“O seu nome define a alta-costura francesa”, assegura-nos uma voz-off que, ao mesmo tempo, se sobrepõe a uma sequência de imagens a preto e branco, que exibe excertos da história da marca Dior. É, também, esse rol de memórias que marca o começo de mais um documentário de Frédéric Tcheng. Com estreia nacional prevista para o próximo dia 10 de setembro, o documentário francês procura acompanhar as oito semanas compreendidas entre a introdução de Raf Simons, como o novo diretor criativo da Dior, e o desfile da sua primeira coleção enquanto tal.

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Depois de sermos presenteados com dois minutos de história da marca, depressa somos transportados para o presente, sendo relembrado aos espectadores que se trata de um documentário sobre a atualidade. Avançamos 55 anos no tempo e a aterragem é feita numa sala apinhada de trabalhadores que aguardam ansiosamente por ver o rosto daquele que ocupará o escritório que outrora foi de John Gallianno, o ex-diretor criativo que, devido à sua idolatração por Adolf Hitler, não deu outra opção aos superiores a não ser demiti-lo.

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Raf Simons, designer de moda de 47 anos de idade é, então, apresentado como o novo diretor criativo da marca francesa. Ao mesmo tempo que a expressão “Welcome to Dior” é pronunciada, a sala é invadida por uma nuvem de receio e incerteza que não tarda a escapar pelas gretas das janelas e a espalhar-se por toda a indústria da moda. Cathy Haryn, crítica de moda do The New York Times aponta o legado da casa Dior como a razão de tanta inquietação e espanto. Afinal, uma marca extravagante, romântica, feminina e atenta ao detalhe acabava de ser depositada nas mãos de um minimalista, pouco conhecido fora da indústria e dedicado ao pronto-a-vestir masculino.

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Para além da tarefa de comandar todo o processo que envolve a apresentação de uma coleção, Raf tem agora o desafio de mostrar a possibilidade de fusão destes dois opostos, aos cameramans de Frédéric Tcheng.

O problema reside no foco dado pelas objetivas das câmeras, que parecem ter sido programadas. A cada dois minutos de filme, são passadas imagens repetitivas de Raf Simons que se assemelham entre si, por  captarem sempre os mesmos sentimentos: receio, nervosismo e outros próprios de quem acaba de assumir responsabilidade por uma marca com tal legado. A verdade é que tal insistência acaba por passar uma imagem de insegurança e indecisão do diretor. De forma similar, são passadas cenas semelhantes às vistas em reality shows: pequenos desacordos, discussões necessárias e até cochichos entre as costureiras. Tudo isto me fez suspeitar do realizador do filme e da imagem e personalidade do diretor criativo que Frédéric se empenhou em criar e levar às massas.

Sob outra perspetiva, o roteiro não é claro. Num momento estão a escolher o espaço para o desfile, no seguinte, este já está decorado e, no outro, a coleção já está pronta e as celebridades já estão todas sofregantemente à espera que comece o espetáculo. Não há uma cronologia ou, pelo menos, uma sequência compreensível de ações. Por outro lado, o documentário ora se concentra nos trabalhadores da marca, ora na história passada, não havendo, por isso, uma conexão entre cenas.

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A própria música, quando existente, não combina com a ação já de si entediante. Trata-se de um música monótona e melancólica que não disperta no espectador o sentimento de stress e agitação próprios do processo de criação retratado e, até mesmo, da indústria.

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Anna Wintour é a primeira a chegar ao desfile e deseja boa sorte sorte a Raf Simons que, minutos depois, se deixa levar pela emoção e não consegue conter as lágrimas. Marion Cotillard, Donatella Versace, Sharon Stone, Jennifer Lawrence e Charlene do Mónaco ocupam os seus lugares. O realizador do filme conseguiu até transformar o desfile numa passagem demorada de modelos ao exibi-lo, maioritariamente, em câmera lenta. Todos aplaudem. A coleção foi um sucesso.

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Ficha Técnica

Título: Dior and I
Realizador: Frédéric Tcheng
Argumento: Frédéric Tcheng
Género: Documentário
Duração: 90 minutos