Homem Irracional ou o novo filme do veteraníssimo Woody Allen estreia esta semana nas salas de cinema portuguesas, manifestando mais uma vez o compromisso do cineasta em realizar uma película por ano. A fórmula apresentada através de Homem Irracional é a mesma a que Allen nos tem vindo a habituar ao longo da carreira. Porém, estará esta perto do desgaste ou ainda plenamente funcional?

Para começar, explicar o enredo do filme com algum detalhe pode comprometer significativamente a experiência do mesmo, porque esta se deve essencialmente à presença de pequenos twists que dividem a estrutura do argumento. Por isso, diremos apenas que  Homem Irracional centra-se no desenvolvimento do protagonista Abe Lucas (Joaquin Phoenix), um brilhante professor e teórico de Filosofia que parece não conseguir ultrapassar o seu permanente estado depressivo. No entanto, Lucas vai acabar por repensar o propósito da sua existência à medida que vai conhecendo outras personagens que lhe oferecem, de igual forma, outro tipo de desafios emocionais. Deste grupo de personagens, destaca-se evidentemente Jill Pollard (Emma Stone), uma aluna da turma de Filosofia profundamente interessada no trabalho do teórico.

É na dinâmica de personagens que vemos imediatamente (se bem que de forma indirecta) o mérito que podemos continuar a atribuir a Woody Allen enquanto grande visionário no cinema. Neste sentido, o realizador continua a estabelecer uma política de direcção de atores fascinante, conferindo-lhes liberdade para abordar o papel de acordo com o seu próprio estilo, à medida que simultaneamente os conduz à ideia original das personagens. Não existirá nada mais fácil portanto, do que ver as diferenças no trabalho de qualquer actor fora e dentro do cinema de Allen. É como se uma parte do cineasta estivesse sempre presente no ecrã, mesmo sem a sua presença física enquanto actor. E quem acaba por ser beneficiado por esta característica são Phoenix e Stone, que disfrutam de uma química muito superior àquela que tinha sido vista em Magia ao Luar, entre a própria Emma Stone e Colin Firth.

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Isto para dizer que Woody Allen mantém-se irrepreensível naquilo que melhor definiu a sua carreira. Quem estiver disposto a ver Homem Irracional vai certamente destacar o argumento do filme naquilo que ele tem de concreto, isto é, o diálogo. Este é, sem qualquer surpresa, o ponto forte da película. De facto, os diálogos do mestre argumentista continuam a apresentar a mesma lucidez, inteligência e espirituosidade de sempre e a reforçar os conceitos que têm feito parte de grande parte da sua obra.

Neste sentido, o Homem Irracional é o recalque de uma fórmula, como já tínhamos dito anteriormente. O retorno ao existencialismo e à inutilidade de criar uma filosofia e razão ético-moral para lidar com o problema da mortalidade são a prova dessa mensagem final do realizador da falta de sentido da própria vida e da sua consequente inutilidade. Neste novo filme, porém, estes temas parecem ser mais concretos porque Homem Irracional trata de repensar a filosofia ironicamente através da proximidade com o mundo académico e com um filósofo que não acredita mais no propósito de existir. Trata-se, por isso, de um retrato que não passa de um cartoon satírico que arranjou maneira de existir e, existindo, de entreter o espectador que o observa.

Outra questão importante a considerar é a de que o argumento poderia sugerir um tom diferente daquele que Homem Irracional nos oferece. Estamos assim perante uma história de decepção que culmina num climax que poderia ser bastante intenso, mas o tom da fita é leve, quase como um Match Point feito ao contrário, ou um Crimes e Escapadelas menos bem conseguido. Tudo isto poderia ser francamente negativo, não fosse o realizador dar-nos provas que não quer levar o filme muito a sério, um pouco como a própria vida.

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O problema é que ainda assim Homem Irracional é um híbrido estranho. Apesar do tom brincalhão, é complicado perceber que género de filme estamos a ver. E a mudança de ritmo que parece dividir a sua estrutura, quase nos dá a conhecer dois filmes diferentes em vez de um produto mais coerente e uniforme. A ideia do enredo apresenta também alguns problemas ao nível do timing das sequências na medida em que o primeiro acto prolonga-se sem demoras até ao seu ponto de viragem mas o clímax final é, por outro lado, apressado e precipitado.

Como responder então à questão inicial a que nos propusemos resolver? Talvez como Woody Allen quereria, ou seja, de forma alguma. Apesar da fórmula de Homem Irracional estar ao abrigo de uma certa repetibilidade, consequência natural de uma obra tão longa, esta continua a proporcionar boas gargalhadas e novos problemas para reflectir, mesmo depois do final do filme. Homem Irracional deve ser ainda visto como é, o trabalho de um dos grandes autores do cinema norte-americano, que já ganhou todos os direitos de ser respeitado e apreciado.

7/10

Ficha Técnica
Título: Homem Irracional
Realizador: Woody Allen
Argumento:  Woody Allen
Género: Drama
Duração: 95 min