e Lucille respetivamente, um trio de sujeitos “aclichezados”, cujos traços psicológicos mais curiosos (Edith, no início, até quer transparecer alguns ideais da emancipação feminina que começaria a surgir no final dessa época) são substituídos por lugares comuns que ajudam à história andar mais rápido (matando assim, infelizmente, qualquer tom enigmático presente nas relações entre os três e revelando cedo demais as verdadeiras intenções dos dois irmãos), raras vezes consegue dar provas do seu talento.

Se calhar, a melhor forma de ver Crimson Peak é desviar os olhos da história, das personagens e de tudo o mais que de medíocre se passa no ecrã e fixá-los na beleza dos restantes valores de produção. Caso contrário, o pouco que o filme oferece é uma abismal desilusão, especialmente tendo em conta o quão longe poderia chegar, e uma pobre experiência de cinema.

3/10

Ficha Técnica:
Título: Crimson Peak
Realizador: Guillermo del Toro
Argumento: Guillermo del Toro e Matthew Robbins
Elenco: Mia Wasikowska, Tom Hiddleston, Jessica Chastain,Charlie Hunnam, Jim Beaver
Género: Drama, Terror, Fantástico
Duração: 119 minutos