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Entrevista EF: Pedro Silva, InvictaCon 2015

O evento de jogos de tabuleiro InvictaCon 2015 ocorreu nos passados dias 2, 3 e 4 deste mês, tendo tido lugar nas instalações da Projet’Art, em Rio Tinto. Esta 9ª edição do evento contou com a presença de mais de 300 títulos diferentes para serem experimentados gratuitamente por aficionados em board games ou mesmo amadores. O evento teve lugar na sexta-feira e no sábado desde as 10h até às 2h, tendo iniciado à mesma hora no domingo e terminado às 20h.

Sendo criado sem fins lucrativos, o InvictaCon surgiu na sequência de outros eventos nacionais que já existiam, sendo Leiria um dos locais mais comuns onde este tipo de eventos se costuma realizar. O Espalha-Factos esteve à conversa com Pedro Silva, um dos organizadores do evento.

Como correu a primeira edição?

Foi curiosa. Foi feita numa loja que tinha vários tipos de jogos como Magic the Gathering, jogos de rede online, uma pista de carros telecomandados, uma loja com material de paintball e airsoft. Eu frequentava a loja, não como cliente porque não era propriamente praticante de nenhuma dessas atividades, e comecei a aparecer com os meus próprios jogos, a ver se aparecia alguém que quisesse jogar porque me pareceu sempre que quem jogava Magic, por exemplo, teria alguma sinergia com os jogos de tabuleiro.

Aos poucos fomos crescendo, e a primeira edição da InvictaCon foi precisamente nessa loja. Foi curioso porque, coincidentemente, fui contactado através de um outro website, o Board Game Geek, por um designer sueco que andava a fazer uma digressão pela Europa a mostrar um jogo que tinha, e que acabou por ser entrevistado pelo Jornal de Notícias, e com isso acabámos por ter algum impacto mediático em certa medida inesperado. Depois disso, as outras edições acabaram por perder um pouco desse impacto, embora já consigamos recuperar alguma aceitação junto da imprensa.

Como tem sido a adesão a esta edição?

Tem sido boa. Tínhamos consciência que por estarmos em Rio Tinto, em certa medida ficámos retirados do centro do Porto. Já tínhamos feito uma edição no centro do Porto, mais propriamente na Biblioteca Almeida Garrett, que foi a mais participada até hoje, e que, na minha opinião, é o melhor sítio possível.

Infelizmente, acabámos por não conseguir renovar a possibilidade de estarmos lá e viemos para cá. No ano passado estivemos no Centro Cultural Amália Rodrigues, e este ano o Projet’Art cedeu-nos o espaço para que pudéssemos ter o evento aqui. Temos tido boa adesão, mas temos consciência que não podemos esperar a mesma adesão que tivemos em anos anteriores.

Qual acha que é a faixa etária que tem mostrado mais interesse pelo evento?

O nosso público-alvo, aquele que tem uma maior apetência por esta atividade, andará por volta dos 17 anos até por volta dos 30. É claro que há também pessoas mais velhas, mas a média ronda entre essas duas idades.

Que tipo de jogos poderão ser encontrados no evento?

É complicado responder. Nós costumamos dizer que temos por volta de 300 títulos disponíveis, e dizer que tipos de jogos é um tanto complicado porque há muitos tipos e nós temos quase todos. Essa grande variedade é um dos aspetos que nós pretendemos mostrar às pessoas, na medida em que há muita coisa para descobrir neste mundo de jogos de tabuleiro que tem tido um crescimento muito grande nos últimos vinte anos.

Tem aparecido muita coisa diferente, muitas mecânicas inovadoras, muitos tipos diferentes de jogos, assim como híbridos entre esses vários tipos, e inclusive já têm aparecido híbridos entre jogos de tabuleiro e jogos eletrónicos, que ou usam a tecnologia para implementar algo no jogo de tabuleiro que seria mais difícil de fazer analogicamente ou mesmo portam um jogo de tabuleiro para uma aplicação digital. Por exemplo, há um jogo chamado XCOM, baseado numa série de jogos de PC e consola que já foi convertido para tabuleiro.

Nos PCs já começam também a aparecer jogos que foram originalmente jogos de tabuleiro, como por exemplo o Galaxy Trucker.

De que parte do mundo é que estes jogos costumam ser oriundos?

O maior produtor de jogos de tabuleiro do mundo é a Alemanha. A maior feira mundial é organizada na cidade alemã de Essen, e que terá lugar este mês. Estamos a falar de uma feira em que poderão estar presentes cerca de 150 mil pessoas, e são apresentados entre 600 a 700 títulos novos.

Para além da Alemanha, há muitos outros países na Europa que têm produção, levando a que tenha uma forte presença a nível mundial, tanto que nos Estados Unidos, uma boa parte destes jogos é conhecida como Eurogames. Os Estados Unidos, por sua vez, são também produtores muito fortes, e muita gente defende que os jogos lá produzidos têm uma filosofia diferente dos jogos europeus. A Ásia, mais propriamente no Japão, também vai tendo alguma representatividade. Genericamente, são estes os três povos principais de surgimento de novos títulos no mundo.

Algum jogo em particular que tenha chamado atenções?

Vou destacar dois, embora não quisesse que esses fossem considerados os jogos centrais do evento. Destaco-os por dois motivos: o primeiro porque é uma espécie de apresentação mundial de um jogo criado por um português, o The Gallerist, de Vital Lacerda, que está neste momento a fazer uma demonstração. E com isto, pessoas que estão habituadas a jogar e que conhecem o meio e os tipos de jogos que o Vital cria mostraram interesse em vir experimentar esse jogo.

