O cenário no Parque das Merendas: rostos felizes, t-shirts expressivas, calor à beira do insuportável e um subjacente desejo pela sonoridade extrema. Foi em ótimo tom que teve início ontem a segunda edição do Reverence Festival Valada, o ponto onde se unem os sons do psych, stoner, doom e tudo aquilo que os acompanha. Ainda em jeito de aquecimento, o primeiro dia do evento trouxe artistas nacionais e internacionais a apenas um dos palcos erguidos, dando ao público de Valada não mais do que um pequeno gosto do que por aí virá.

Montadas as tendas e resolvidos os afazeres dos festivaleiros que iam chegando ao longo do dia de quinta-feira, foi ainda a ritmo lento que se abriram as festividades no Palco Rio do Reverence: em pleno final de tarde, contavam-se às dezenas quem via os primeiros concertos, que mesmo assim ainda se sentavam, mal atentos à música que soava.

Não de se espantar, já que os inauguradores Luna Marada e Beautify Junkyards davam em palco concertos desinspirados, os primeiros com um stoner a meio gás (e um deselegante cover de Portishead!), e os segundos como uns You Can’t Win Charlie Brown mais psicadélicos mas bem menos aprazíveis.

Sobrou para os Galgo o primeiro ato verdadeiramente bom do dia. Os estreantes de Alfragide trouxeram ao Reverence o seu math rock bem medido, demonstrando um manusear prolífico dos seus efeitos e timbres que dificilmente denunciaria a sua inexperiência nos palcos. Foi com estes, então, que se avistaram as primeiras tímidas movimentações para a frente do palco, onde já se começava a dançar aos poucos ao som de Torre de Babel ou Trauma de Lagartixa.

É apenas com o pôr-do-sol (e consequente atenuar do calor abafado que impedia maiores efusividades) que o ambiente de entretenimento dá lugar a verdadeiro clima de festival. Após uns manifestamente agradáveis Chicos de Nazca e Purple Heart Parade, o primeiro grande slot do dia recai sobre The Vickers, quarteto italiano que trouxe a Valada o seu début Ghosts em camadas de delay e reverb. Visíveis apreciadores dos psicadelismo dos anos 60 (com um especial gosto pelo intemporal espólio dos Beatles), os Vickers não fizeram por esconder as suas influências, exibindo-as graciosamente pela qualidade da sua entrega performativa. Antes do retorno ao rock nacional, houve ainda tempo para uma majestral interpretação de Love You To, rearranjada a gosto pelos psych rockers italianos.

Não deixou de se instalar a impressão, não obstante, de que foi só depois desta despedida dos Vickers a cortesia de George Harrison, que o Reverence Valada começou a exibir as suas verdadeiras cores: com a garra e energia inesgotável dos lusos Keep Razors Sharp. Representados na linha de frente pelas guitarras sempre afiadas de Afonso Rodrigues e Rai, é do garage rock puro e duro que sobrevivem, e foi através dele que subverteram o já graúdo público do Parque das Merendas. Num concerto que fez justiça ao autointitulado de 2014, muito embora os problemas de som tenham atingido aqui níveis desconcertantes (problemas estes que se verificaram ao longo de todo o dia), os Keep Razors Sharp viveram de corpo e alma o ímpeto e overdrive que tão adequadamente caracterizam o Reverence Valada.

Por último, o melhor. A two-piece JEFF the Brotherhood tomou o palco já na madrugada com o pé no acelerador e nunca mais de lá o tirou, trazendo tudo aquilo que os fãs do Reverence adoram um pouco. Noutro concerto em que as influências pesaram extensivamente, era óbvio que os irmãos Jake e Jamin Orrall não vieram para inovar: entre o tom tragicamente jocoso dos Weezer e a bonança antes da tempestade dos Nirvana (para além da inesgotável fonte de inspiração deste Reverence que são os Black Sabbath), não há muito de identitário no trabalho de JEFF the Brotherhood. Mas a sua entrega e a dinâmica do seu espectáculo em palco revelaram-se tão envolventes qualquer reclamação de originalidade perde sentido, especialmente quando confrontada com os esmagadores riffs do ensemble de Nashville, Tennessee. No final, o desejo frustrado por continuar a tocar ainda culminou na cinemática visão do frontman a partir as cordas da sua guitarra, por detrás de uma multidão em júbilo e coros de palmas de admiração. Foi bom o dia no Reverence Valada.