Já alguma vez ouviste falar de Josh Tillman? É possível que não. E de Father John Misty? Pois, a conversa já é outra. O primeiro é o antigo baterista dos Fleet Foxes, que já conta com uma sólida (mas discreta) carreira a solo de oito álbuns e um pouco mais de um punhado de EP’s. O segundo, que é também o primeiro, é um dos mais badalados cantores e entertainers dos últimos anos no que à “parvamente” apelidada de “música alternativa” diz respeito. É também o homem que assumiu a responsabilidade de dar um dos grandes e aguardados concertos da edição deste ano do Vodafone Paredes de Coura.

Agora, que já passou tempo suficiente desde os dias do festival e que já me é possível falar sem fazer lembrar uma rapariga na pré-puberdade que acabou de ver um concerto da Violetta, deixemos de parte as já cansativas e mais que batidas alusões à missa e à religião católica derivadas da palavra “Father” e permitam-me desperdiçar estas linhas para fazer uma análise daquelas que a malta da Blitz gosta de fazer.

Depois de dois tremendos álbuns lançados (Fear Fun em 2012 e I Love You, Honeybear em 2015) já é quase como um cliché dizer que se adora Father John Misty. Nada contra isso. Porque se há coisa que é verdade, é que os clichés existem para sintetizar numa frase os acontecimentos, ou os lugares comuns, que se repetiram vezes sem conta. Nesse sentido, seria com enorme expectativa que se aguardava pelo primeiro concerto deste senhor de Maryland em Portugal, uma vez que se antevia um triângulo perfeito entre um público expectante, um homem inegavelmente talentoso e um festival que se mostra (ou mostrou até há bem pouco tempo) como o único onde fazia sentido acolhê-lo.

Subjectivismos à parte, a verdade é que tudo fez sentido. Desde o momento em que um gentleman vestido de preto se fez ao palco até ao momento em que o mesmo homem finalizou a sua demanda com as calças brancas de pó graças às muitas joelhadas no chão e às investidas contra o público. Aquilo a que quem a tudo isto assistiu foi uma lição de como ser um verdadeiro animal de palco. De como deixar o sangue, o suor e as tripas numa atuação que, ainda que meticulosamente ensaiada – o grito confessional de “This is me baby, this is all there is” foi gritado em Glastonbury assim como, provavelmente, em todos os concertos da tour – nunca deixou de causar suores frios e arrepios na espinha, mesmo àqueles que já sabiam ao que vinham e o que dali sairia.

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Josh Tillman, no papel deste pai, nunca foi muito pessoal mas também nunca se tornou excessivamente distante. Fez o que tinha a fazer. E mesmo que para ele tudo aquilo tenha sido apenas mais uma etapa do seu ganha-pão, o que é facto é que o homem conseguiu, à semelhança das lágrimas “inusitadas” de Charles Bradley e ao contrário de certos cabeças de cartaz australianos, mostrar que estava ali para dar um concerto e não única e exclusivamente para fazer o seu trabalho.

Tudo correu bem. A cadência de concerto que é para ver agarradinho ao/à mais-que-tudo, as ocasionais conversas com o público, as fotos e as filmagens feitas com telefones alheios e escolhidos aleatoriamente, as músicas triunfalmente alongadas, a Bored in the USA e o coro de Coura que, de forma mais ou menos assumida, foi acompanhando os refrões espertos de Father John Misty. A comunhão (desculpem-me) estava mais do que feita e celebrada.

Não resistindo às alusões religiosas que a princípio foram negadas, a realidade é que por este senhor, e se só ele fosse o chefe da companhia, eu me tornaria crente. Porque se os textos sagrados são para ser repetidos até à exaustão, então que me deixem ficar com as palavras daquele que é um gentleman que se intitula como um Ladie’s Man. Deixem-me tatuar na pele que só Father John Misty me pode julgar.