Mais um mês, mais um Passo a Passo. Desta vez é Sylvie Guillem que caminha ao nosso lado. Aos 50 anos, esta famosa bailarina com uma ilustre carreira decide por fim à sua vida de palco com uma tournée intitulada Life in Progress, motivo mais que suficiente para ser a cara da rubrica deste mês.

Considera uma das deusas do ballet, Sylvie Guillem é conhecida por todo o mundo não só pela sua técnica exímia, pelos prémios e reconhecimento recebidos ou pelos trabalhos que fez, mas também pela ousadia que sempre teve num mundo de duras regras e até algum preconceito.

Há mais de trinta anos que Sylvie Guillem é um fenómeno da dança. O facto de querer terminar a sua carreira enquanto ainda está com uma grande capacidade física, apesar dos seus cinquenta anos, vem apenas confirmar aquilo que Sylvie sempre mostrou ser: uma mulher determinada, que traça o seu próprio caminho e que cujas atitudes, movimentos ou reacções são unicamente escolhas suas. Depois de redefinir as barreiras do ballet, tornando-se no protótipo moderno da estética física de uma bailarina, Guillem termina a sua carreira com o estatuto de uma mulher independente, que sempre defendeu aquilo em que acreditava e que foi capaz de questionar as normas.

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Nascida a 25 de fevereiro de 1965, em Paris, é filha de uma mãe professora de ginástica e de um pai mecânico. Sylvie começou desde cedo na ginástica, mas para ela nunca houve ligação com a dança. Experimentou ballet a conselho de uma professora e por incrível que pareça: odiou. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, afirmou: “Quando fazia ginástica, eu estava a brincar. Era divertido. No ballet não havia diversão de maneira nenhuma”.  Passado pouco tempo Sylvie deixou o ballet de parte e voltou à ginástica, onde treinava para os Jogos Olímpicos. O amor pela dança só chegou quando pisou o palco pela primeira vez. “Um pé em palco. A cortina subiu. E ali estava…” A relação com o público foi imediata e assim nasceu uma das superestrelas da dança.

Sylvie Guillem em 2001 recriou o Gisele em Londres.

Sylvie Guillem, em 2001, recriou  Gisele em Londres.

Este pequeno prodígio foi descoberto por Rudolph Nureyev, que a tornou na grande estrela do Paris Opera Ballet, pouco depois de atingir a maioridade. Aos vinte e cinco anos decidiu abandonar a sua escola e partir para Londres, para ser prima ballerina no Royal Ballet. Sylvie disse sentir necessidade de voar mais alto e precisar da liberdade que o seu tutor não lhe permitia. Nureyev não gosta de ser questionado”, afirmou Sylvie. O choque foi tão grande, que na altura o ministro da cultura francês disse ao jornal Le Monde que a sua saída era uma “catástrofe nacional”. Foi no Royal Ballet que Sylvie ganhou a alcunha de Mademoiselle Non, por negar tantos papéis e fazer tantas exigências consoante a sua vontade.

A bailarina que sempre odiou a barra, tinha uma técnica perfeita e uma flexibilidade e força invejáveis. No entanto, Sylvie defendia apenas a dança. A técnica era algo que não lhe interessava apesar de todos os grandes papéis que desempenhou em grandes clássicos de ballet. Depois de ter desempenhado grandes papéis como Giselle ou Odette/Odile, de ter partilhado palco com Nureyev ou Akram Khan, Sylvie diz que a única forma de parar é efectivamente parar de vez, “na dança é a música que marca o ritmo, não podes abrandar”, afirmou a própria em entrevista ao The Guardian.

Sylviem Guillem é casada com o fotógrafo francês Gilles Tapie, que em 2001 a fotografou para a Vogue francesa. Nesta famosa e imprevisível sessão, surge nua e sem maquilhagem para mostrar algo: “a minha maneira de ser e a forma como me vejo a mim mesma”.

Aclamada por todas as companhias, Sylviem Guillem é uma exemplo para a dança. Da sua flexibilidade à sua técnica perfeita, à capacidade de criação e ao seu feitio, esta bailarina causou sempre sensação. O seu último solo vai ser dançado a 28 de dezembro em Hiroshima, Japão.

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