O nome que hoje vos apresentamos pode ser de difícil reconhecimento, mas repleto de talento. Fernando José Rodrigues foi professor por vocação, é escritor por paixão e ator por vício. Entrevistámos este profissional e artista tão completo e com tanto talento na Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo, em Leiria. A vida de quem é artista por inteiro na décima terceira entrada do Boca de Cena.

Fernando José Rodrigues nasceu a 21 de dezembro de 1956, em Coimbra, e cedo percebeu a sua paixão pela arte. Em criança participava em ações de leitura organizadas pelas bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian e acredita que a sua paixão pela arte tenha começado aí, quando nasceu o gosto pela leitura. Formou-se em Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e teve uma carreira profissional na área da educação, tendo sido professor durante 36 anos. Deixou as salas de aula por se cansar de tanta burocracia exigida, não pelo amor que tem pelos alunos e pelas aulas. Sim, porque esse amor nunca há-de ter fim!

Entrevista a Fernando José Rodrigues, na Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo, em Leiria

Entrevista a Fernando José Rodrigues, na Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo, em Leiria

Em jovem, surge a paixão pela escrita, numa forma mais articulada, sobretudo na área do romance. Depois disso, sentiu ainda a necessidade de articular a escrita com a música e as artes de palco, nascendo assim o Projecto Artes Novas. Este projeto dá voz à poesia de Língua Portuguesa, e nos espetáculos cruzam-se, misturam-se e transformam-se a literatura, a música, a pintura e a arte dramática, de uma maneira original, poesia lírica com poesia erótica e poetas de várias épocas e estilos. Os espetáculos do Projecto Artes Novas são de sensibilidades e de humor, com afetos à flor da pele.

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Fernando José Rodrigues em Bué Poetas Fixes, Projecto Artes Novas, na Feira do Livro, a 8 de maio de 2010

Recorda o início do projeto com alguma saudade, pois eram outros tempos e tinha outra idade, que lhe permitia ter mais agilidade para uma vida artística tão preenchida. Foi num bar, em Leiria, que se apresentou com o Projecto Artes Novas pela primeira vez. A peça Para que a cultura não seja sóbria, bem dito álcool foi uma surpresa, tanto para o grupo como para o público. Revela-nos: “O bar estava completamente cheio, e havia gente levada quase como que amarrada e, de repente, ao fim de três temas, todas aquelas pessoas estavam com um sorriso na cara porque estavam a ouvir poesia de modo diferente, nada de modo tradicional, com ritmo, com alegria e sempre, com crítica social”. A crítica social está sempre presente nos seus espetáculos, pois Fernando acredita que o ato de falar para outras pessoas não deve ser isolado do mundo que nos rodeia.

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Fernando José Rodrigues em Bué de Poetas Fixes, Projecto Artes Novas, no Bar Alinhavar, Leiria, a 23 de abril de 2010

Lamenta estar fora do palco há algum tempo, mas confidencia-nos que está para breve o regresso do Projecto Artes Novas e, logicamente, também o seu regresso aos palcos. Sente falta da estruturação do espetáculo, da produção, dos ensaios e do público. Mais do que sentir falta, admite-nos que não se imagina sem esta vida, sem estas atividades e, por isso mesmo, o grupo teatral prepara o seu regresso aos palcos com um novo projeto, baseado na Geração de Orpheu. Fernando participa também no grupo de teatro infantil O Gato.

Em 1999 publica a sua primeira obra, Dom Sebastião chega sempre a horas, uma obra que conta a história de um Portugal que viu falhar o movimento militar de 25 de abril de 1974. Ou seja, Fernando conta a história ao contrário. Fernando José Rodrigues fala-nos desta obra com um amor parental, como se de um filho de tratasse. Aliás, o multifacetado e talentoso Fernando, fala-nos de todas as suas obras com o mesmo amor e, questionando-o sobre qual obra de que mais gostou escrever, responde-nos que “Gostei de todos, são todos diferentes. Isto é como os nossos filhos, gostamos de todos, são todos diferentes”.

Enquanto escritor, refere-nos que batalha diariamente para vingar no mundo literário, pois acredita que Portugal sofre de um problema de centralidade, e o centralismo literário passa por Lisboa

Para Fernando, a escrita é mais do que o ato de escrever e, enquanto professor, sempre tentou transmitir aos seus alunos a importância da escrita. Enquanto escritor, refere-nos que batalha diariamente para vingar no mundo literário, pois acredita que Portugal sofre de um problema de centralidade, e o centralismo literário passa por Lisboa e quem não conseguir estar próximo da capital, acaba por perder o contacto pessoal com jornalistas, críticos literários, o que é triste e até injusto.

