Neste quarto dia do festival a oferta cinematográfica do MOTELx foi bastante diversificada. Desde polvos assassínios com cara de emoji a escuteiros sádicos, passando pelo filme mais perigoso de sempre. O festival veio para assustar e este foi, sem dúvida, um dos dias mais completos disso.

A equipa do Espalha-Factos conseguiu assistir a um grande conjunto de obras neste quarto dia de programação. Destacando Roar, o que dizem ser o filme mais perigoso de sempre – sendo que 70 pessoas ficaram feridas na rodagem do mesmo -, e também Purgatory, talvez das obras mais assustadoras desta 9.ª edição, um filme espanhol que nos demonstra como o género ainda contínua forte e relevante na nossa vizinha Espanha.

Assassination Classroom – 2/10

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Não é por acaso que existe o estereótipo de que os japoneses conseguem fazer de tudo o que de mais estranho existe. Exemplo disso é este Assassination Classroom. Baseado numa série de manga do mesmo nome, encontramos aqui um monstro amarelo com tentáculos e cuja cara é uma smiley face. Ameaçando destruir o planeta Terra, esta poderosa criatura dá uma oportunidade à humanidade, tornando-se professor da turma 3-E da escola secundária Kunugigaoka, constituída pelos piores alunos e a quem vai ensinar não só a matéria escolar mas também métodos de assassínio.

Sinopse estranha? Comparada com o que se passa no ecrã até é bem banal. Assassination Classroom é das fitas mais bizarras e nonsense que se têm visto no festival. Apesar de alguns aspetos como a banda sonora e o desenrolar da história fazerem lembrar um filme de miúdos, este não é certamente o título ideal para a criançada… nem para adolescentes… nem tão pouco para adultos. Talvez só fãs incondicionais da manga consigam ficar agradados com diálogos sem sentido, peripécias inacreditáveis e tantas outras coisas inexplicáveis. O público do São Jorge saiu da sala embasbacado, e não há como censura-lo.

Hardware – 7/10maxresdefault

Primeira longa-metragem da carreira de Richard Stanley, Hardware (1990) é uma ficção científica como poucas vezes se vê. Num mundo pós-apocalíptico dominado pelas grandes indústrias, uma aparentemente inofensiva cabeça de robô vai conseguir reconstruir o corpo da máquina assassina a que pertence, espalhando o caos na casa onde os dois protagonistas do filme vivem. Inicia-se assim uma luta entre homem e máquina, onde nenhum dos dois se deixará derrotar facilmente.

Com cenários tão belos como desconcertantes (a fotografia é absolutamente soberba) e grandes e violentas batalhas entre M.A.R.K. 13, a máquina, e Jill e Mo, o casal que se tem de defender desta implacável forma de inteligência artificial, o filme não deixará ninguém indiferente. Há alturas onde Stanley parece perder um pouco o rumo do seu trabalho culminando em cenas algo confusas ou até desnecessárias, mas o resultado final de Hardware fica na memória. Deixou água na boca para ver o seguimento desta retrospetiva do cineasta, que tem continuação no domingo com Dust Devil (16h45m na Sala Manoel de Oliveira) e uma masterclass do próprio Stanley às 18h30m na Sala Montepio.

Cub – 6/10maxresdefault (1)

Cub é a representação belga nesta edição do MOTELx. Um filme que, apesar da sua competência técnica e boa realização, acaba por deixar um pouco a desejar, tanto pela linha narrativa como pelo actores e o desenrolar da acção. Cub não tem uma história cativante, não chama a audiência a estar atenta ou a preocupar-se com o fado dos protagonistas.

Acima de tudo é um filme de terror desprovido de carisma, mas que, no final do dia, continua a demonstrar um alto nível nas vertentes mais técnicas: desde a fotografia a efeitos especiais e maquilhagem.

Roar – 8/10

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O que leva um family movie a passar no MOTELx? Talvez o facto de ser o filme mais perigoso de sempre! Roar (1981) é já conhecido pelos acontecimentos que fizeram da sua rodagem material lendário: filmado em África com uma centena de leões, tigres, pumas e leopardos, aquele que seria um projeto para alertar para os direitos dos animais tornou-se num verdadeiro inferno para elenco e equipa técnica, já que 70 pessoas foram feridas no processo, algumas com bastante gravidade. E não foi só atrás das câmaras que tal aconteceu, não senhor; muitas das dentadas e arranhões que os felinos deram nos atores ficaram gravadas e foram finalmente redescobertas este ano.

