Hoje é já o último dia do MOTELx, mas o Espalha-Factos traz ainda as novidades do 4.º e penúltimo dia do festival. Neste fim-de-semana a programação ofereceu ao público lisboeta um sábado atípico,  repleto de fantasia, monstros, sangue e sustos… muitos sustos.

A equipa do EF esteve bastante atarefada pelas lides festivaleiras do MOTELx e o dia ficou invariavelmente marcado pela consagração do cinema de terror espanhol com Shrwe’s Nest e pelo novo filme do realizador de Blue RuinJeremy Saulnier que vê o seu Green Room a estrear em Portugal em plena sala Manoel de Oliveira.

The Hallow – 3.5/10

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O realizador Corin Hardy esteve presente na sessão de The Hallow para apresentar este seu trabalho. Disse estar surpreendido por ver tanta gente na sala para assistir a um filme de terror quando lá fora o sol brilhava na bonita cidade de Lisboa. Será que valeu então a pena trocar uma tarde solarenga por um lugar na Sala Manoel de Oliveira? Nem por isso. Apesar de ser um dos poucos títulos que pertence mesmo ao género do terror (esta edição do MOTELx tem apostado mais em thrillers e até em comédias), não se pode dizer que seja um seu bom representante.

Filmado nas florestas irlandesas, utilizando uns bons efeitos especiais e com um início que fazia prever um filme com algum comentário político, The Hallow rapidamente desaproveita estes bons aspetos e torna-se num filme banalíssimo, onde a história é demasiado pobre para ficarmos interessados nela e a fórmula utilizada para assustar o espetador é a mesma de dezenas de outras fitas, tornando os sustos demasiado previsíveis.

Extinction – 5.5/10

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Os zombies nos últimos anos têm-se tornado os protagonistas de mais e mais projetos quer no cinema quer na televisão. Difícil é por isso aparecer um novo filme que consiga surpreender e apresentar uma nova visão sobre os mortos-vivos. Extinction parece estar ciente disso e, apesar de a sua narrativa decorrer em pleno apocalipse zombie, foca-se mais na exploração do drama das suas personagens em vez de dar mais destaque à luta entre humanos e monstros.

A história dos três protagonistas mesmo assim não é nada de nova. Com alguns lugares comuns e diálogos já muito batidos, podemos ir adivinhando o que se vai passando e o desfecho é adivinhável com alguma antecedência. Há contudo alguns jump scares que tornam a vertente de terror interessante, fazendo com que Extinction seja uma abordagem ao universo zombie não original mas ligeiramente mais rica.

Shrew’s Nest – 9/10

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Shrew’s Nest, um filme espanhol realizado por Juanfer Andrés e Esteban Roel, foi ontem projectado numa Manoel de Oliveira completamente esgotada. Costuma já ser norma do festival guardar as suspresas para a sessão dos sábados pelas 21h. Com a presença de ambos os realizadores e da carismática atriz principal Macarena Gómez – que saudou a plateia com histórias caricatas que tem vivido pela capital portuguesa -, o filme foi apresentado perante um público muito expectante. Afinal não são todos os dias que podemos ver numa das maiores salas de cinema do país um filme de horror espanhol que tivera 3 nomeações aos Goya.

A expectativa era de facto grande, mas a história de Montse e de sua irmã, que até ao final da película era apelidada de Niña, surpreendeu toda uma plateia que não conseguia desviar o olhar do ecrã, mesmo nos momentos mais tensos em que os mais frágeis estão mais tentados a olhar para o colega do lado para não se assustarem. O argumento desta película, apesar de estar belissimamente escrito e de criar todo um paralelo, ou antes, uma metáfora entre a vida trancada de Montse com o regime franquista espanhol, é bastante banal. Não há muita inovação trazida para o género, mas é no aceitar desta realidade e no explorar desta característica que nasce algo que tanto faz agradar neste filme. É um filme que nos conta uma história que já nos foi contada um monte de vezes noutros filmes de terror, mas é também um filme que o faz de uma maneira diferente ou, aliás, de uma forma mais aperfeiçoada.

E claro, não podemos falar de Shrew’s Nest sem falar de Macarena Goméz, a atriz que deu vida a Montse. Apesar do bom trabalho de realização deste filme espanhol, o que realmente brilhou no grande ecrã foi a grandiosa interpretação da atriz espanhola. Gómez nasceu para este papel e este papel surgiu para ela. Gómez e Montse partilham uma intimidade tal que o que vemos em ecrã é talvez das melhores prestações que serão projectadas em todo o Portugal durante este 2015. Como a própria atriz admitiu no Q&A depois do filme, este papel caiu-lhe do céu e foi uma dádiva para a sua carreira.

Green Room – 8/10

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Depois de Blue Ruin – filme que andou por circuito de festivais ganhando inclusive um prémio em Cannes e nomeação nos Independent Spirit Awards -, Jeremy Saulnier volta à cadeira de realização, desta feita com um filme sobre um movimento skinhead neo-nazi que se confunde com o mundo do punk-rock e acaba por resultar em 90 minutos de gore, ação e unhas ruídas.

Talvez dos pontos mais fortes de toda a película é a câmera de Saulnier. Segura, firme e com ângulos no ponto, a realização desta película é verdadeiramente boa, destacando-se de muitas das obras projectadas até agora na programação desta 9.ª edição do MOTELx. Além disso, a fotografia, as tonalidades e os set ajudam a criar toda uma ambiência muito característica, ajuda à criação de uma imagética no subcosciente dos espectadores que vai muito além das imagens mostradas, fazendo com que os espaços onde decorrem a ação provoquem o medo, a repulsa, a desconfiança e a vontade de sair (uma claustrofobia que não te deixa desviar o olhar da tela, nem por um segundo, durante aqueles 90 minutos tu és parte da história).

Além de ser bastante curto, Green Room foi talvez a maior dose de gore e adrenalina programada para esta edição do festival. Numa sessão da meia noite completamente esgotada não havia ninguém com cara de sono. A nova de película de Jeremy Saulnier é como que um shot de pura adrenalina no sangue do público, provocando uma grande ovação no final da projecção.

Texto de Ricardo Rodrigues e Sebastião Barata