Tem tentado manter uma ligação mais próxima com os seus leitores, e está inteiramente agradecido por todas as críticas que tem recebido sobre a sua mais recente obra O Beijo de Humphrey Bogart, que conta a história de Eva, uma mulher com alzheimer, que sabe que um dias todas as memórias desaparecerão e, por isso, antes de esquecer por completo, quer saber quem foi o amor da sua vida. “Foi um livro que gostei muito de escrever. Este é o meu livro mais desconstruído. Nunca há uma sequência cronológica, e o leitor é desafiado a concentrar-se na vida das personagens e a história vai saltando, às vezes dentro do próprio capítulo”, revela-nos.

Fernando José Rodrigues um excerto de uma das suas obras

Fernando José Rodrigues a ler um excerto de uma das suas obras

“Todos os meus livros são escritos sobre a memória ou sobre a procura pelo outro”, admite. Novas do Achamento do Inferno, publicada em 2002, conta a história de Álvaro, ou as suas muitas histórias, pois passa-se em tempos diferentes, de 1484 a 1530, e espaços diferentes, Portugal, Brasil e Índia. Álvaro, a personagem principal, ingressa na armada de Pedro Álvares Cabral para ir à procura do seu pai, que partiu para a Índia com Vasco da Gama e não regressou. Fernando refere o objetivo da sua obra como a procura pelo outro, mas também a procura pelo conhecimento.

Já ganhou um prémio com uma das suas obras. Viu Gestos Esquecidos, obra publicada em 2006, ser galardoado com o Prémio Literário Almeida Firmino. Foi o seu terceiro romance, e conta a história de duas famílias, dois ideias e um amor marcado pelos excessos da revolução. É um romance que nos apresenta um retrato fiel de uma época muito peculiar do Portugal contemporâneo e nos recorda como são indefiníveis os limites desse território misterioso que é o amor.

Obras de Fernando José Rodrigues

Obras de Fernando José Rodrigues

Curiosamente, Fernando tem uma obra que nunca fora publicada e que ganhou dois prémios. Manual das Feiticeiras, uma obra que fala sobre uma mulher que faz milagres, uma espécie de olhar social sobre uma sociedade que exige milagres. Esta obra ganhou o Prémio Afonso Lopes Vieira, atribuído pela Câmara Municipal de Leiria, em 2003, e o 1.º Prémio de Contos SPRC (Sindicato de Professores da Região Centro).

Para escrever as suas obras, Fernando José Rodrigues procura inspiração no dia-a-dia, seja no mundo contemporâneo ou em acontecimentos históricos. Confessa-nos que quando escreve uma obra olha mais para as pessoas, para os seus atos e, quando escreve, quase que representa uma acção para melhor poder descrevê-la. Procura também inspiração junto dos seus poetas de eleição, como Fernando Pessoa ou Pablo Neruda, e apelida-os carinhosamente de seus “ajudantes”. Fernando dedica sempre as suas obras, e sem excepção, ao seu filho Diogo.

Fernando confidencia-nos que já se prepara para escrever a sua próxima obra

Fernando tem a noção e admite-nos que, para qualquer escritor, não é fácil manter um padrão em todas as obras e o mais difícil está na ideia de como será a próxima obra. Esse é o verdadeiro problema para um escritor. No entanto, Fernando confidencia-nos que já se prepara para escrever a sua próxima obra, que terá como título Atentado em Lisboa, e sobre este romance diz-nos: “É a história de uma mulher que perde a filha num atentado em Lisboa e o modo como a personagem olha para aquilo e como isso abala todas as suas convicções”.

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Fernando José Rodrigues em entrevista na Biblioteca da Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo, em Leiria

Teve um percurso preenchido na área das línguas, tendo até sido convidado para ser o responsável pela versão inglesa de José Saramago na Fundação Nobel, em Estocolmo, em 1998. Fernando recorda este acontecimento como um “momento histórico”. Diz-nos com muito orgulho que tem emoldurada a versão inglesa assinada por Saramago, que está pendurada algures num sítio muito especial, em casa.

Sobre o estado da arte em Portugal, Fernando diz-nos o seguinte: “Penso que há muitas coisas bem feitas em Portugal, e até em Leiria. Há muitos bons criadores, há grandes escritores, há grandes pintores, há grandes fotógrafos. O problema está na centralidade, e se toda esta gente tivesse em Lisboa, teria um reconhecimento muitíssimo maior. Mas não há dúvida que se fazem boas coisas em Portugal, mas é preciso que as coisas apontem sempre para caminhos novos”.

“Tenho muita coisa para fazer, muita coisa para escrever, muita coisa para pôr em palco, muitos projetos para realizar e, sobretudo, não quero parar” – Fernando José Rodrigues

Para Fernando, o maior sonho é continuar a trabalhar nos seus projetos criativos. Com 58 anos já sente o cansaço de uma vida, mas desejaria ter outros 58 anos pela frente, para realizar sonhos de artista. Confidencia-nos que gostava ainda de fazer cinema. “Tenho muita coisa para fazer, muita coisa para escrever, muita coisa para pôr em palco, muitos projetos para realizar e, sobretudo, não quero parar. Porque se parar, é porque o alzheimer me atingiu”, termina.