Dois músicos, dois EPs e uma mini-tour. Isaura é dona do Serendipity, Francis Dale – ou Diogo Ribeiro – é dono de □ – Square. Hoje, dão início a uma mini-tour conjunta, com pontapé de saída no Lux, em Lisboa. Falamos com os dois artistas, para perceber como surgiu este projeto, que tem um conceito especial e dois convidados de peso.

EF: Para quem nunca ouviu o Serendipity, como é que o podes descrever?

Isaura: Acho que o Serendipity tem músicas com as quais as pessoas se identificam, que são mesmo genuínas, é verdade, é como se fosse um diário meu, em que, não tendo paciência para escrever um diário, acho que vou gravando algumas canções e rabiscando uns poemas, para conseguir guardar algumas memórias e coisas de que não me quero esquecer. O Serendipity é um aglomerado de histórias, que são tão minhas, que as pessoas se relacionam facilmente com elas, porque podia ter acontecido… Tem histórias com as quais as pessoas se identificam facilmente e que toda a gente, de alguma forma, já viveu aquilo. São canções que eu escrevi aos 21, 22 anos… Agora mais crescida, com 25… E acho que se percebe que são canções algo naïve e, portanto, de alguma forma, acho que são histórias fáceis, que acabaram por ser guardadas com um arranjo electrónico, que agora começa a ser mais ouvido em Portugal. E pronto, é isso.

EF: Para quem (ainda) não sabe, como é que se caracteriza a música de Francis Dale?

Diogo Ribeiro: Francis Dale é um manto sob o qual escrevo. Com um estilo e identidade que se pretendem complementares. Diria que, musicalmente, é possível auscultar esta identidade que, partindo de uma sobreposição textural e estílistica, junta diversos mundos. O clássico e o contemporâneo, o sample e a partitura.

EF: Em 2014 tinhas o EP Lost In Finite… passado um ano já existe □ – Square. Qual é a sensação e quais são as principais diferenças entre os dois registos?

DR: Creio que são dois trabalhos complementares e que espelham uma continuidade temática. Num o tempo, noutro o espaço. São temas com os quais me debato sistematicamente, como tal, foi natural para mim esta sucessão. Existe possivelmente uma maturação na forma como escrevo hoje e é notória uma inflexão ao lado clássico.

EF: A edição física do álbum teve uma edição limitada muito especial [as capas foram concebidas individualmente pelo artista plástico João Pedro Fonseca, com um limite de 50 unidades]. Esperavas que fosse assim tão bem recebida?

DR: Esta edição é a materialização de uma ideia que guardo com alta estima. A ideia de que a massificação sem critério, em parte, potencializa o descrédito de suportes como o CD. Ao imprimir um esforço pensado de criar uma peça única sabia que estaria a criar algo com valor. Não tinha de todo expectativa que fosse tão bem recebido mas fico imensamente grato a todas as pessoas que acharam que faziam sentido ter um destes objectos.

EF: Como é que surgiu a ideia desta tour com o Francis Dale?

I: A ideia veio muito do Fred [Ferreira]. Quando saiu o Useless, em dezembro, o Fred foi uma das pessoas que veio falar comigo, a dizer que tinha gostado e a dar-me força para continuar a trabalhar. E o Fred, estando tão ligado ao trabalho do Francis Dale, porque também produziu o trabalho dele… E eu tendo-me tornado algo próxima dele, fomos começando a falar sobre isso. Depois vim a conhecer o trabalho do Diogo e gostei, gosto mesmo do trabalho dele enquanto Francis Dale. Fomos conversando os dois, muito antes sequer de sabermos que esta tour podia vir a acontecer. O Fred, estando ali no meio e estando próximo dos dois e gostando do trabalho dos dois, achou que faria algum sentido, como temos os dois EP e como são algo pequenino – se calhar não teríamos possibilidade de fazer um espetáculo tão elaborado, em tantos pontos do país – achou que faria sentido estarmos juntos. E a ideia vem daí. Eu também acho que faz sentido, apesar de termos trabalhos muito diferentes, talvez o público que ouve um, possa gostar do outro. Achamos que faria sentido.

EF: E como tem sido esse processo de adaptação? Certamente é diferente estares em palco sozinha ou estares com o Diogo…

I: Sim, é completamente diferente. Eu acho que a postura que nós adotamos talvez seja a certa para facilitar este processo. Nós escolhemos estar juntos, a mostrar o trabalho individual, mas, ao mesmo tempo, aceitamos que isto era uma coisa limitada no tempo, é uma tour que vai até dezembro ou, se houver uma segunda fase, até março, mas depois termina. Portanto, os concertos que estão dentro desta tour são diferentes dos concertos de Isaura sozinha e do Diogo sozinho. As canções que as pessoas vão ouvir são as minhas e são as deles, mas são canções que nós aceitamos que iam ter o cunho uns dos outros. Há músicos como o Ben [Monteiro] e o Fred, a dar o input nas canções e o Diogo a pôr o input dele nas minhas canções e vice-versa. Nós aceitamos mesmo que havia espaço para estar ali o outro e este conceito é mesmo diferente, não espero chegar ali e reproduzir aquilo que eu fazia sozinha. Quando as pessoas forem ver Isaura sozinha, é garantidamente diferente das minhas canções tocadas nesta mini-tour.

EF: Para os indecisos, o que é que podes dizer que leve as pessoas a ir ao concerto?

I: Acho que tem mesmo a ver com o facto de isto ser algo limitado no tempo. Ou seja, é uma coisa que, se calhar, nunca mais vamos repetir. As pessoas vão continuar a poder ir ver Francis Dale e Isaura. Agora este conceito, com estes músicos, o Ben e o Fred... São muito bons músicos e temos mesmo sorte por pessoas como eles, músicos com o currículo deles, principalmente o Fred, estarem em palco connosco. E, portanto, eu acho que as pessoas devem ir, no sentido em que são dois miúdos, que têm trabalhos em que acreditam mesmo.  Acho que eu e o Diogo nos damos bem por isso, pela convicção com que fazemos música e com que fazemos as nossas coisas, é muito próxima. Depois, para além disso, nós temos músicos incríveis em cima do palco, a querer fazer isto connosco e isto – aquilo que digo de isto – vai muito para além dos nossos EPs, porque é mesmo uma abordagem nova que não se vai repetir. Talvez por isso, gostava que as pessoas participassem por isso.