[AVISO DE SPOILERS – Se ainda não viste o primeiro episódio de Fear the Walking Dead, vai ver e depois volta.]

A premissa não é inovadora. Está até longe de ser completamente original. É uma produção televisiva sobre o apocalipse zombie. Quantas vezes já vimos isso no pequeno ou grande ecrã ao longo das últimas décadas? Até que crie uma reputação por si só (e já irei dizer se acho que o primeiro episódio foi um bom passo ou não), Fear the Walking Dead irá viver na sombra de famosos nomes como 28 Days Later, Zombieland, World War ZDawn of the Dead, Day of The Dead, Diary of The Dead, e mesmo de projetos mais recentes como iZombie. No meio disto tudo, a verdadeira sombra que pode assombrar realmente esta série será a de The Walking Dead, a “série-mãe”.
Mas quais foram as primeiras impressões que a estreia “mais aguardada do ano” (segundo o E! Online) deixou nos espetadores? Descobre aqui a nossa opinião.

Após vermos o episódio de Fear the Walking Dead, há algo que podemos logo realçar: o ritmo bem mais calmo que nos é apresentado. Ao contrário de The Walking Dead, que teve um episódio piloto bem agitado e repleto de zombies, o seu spin-off mostra-nos, ao longo de uma hora, apenas três infetados! Mesmo com uma primeira temporada pequena (apenas com um total de seis episódios), nota-se que os produtores da série não têm pressa em avançar para o cenário apocalíptico que já conhecemos da “série-mãe”. Foi-nos prometido que veríamos o início de todo o desastre mundial e parece que não se trata de publicidade enganosa.

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Porém, para manterem os espetadores entretidos durante todo o episódio sem lhes darem os tão característicos zombies, os produtores precisaram de criar uma história bem cativante, combinada com um bom elenco que lhe desse vida. A verdade é que conseguiram fazer ambas as coisas de forma excecional.

Logo de início somos apresentados à personagem de Frank DillaneNick Clark (num estilo muito semelhante ao de como conhecemos pela primeira vez Rick em The Walking Dead), um jovem com problemas de drogas, que acorda numa igreja abandonada e começa a procurar a sua namorada. Claro que quando a encontra ela é uma zombie, como se pensassem que nos iam apanhar nesta!

De seguida conhecemos o núcleo familiar do jovem: a sua mãe Madison Clark (Kim Dickens), a sua irmã mais nova Alicia (Alycia Debnam-Carey) e o seu padrasto Travis Manawa (Cliff Curtis). Percebemos logo que existe uma certa tensão entre Alicia e Travis, ou melhor, mais da parte da jovem, que parece não aceitar muito bem o companheiro da mãe. E é aqui que esta série já se está a diferenciar. Damos por nós a deixar já os zombies (que por esta altura do episódio ainda não se fizeram sentir em força) em segundo plano, para nos focarmos numa narrativa bem humana e até comum do quotidiano dito normal. A família Clark poderia bem ser qualquer família que nós conhecemos, um grupo de pessoas que teve alguns contratempos na vida (mal sabiam eles o que estava a chegar).

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E é esse um outro ponto interessante em assistir a uma prequela de The Walking Dead: apenas o espetador sabe realmente o que está por vir! Nós sabemos que o mundo vai ficar destruído, que a civilização como a conhecemos vai acabar e que a causa de tudo será o aparecimento de mortos-vivos. Mas mais ninguém sabe (sem ser o rapaz com espinhas que foi ao gabinete de Madison, esse parece ter lançado as cartas e já vinha com informação privilegiada).

O que isso provocou foi uma experiência curiosa ao longo de todo o episódio. Sempre que havia momentos de suspense ou longas caminhadas em corredores, estávamos sempre à espera que saltasse duma porta um zombie esfomeado que, quase de certeza, ia apanhar a sua vítima, visto que ela não fazia ideia do que estava à sua frente. Por momentos, relembrou-me um daqueles bons filmes de terror em que, mais do que o susto, é o suspense que tem protagonismo.

A transição que a história faz lá para o meio do episódio, quando os primeiros vídeos de incidentes começam a surgir e a “realidade” se começa a misturar com a “ficção”, é também merecedora de destaque. A minha reação, caso visse uma gravação de um infetado a ser baleado várias vezes e mesmo assim a permanecer de pé, seria exatamente igual à de Alicia: “Isso tem de ser falso“. Hoje em dia é tão fácil alguém criar um vídeo com bons efeitos especiais e colocá-lo no Youtube, que acaba por ser refrescante ver que esse traço da sociedade moderna, esse instinto de pensarmos duas vezes antes de acreditarmos no que vemos na internet, está bem presente no desenrolar da narrativa.

Todos sabemos o que são zombies! Afinal, desde a reinvenção que tiveram na década de 60 com George A. Romero, estes monstros asseguraram o seu lugar na lista de ícones culturais do universo cinematográfico e televisivo. Mas já seria muito “à filme” vermos Alicia, Madison, Nick e as restantes personagens a exclamarem simplesmente: “Sim, de certeza que são zombies, não há outra explicação possível“. Mais um ponto para o brilhante equilíbrio entre realidade e fantasia.

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Então sim, digo que foi una estreia meia viva, meia morta. Mas, dessa forma, foi um sucesso completo. Elisabeth Vincentelli, do New York Post, escreveu uma crítica onde realça que Fear the Walking Dead é um grande exemplo do “quão eficaz um ritmo lento e uma atmosfera assustadora podem ser”. Os críticos estão conquistados e o público, esse aderiu em massa, garantindo um recorde de audiências para uma estreia em televisão a cabo, com mais de dez milhões de espetadores.

Foi assim o início de Fear the Walking Dead, a prequela mais desejada desde Better Call Saul. Com um bom elenco capaz de carregar uma história convincente, este spin-off prova que, com um equilíbrio entre diálogo e ação, não precisa de viver na sombra de nenhuma outra série.

Nota final: 9/10