Quando os intérpretes estão a reproduzir o argumento e a narrativa se vai desenvolvendo não há muito para ver: é a típica história de anos 80, cheia de diálogos cheesy e com uma moral fácil de apanhar no final. O que é verdadeiramente espantoso é a loucura de Noel Marshall (realizador e protagonista) e companhia quando se põem no meio de lutas entre leões, quando se abraçam a tigres, quando fazem tudo aquilo que o ser humano nem imaginaria fazer estando próximo de dentes e garras tão afiados. E depois há impagáveis cenas onde majestosos animais brincam com skates, capacetes, sapatos, rasgam sofás, etc. Fascinante e impossível de recriar, Roar foi sem dúvida um dos pontos altos desta edição do MOTELx.

Purgatory – 8/10

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Purgatorio – no seu nome original – é a grande representação de Espanha no certame deste ano. Como sempre os nossos hermanos entregam uma obra fiel a si mesma e, algo que raramente acontece no MOTELx, realmente assustadora. A narrativa em si é bastante simples e nada de concreto acontece durante a longa-metragem, mas é a forma como Pau Teixidor – realizador da película – filma e cria tensão que é quase asfixiante para o espectador.

Nunca se viu a sala Manoel de Oliveira, em pleno Cinema São Jorge, tão tensa como quando a ver este filme. Os planos apertados – sem espaço para respirar -, a imagem inundada de negros e cores esbatidas, o sufoco de Marta (brilhantemente encarnada por Oona Chaplin) e, por fim, a insanidade de Daniel. Contribuiu tudo isto para a criação de uma ambiência muito própria a este filme que foi um verdadeiro teste aos corações do público que por mais do que uma vez saltaram das suas cadeiras.

Cop Car – 8.5/10

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Feito à boa e velha maneira dos irmãos Cohen (uma história insólita, muito humor negro, grandes momentos de tensão…), Cop Car foi apresentado como um clássico de culto instantâneo. E é bem possível que tal seja verdade. Com uma excelente realização de Jon Watts, naquele que é apenas o seu segundo trabalho na cadeira de realizador, e várias boas interpretações, o filme inicia-se com algo improvável: dois miúdos fugidios de nove anos roubam o carro ao Xerife Kretzer e dão assim início a uma perseguição e a uma espiral de acontecimentos que muito sangue fará correr.

Kevin Bacon é o Xerife numa interpretação que mostra o quão desaproveitado é o seu talento por vezes e James Freedson-Jackson e Hays Welford dão vida aos dois rapazolas com duas performances muito interessantes tendo em conta a tenra idade de ambos. A narrativa até pode ser muito linear e simples, mas não faltam reviravoltas imprevisíveis e muito mistério em relação às intenções das personagens que mantêm o espectador bem colado ao ecrã. Cop Car foi a primeira grande sessão da noite desta 9.ª edição do MOTELx e muito provavelmente ganhou mais uns quantos fãs para o seu estatuto de cult film.

Scherzo Diabolico – 4/10

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Scherzo Diabolico representa aqui o cinema mexicano que se tem vindo a afirmar cada vez mais no panorama de terror internacional. O grande problema com esta representação é que a película de Adrián García Bogliano é má. É realmente muito má. Desde o argumento à realização tudo roça a um amadorismo gritante e no final do filme o público questiona-se se não acabou de ver uma daquelas melodramáticas telenovelas bem características dos países da América latina.

Os atores do elenco entregaram performances bastantes desinspiradas, desprovidas de qualquer ânimo ou vontade. O argumento é ao mesmo tempo do mais básico como do mais repleto de clichés do género e, por fim e talvez o maior defeito do filme, a realização extremamente amadora. Parece não haver noção de como filmar, de como enquadrar, de como dirigir. Este foi, talvez, das maiores desilusões de todo o certame desta 9.ª edição do MOTELx.

Texto de Ricardo Rodrigues e Sebastião Barata