Ricardo III, com tradução de Rui Carvalho Homem e direção artística de Tónan Quito, estreou dia 15 de outubro e está em cena até dia 1 de novembro. O Espalha-Factos viu o vilão subir ao palco da Sala Garrett no dia 16, às 21h, no Teatro Nacional D. Maria II.

Ricardo III, de William Shakespeare, trata-se de um segmento final e decisivo da história trágica da ascensão e queda do homónimo. A Guerra das Rosas distinguiu-se como uma prolongada querela dinástica pelo trono de Inglaterra que, na segunda metade do séc. XV, opôs as casas de York e Lancaster, heraldicamente identificadas por uma rosa branca e uma rosa vermelha respetivamente. A direção artística de Tónan Quito comprimiu, nos dois primeiros atos, os acontecimentos ocorridos entre 1471 e 1483, dois anos antes da morte do protagonista na Batalha de Bosworth Field, dramatizada no desfecho da peça, e a consequente acessão ao trono do conde de Richmond como Henrique VII, primeiro rei da dinastia Tudor.

O cenário da peça recria, o mais aproximadamente possível, o alcatrão do parque de estacionamento em Leicester, Inglaterra, no qual as ossadas do monarca inglês foram encontradas soterradas, em 2012. São cinco ou seis toneladas de pneus triturados, material que sofre escavações em cena à medida que os caminhos são traçados e as mortes anunciadas. Contudo, a dinâmica da narrativa apoia-se, sobretudo, numa interpretação livre de um jogo desportivo infanto-juvenil, popularizado como mata, cujo objetivo é atingir o adversário com uma bola de borracha sem que ele consiga agarrá-la, enviando-o de imediato para a zona do cemitério. Neste caso o atingido transforma-se apenas em Ricardo III, na posse da sua corcunda e, consequentemente, do seu dom para a oratória.

fotografia de ensaios @ Filipe Ferreira

Fotografia de ensaios @ Filipe Ferreira

Romeu Runa, bailarino profissional, é quem inicia as hostilidades, aparecendo ferozmente em palco e expulsando a Menina, o Príncipe Eduardo e o Duque de York, que o ocupavam ainda antes do público estar sentado. Apoderando-se da bola de borracha vermelha, com que as crianças brincavam, reclama o seu lugar na história e é de repente Ricardo III dirigindo-se ao público. É-nos apresentado um vilão forte, afirmativo e solista, com tal ambição e malvadez, que a sua virtuosidade conquista o espetador, que oscila entre o ódio e a admiração.

“O Ricardo III é um ser que se encontra. (…) É isso que nos fascina nestes gajos que são ditadores e homens muito fortes, grandes estrategas (…) Quantos de nós passamos pela vida e não descobrimos o talento que a natureza nos deu?” – Ricardo, o grande encenador, conversa com Tónan Quito 

Ricardo III representa, no entanto, a sede de poder que a todos, mais tarde ou mais cedo, verga. E assim, António Fonseca, Márcia Breia, Miguel Loureiro, Miguel Moreira, Paulo Pinto, Sofia Marques, Teresa Sobral e Tónan Quito são todos atingidos, a certa altura e em alturas distintas, por Runa que, sendo também Ratcliffe e o 1.º matador, é sobretudo uma espécie de sombra que, unindo o grupo, transporta ou ajuda a transportar o poder, representado pela corcunda, de um para outro ator. “Quando convidei as pessoas já lhes tinha dito a ideia de sermos todos Ricardo”, afirma Tónan Quito no livro de espetáculo, difundido pelo TNDM II, explicando a influência que o último discurso do monarca representou para a decisão. “O Ricardo no final, quando acorda do sonho, diz: «usei mil línguas e cada língua diz uma coisa diferente, mas todos dizem que eu sou culpado”.

Fotografias de ensaio @ Filipe Ferreira

Romeu Runa é não só o primeiro Ricardo como o seu braço direito, representando a morte de forma omnipresente. O bailarino é, de facto, uma presença fortíssima, que se impõe quer através do tom de voz quente e poderoso como da expressão facial e corporal, que atinge o expoente máximo na cena em que Ricardo grita “o meu reino por um cavalo”. E Runa, ao som do musical ao vivo, constituído por Gonçalo Marques no trompete e João Lopes Pereira na percurssão, se transforma num equídeo, enquanto executa uma performance inquietante e envolvente.

Envolvente é ainda a representação de Teresa Sobral, que representa, além de Ricardo e outras pequenas personagens, a Rainha Margarida, uma das líderes da Casa de Lancaster. Margarida de Anjou fora uma rainha consorte afastada dos eventos políticos até ver a posição do seu marido, Henrique VI, assim como a sua e a do seu filho, ameaçadas. Em cena, encontramos uma Margarida furiosa e resistente, que lança pragas àqueles que a levaram à ruína. Uma presença quase tão forte como a de Runa e talvez a mais forte das personagens femininas.

fotografia de ensaios @ Filipe Ferreira

Fotografia de ensaios @ Filipe Ferreira

Ricardo III é um campo de batalha, composto quer por cenas enormes quer por cenas muito curtas, que imprimem estranheza, mas que se entranham facilmente no espetador, puxado para o centro dos acontecimentos através de personagens enigmáticas e cheias de potência. A tradução de Rui Carvalho Homem permite que se digam dez versos de uma assentada, num fluxo enérgico, que impressiona sobretudo pela capacidade dos atores manterem o ritmo e a cadência do texto do princípio ao fim.

“Às vezes é mais complicado de se fazer, há momentos em que é mais duro. Mas tem essa coisa fantástica de podermos galopar por ali fora, e aguenta-se” – Ricardo, o grande encenador, conversa com Tónan Quito 

Embora existam silêncios e dinâmicas diferentes, há sempre ação, uma vez que é necessário que os personagens estejam atentos à trama – e às tramas – para que as suas cabeças não rolem fora de tempo, razão porque não se faz intervalo apesar das quase três horas de duração. Ricardo III não é sobre poder, é sobre sobrevivência. É sobre, numa situação extrema, reinvindicar o nosso lugar, mas também o do outro.

Num ambiente dramático, caótico, arrojado e a tender para o punk, que se revela não só na direção artística, mas também nos instrumentos e no impressionante figurino, Ricardo III estará em cena até dia 1 de novembro, quartas, às 19h, de quinta a sábado, às 21h, e domingos às 16h.