No terceiro dia do festival mais assustador de Lisboa o Espalha-Factos teve a oportunidade de ver os mais variados filmes. Desde lobisomens inteligentes a taxistas do inferno, passando por polícias corruptos e namoradas mortas que estão…vivas.

O festival continua a assustar o público lisboeta que, este ano, se tem mostrado muito interessado na programação desta 9.ª edição do MOTELx. Conseguimos perceber isso pelo mar de gente que tem invadido o São Jorge diariamente e as efusivas palmas sempre que os créditos da película aparecem. Este dia não foi diferente, no meio de muitas palmas, risos e espantos, também houve bastante espaço para sustos.

Hyena – 7/10

Hyena

O novo filme de Gerard Johnson leva-nos ao submundo londrino onde conhecemos Michael Logan, polícia corrupto e autodestrutivo, após este iniciar uma luta contra mafiosos albaneses que estão prontos a derramar o sangue que for preciso para se verem livres dele. Hyena apresenta-se como um thriller violento e explícito, não poupando em mostrar imagens chocantes e conseguindo criar momentos de grande tensão (para a qual contribui ainda a grande banda sonora dos The The), aligeirados nas alturas certas por leves comic reliefs bem equacionados.

Não faltam pontos de interesse para nos manter fixos ao ecrã. A realização de Johnson juntamente com uma interessante fotografia torna o visual de Hyena desconcertante e a performance de Peter Ferdinando como Logan é uma das melhores que se têm visto no festival, contribuindo para acentuar o ambiente sombrio e pesado do filme. A narrativa até pode ser lenta e a história propriamente dita demora algum tempo a arrancar, mas os seus momentos chaves são tão excitantes e tão bem filmados que fazem valer a pena o tempo necessário para construir o que lhes antecedeu. Tem condições para, talvez num futuro próximo, se vir a tornar num pequeno tesouro de culto.

No Tears For The Dead – 5/10

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Apresentado como uma sentimental action, No Tears for the Dead é o típico filme onde o realizador se importa mais com as cenas de pancadaria do que propriamente com a sua história. Nesta produção coreana é muito difícil seguir o que se está a passar, pois o fio narrativo vai ficando mais e mais confuso à medida que se desenrola, com algumas dificuldades em definir o seu tom e com muita coisa a acontecer ao mesmo tempo e muito rápido para se conseguir assimilar com calma o que se passa.

No meio desta salganhada de acontecimentos há bastantes cenas de ação. E é nelas que se encontra a verdadeira atração do filme. Inundadas de sangue, filmadas de um modo ligeiramente diferente do habitual (embora persistam típicos clichés como “três tipos a disparar contra o protagonista e não há uma bala que lhe acerte”) e cheias de estilo, não há como não nos sentirmos entretidos com o que se vê no ecrã. E há que dizer que o lado emocional de No Tears for the Dead está muito bem explorado, conseguindo humanizar protagonistas que, noutros títulos do género, não passariam de marionetas sem alma. Pode não ser o suficiente para esconder os defeitos do filme, mas já dá para tornar o seu visionamento um bocadinho mais rico.

Burying the Ex – 6.5/10

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Burying the Ex é talvez o maior comic relief desta 9.ª edição do MOTELx. O filme, aliás, não tenta ser mais do que isso mesmo: um bom momento de entretenimento para te fazer rir sem que te exija uma grande compreensão disto ou daquilo. Um filme que, como obra de entretenimento, satisfaz completamente o espectador mas que será, inevitavelmente, apagado da memória de todos os que estavam na sala do Manoel de Olivera no São Jorge.

É um daqueles casos que podemos concorda que Burying the Ex é tão mau, tão mau que se torna irremediavelmente bom. Um filme tão estúpido que só brilha porque não se leva a sério, ele próprio sabe que é uma paródia do subgénero zombie e, no seu sentido mais lato, até uma paródia de todo o género de terror. Já tivemos o Life After Beth o ano passado na programação do festival, este ano os momentos cómicos de nonsense foram entregues por este Burying the Ex.

Howl – 4/10

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Semelhante visual e narrativamente a um qualquer episódio de Masters of Horror (série que, nem por acaso, passou em Portugal no MOV, um dos patrocinadores do MOTELx), Howl foi o escolhido para a sessão da noite deste terceiro dia de festival. Apresentado pelo próprio realizador, Paul Hyett, o filme é mais um título de lobisomens como tantos outros: não oferece uma visão diferente sobre o assunto e todos os contornos da sua história estão mais que vistos quer no cinema quer na televisão.

Com atores sem grande talento, efeitos especiais muito básicos e sustos bastante previsíveis, não há muito que mereça ser dito sobre esta desinspirada obra. Howl vale essencialmente pelas pequenas lutas entre os passageiros do comboio onde o filme decorre e os lobisomens que o cercam. Não que sejam excecionais (antes pelo contrário), mas as performances over the top de alguns membros do elenco enquanto são dadas várias machadadas nos corpos dos monstros divertem e chegaram até a soltar alguns aplausos do público. Já é alguma coisa.

Night Fare – 7/10

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Filme francês de Julien Seri e que nos vem mostrar o melhor do terror feito no país dos vinhos e queijos. Com presença do realizador e do taxista do inferno – Jess Liaudin – em sala o filme mereceu, já no final, um forte aplauso por parte da plateia que se mostrou, na sua generalidade, agradada com o que tinha acabado de ver.

Night Fare assume-se como um atípico terror de perseguição, misturando constantemente uma ficção realista com toques de um quase sobrenatural ou mágico. O tom mais misterioso que envolve, durante quase toda a duração da película, o motorista do maléfico táxi está bem explorada e encarnada por Liaudin. A narrativa desenrola-se bastante rápido e os acontecimentos precipitam-se em cataclismo contra os protagonistas, o filme tem um bom ritmo e a audiência nem se atreve a desviar o olhar do ecrã.

No entanto sente-se que Night Fare se perde um pouco para os minutos finais. Apostando sempre numa acção bastante realista – uma particularidade que era talvez dos ponto mais fortes do filme -, o final desmontou por completo a linha lógica da narrativa. Esta mudança, em contraste com o resto do filme, parece ter vindo algo do nada e, para ser a última peça do puzzle é uma peça que não encaixa na perfeição com o resto e acaba por fazer com que o filme acabe numa nota estranha para a audiência.

Texto de Ricardo Rodrigues e Sebastião Barata