Outro jogo que vou destacar, por ser recente, pertence a um criador checo, chamado Vlaada Chvátil, que é o Codenames. É um jogo muito simples em que há duas equipas, cada uma com um espião mestre que tenta através de uma palavra e de um número transmitir pistas aos restantes membros da equipa sobre 25 palavras que estão na mesa, tentando fazer com que esses membros consigam descobrir as que correspondem à equipa.

É uma novidade que tem tido enorme aceitação.

Acha que os jogos de tabuleiro têm conseguido aguentar-se, tendo em conta esta evolução tecnológica?

Eu acho que os jogos de tabuleiro estão a ressurgir. Esta minha afirmação tem a ver com, por exemplo, o website Board Game Geek, que é a página de Internet mais importante ligada a este passatempo e que tem tido um crescimento cada vez maior de membros, assim como a sua base de dados de títulos tem vindo a aumentar. Em Essen, o número de participantes também tem crescido imenso anualmente. E com isto ficamos com a sensação que, de facto, este hobby está a crescer e está a ter mais aceitação.

O facto de existir uma “competição” entre os jogos de tabuleiro e as plataformas digitais acaba por ser, em certa medida e para muitas pessoas, como um incentivo. Eu, por exemplo, sou técnico de informática, jogo jogos de computador e consola desde os anos 80 e o entretenimento digital para mim é algo que continuo a praticar e que gosto muito. No entanto, gosto também de jogos de tabuleiro e procuro nesse hobby um tipo de entretenimento diferente que é o de conviver diretamente com as pessoas.

É certo que hoje em dia, há jogos de consola e de computador que possibilitam que joguemos online e que tentam, de certa forma, criar uma experiência parecida. Contudo, nunca é a mesma coisa, e a interação pessoal é muito diferente. Há mesmo pessoas que chegam a nós e vêm com essa mesma ideia, de quererem algo que possa juntar a família ao invés de ir cada um para o seu canto. Esse é um excelente argumento a favor dos jogos de tabuleiro. Portanto, acredito que se estão a aguentar e mesmo a ganhar algum terreno.

Qual é o jogo de tabuleiro que costuma ser mais popular?

Nestes eventos, e olhando para a perspetiva de quem não está habituado, eu diria que os jogos que chamam mais gente são os que têm um aspeto visual bonito. Em relação aos RPGs (Role-Playing Games), temos uma forte vertente desse género de jogos, embora esse tipo de jogo implique ter algum compromisso. O RPG não se joga uma vez só; normalmente é uma campanha com várias sessões de jogo e que implica que o grupo se junte regularmente para praticar. Portanto, é um tipo de público um pouco diferente.

No entanto, eu diria que todo o tipo de jogo que possui interação pessoal, que é divertido, que tem piada, acaba por ter um impacto interessante. O Codenames, como referi há pouco, acaba por ser um bom exemplo porque a ideia de transmitir com uma palavra várias outras palavras, acaba por trazer novas nuances e significados escondidos e algumas incertezas nas pistas que são dadas, e as pessoas acabam por interpretar isso das formas mais estranhas e acaba por ser divertido.

Para quem é jogador, quando vimos a este tipo de eventos, já andamos à procura de alguma coisa e já sabemos o que queremos jogar a maior parte das vezes. Procuramos jogos mais complicados, como os de estratégia, que o tipo de público que não conhece não adere. Há também quem goste mais do tipo de jogo rápido, simples e divertido e que prefira esse género mesmo depois de já ter jogado muitos outros jogos.

Pode dar mais alguns exemplos de jogos de tabuleiro portugueses?

Posso, sim, mas com uma ressalva importante: a maioria dos jogos de tabuleiro portugueses não tem edição em Portugal porque por ser um mercado muito pequeno, não há muitas editoras. Por sua vez, o mercado estrangeiro como é bem maior, acaba por editar jogos de autores portugueses, o que faz com que não haja muito interesse em editar em Portugal.

Posto isto, como exemplos de jogos portugueses, temos os jogos do Vital Lacerda, nomeadamente o Vinhos, que tem a ver com Portugal, o CO2, que tem a ver com a poluição mundial, o The Gallerist, que vai sair agora, e o KanBan, que tem a ver com a nossa performance numa fábrica de automóveis.

Depois, há uma editora nacional, a MESAboardgames, que edita jogos criados por Gil d’Orey, que tem um título recente, chamado Panamax, que foi muito bem recebido no estrangeiro e que está disponível em Portugal. Temos também dois outros designers portugueses, o Paulo Soledade e o Nuno Sentieiro, que criaram jogos como o Madeira, que tem a ver com os inícios da colonização da Madeira, desde uma ilha com muita madeira, passando para a cana-de-açúcar e posteriormente para o vinho. Ao longo destas três eras, os jogadores vão fazendo atividades como favores à Coroa, por exemplo, e com isso conseguindo Pontos de Prestígio.

Vão também lançar um agora, o Nippon, que tem a ver com o Japão, e que será também lançado em Essen. Esses jogos não existem em português, assim como os do Vital Lacerda. Existem, no entanto, alguns em português, como o Trench, criado por Rui Alípio Monteiro, que foi inspirado na Primeira Guerra Mundial. De novidades recentes, destaco estas, embora existam muitas outras, apesar não existirem muitas edições em português.

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Fotografias de Sara Sampaio

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