Depois de um exílio musical de alguns anos em terras de sua majestade Isabel II, Walter Benjamim retorna a Portugal apenas com o último nome. Auto Rádio é o produto resultante da estadia em banho-maria do artista. A este disco junta-se ainda João Correia (Tape JUNk, Frankie Chavez, Julie and the Carjackers). Enquanto produtor, Luís Nunes tem um vasto currículo (para aqueles que estranham, o nome é o que consta do cartão de cidadão de Benjamim). Enquanto artista tem um currículo igualmente preenchido. A sua experiência na área acabou por fazer de Auto Rádio o melhor disco para retornados num mundo de emigrantes.

O disco abre com Eu Quero Ser o Que Tu Quiseres. É ao som desta mesma frase que a música se constrói. Não há muito a dizer sobre este tema. Uma batida simples que faz antever o que este álbum carrega. A voz rouca mas ao mesmo tempo doce de Benjamim é um bom anúncio das melodias que se podem esperar.

Segue-se Tarrafal, um dos singles do álbum. É impossível não sorrir ao sintetizador alegre que abre o tema. Tarrafal assume-se aqui como uma metáfora. Num álbum que se pode categorizar com a etiqueta de “nova intervenção nacional”, não poderia ser de outra forma. Para bom entendedor meia palavra basta:
“(…)eu não sei de nada e faço o que ela quer,
ela faz de mim o que quiser.
Ela faz de mim o que quiser.”

Sintoniza é o terceiro tema. Enquanto tema apenas instrumental funciona como uma espécie de interlúdio musical. Chamada de atenção para a mestria vocal do locutor da Rádio Radar, Pedro Ramos, que começa a sintonizar a sua entrada, ainda tímida neste tema, com um leve suspiro. No entanto, este tema destaca-se não pelos melhores motivos. Não se enquadra no meio das outras canções, parece um pouco solitária, até.

Os Teus Passos é o epítome. Aquela que foi o primeiro single deste trabalho assume-se como a embaixadora do álbum. Ouve-se aqui as influências de infância de Luís Nunes: um pouco de Beatles, um pouco de Bob Dylan e, se cerrarmos os ouvidos, conseguimos ver um vislumbre dos Beach Boys. Tudo isto na língua lusa que Walter não usou, mas que Benjamim domina com mestria.

O Quinito Foi para a Guiné é a memória coletiva do Portugal de 65. É a memória do português que foi combater para uma terra demasiado distante do Alentejo, uma terra que não é o jardim à beira mar plantado. O Quinito reflete todos aqueles que foram para fora, mas os que ainda hoje vão. “O Quinito não viu o filho nascer”:  é este o avalo para o hino de uma geração jovem.

O Sangue segue-se. É uma música pequena mas que não lhe tira mérito. Letra intervencionista que reflete a realidade dos emigrantes. “Vou partir para a terra nova, vou dar-me a outro lado que aqui secou o sol, resta manter-me acordado”. Na melodia ouve-se réstias da influência de Zeca Afonso na vida do cantor.

Meteorologia é o interlúdio do disco. Se, em Sintoniza, tivemos um vislumbre radiofónico, Meteorologia  leva-nos ao coração do auto-rádio do Volkswagen azul-escuro de Benjamim.

Volkswagen tem partes que vêm a reboque do som de Mac DeMarco. Quem fechasse os olhos a meio da música com certeza não conseguiria fazer distinção entre um e outro. No entanto, será sempre a língua portuguesa a dar destaque à sonoridade canadiana. O Volkswagen que dá título à canção é o mesmo que durante o verão fez 5675 quilómetros numa tour que varreu o país. Benjamim não poupou esforços aos concertos que deu, tocando em 33 locais de norte a sul entre julho e agosto.

Rosie é como se o Volkswagen azul-escuro se tivesse transformado num DeLorean cinzento. Uma viagem ao passado, ao tempo em que Fausto Bordallo Dias e AP Braga compunham músicas em conjunto. E foi numa cassete perdida na casa de AP que Benjamim encontrou Rosie. Achava-se perdida e foi encontrada. Baseada num poema de Reinaldo Ferreira, composta em 1973 e lançada em 2015, Rosie remonta-nos a um passado simples e saudosista. Ouve-se uma e outra vez pois não nos parece “égale, idêntica, the same” mesmo após a termos corrido de uma ponta à outra vezes sem conta. Talvez seja da voz há muito desaparecida de AP Braga. Por ser um tema relativamente pequeno dá vontade de que seja maior e tenha mais estrofes. Nota bastante positiva.

Do Céu e da Terra começa a antecipar o final do álbum e o culminar de todo este trabalho. Surge-nos de uma forma calma, com um riff de guitarra que faz lembrar as baladas dos anos 80, uma revisitação aos cinemas drive-in. Mais uma vez Benjamim mostra-nos que consegue ir buscar sonoridades antigas e juntá-las aos sintetizadores modernos de forma a criar temas atuais.

Tempo para a música que dá nome ao álbum, Auto Rádio. Os corais que separam as fases da música trazem um tom épico à coisa. É como se os Los Hermanos tivessem voltado. No fundo conseguimos ouvir a sonoridade dos brasileiros aliada à experiência produtora de Luís Nunes. À medida que a música avança cresce dentro de nós um sentimento de protesto. Com tudo e com nada. Sobre tudo e sobre nada. Apenas ir. Dar continuidade ao que há 41 anos foi feito.

O Exílio fecha o álbum da melhor forma e é um resumo de todo o álbum. Deixa-nos saudosistas de tudo o que acabámos de ouvir. De tudo o que deixámos para trás quando a nossa geração se foi exilar num outro país, numa outra terra. De quando tivemos que abandonar as nossas origens para rumar a terras estrangeiras. Tudo isto à boleia de um suspiro que clama por Lisboa.

Um dos álbuns portugueses mais aguardados de 2015 acabou por dar razão às expectativas. Um álbum que prima pela matéria original e representativa de uma geração.

Ouve Auto Rádio aqui na íntegra:

Nota Final: 7,5/10