A Quinta da Atalaia recebeu mais uma edição da Festa do Avante. O evento máximo do Partido Comunista Português (PCP) voltou a atrair novos e velhos, chamou camaradas, amigos e companheiros. Por entre várias Carvalhesas, alguns copos de tinto e muita conversa, o Espalha-Factos também andou por lá.

Aqui é a terra da liberdade“, explicava a camarada Anabela enquanto servia mais uma bifana. “Venho cá desde pequenina, e nós estamos cá todos há tantos anos, e trabalhamos tanto por isto porque acreditamos naquilo que a Festa, e o PCP, representam para as pessoas. Aqui ninguém manda, nem ninguém obedece. Estamos cá todos para o mesmo“. Talvez seja este aquele sítio de que fala a Internacional, aquela terra sem amos.

E, enquanto não encontramos resposta conclusiva à dúvida anterior, uma certeza: Não há festa como esta. Cunhal diria que é justa, empolgante e invencível.

Justa

Justa porque, discordâncias políticas à parte, reivindica vários princípios universais: O acesso à cultura para todos é um deles. Um acesso tão amplo que permite ter, no palco principal da Festa, uma orquestra durante quase duas horas. A Orquestra Sinfonietta de Lisboa abriu as hostilidades no primeiro dia e deu-nos o imaginário do Cinema em força de música clássica. A noite era a fria, mas relembrar os clássicos acabou por servir para aquecer as almas e as memórias cinematográficas.

Foi também de memórias que se fez o concerto de Fausto. No sábado, a família comunista juntou-se em frente ao palco principal e depois de ir preparando as cordas vocais com os cantores regionais da Brigada Victor Jara, avançou em força para os êxitos de Fausto Bordalo Dias. O ícone da música popular portuguesa esteve completamente em casa, com um público que o conhece bem. A guerra é a guerra  e O barco vai de saída foram dois dos temas mais bem cantados pela audiência.

Expensive Soul traria outra roupagem ao final de noite e, em mais de uma hora e meia, desfilaram sucessos e puseram até o público mais resistente aos pulinhos. Que Saudade, Dou-te Nada, Cupido e uma versão especial de O Amor É Mágico, com os Tocá Rufar, encheram o recinto de soul e muita pinta. Um dos melhores espetáculos da música portuguesa, afiançamos.

No fecho, outro clássico: Xutos & Pontapés. Os decanos do rock português entraram para o Palco 25 de abril em modo ‘greatest hits’ e muito raramente se desviaram dessa trajetória. Tu Também, Salve-se Quem Puder e Ligações Diretas foram a exceção, trazendo ao palco comunista a veia mais contestatária do último álbum de originais da banda, Puro.

Empolgante

É empolgante uma festa que, ano após ano, nunca consegue desapontar. Um cartaz que junta os mais novos talentos da música portuguesa nos Novos Valores, que não perde de vista o folclore e as músicas mais tradicionais do nosso povo, que reúne os consagrados numa unânime afirmação – é especial estar aqui.

Um evento feito por pessoas, pessoas reais. Não são seguranças, são camaradas do ‘apoio’, não são chefs, são cozinheiras lá da terra – e que pitéus preparam. Pode não ser profissional, mas é impecável. Sorriso de orelha a orelha, mesmo para aqueles que, noutro sítio qualquer, não seriam qualificados como menos que os inimigos da Revolução e os responsáveis por 40 anos de políticas de direita.

A prova de que esta é uma festa de toda a gente – mesmo daqueles que parecem não concordar com as palavras de ordem que, um pouco por todo o lado, aparecem pintadas, ditas ou impressas. Uma festa que, apesar de tudo, não esconde as idiossincrasias do Partido Comunista. No Espaço Internacional tanto tem os progressistas do Die Linke (Alemanha) como os envergonhados esquerdistas do Partido dos Trabalhadores (Brasil), mas não deixa de fora o MPLA, partido do oligárquico governo angolano ou o Partido Comunista Chinês, aquele que inventou um país com o mais selvagem capitalismo sob uma bandeira vermelha.

Invencível

Acreditarei sempre que nada é mais vencedor do que aquilo que é feito com crença. E todos aqueles que, muito antes de pisarmos aquele recinto, erguem a Festa do Avante, acreditam profundamente no que estão a fazer.

E eu posso dizer que, por três dias, acreditei mais uma vez. Esta é uma Festa que junta a Ciência (no Espaço Ciência, o tema deste ano era a Luz), a prática desportiva coletiva e individual, os melhores filmes nacionais, mas também documentários sobre temas sérios (como a fúria privatizadora de alguns governos que todos conhecemos tão bem) ou o teatro dos mais jovens guionistas e atores.

A Festa do Avante junta, num só espaço, aquelas que devem ser as prioridades de um país – inovação, cultura e educação. É assim tão controverso?

Fotografias de Bárbara Sequeira.