Apesar de ter vivido há mais de 200 anos, a nossa autora do mês, Jane Austen continua bastante atual. Se à primeira vista as suas obras podem parecer compostas apenas por histórias de amor, a verdade é que (tendo em conta as condicionantes do tempo em que viveu) estas abordam também temas mais complexos, tais como a igualdade da mulher e a importância do conhecimento.

É esta junção de romance com reflexões de cariz mais social que faz com que Austen continue a influenciar o mundo moderno e que as suas mensagens continuem adequadas aos nossos dias. Mostrar-te-emos algumas em seguida:

1) A ironia é, por vezes, a nossa melhor amiga.

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A heroína de Orgulho e Preconceito, Elizabeth Bennet, é uma das personagens mais adoradas pelos leitores de Jane Austen. Dotada de uma inteligência sublime, quando perguntam a Lizzie sobre quando soube que estava apaixonada por Mr. Darcy, esta respondeu: “Nem sei por onde começar, mas acho que foi quando vi pela primeira vez os seus lindos campos de Pemberley”. Ainda que estivesse verdadeiramente apaixonada por ele, Elizabeth vivia numa sociedade dominada pelo status quo e onde os casamentos eram meras trocas de interesse.

Desta maneira Lizzie respondeu de acordo com o expectável, fazendo referência aos bens materiais de Mr. Darcy cobiçados por todos e todas e à primeira situação em que recusou os seus avanços por não o conhecer. Assim, demonstrou que um comentário irónico na altura certa pode ser o suficiente para enganar os menos atentos (e inteligentes) e que esta é uma forma muito mais simples e engraçada de sair deste tipo de situações.

2) Há uma diferença entre ser teimosa e lutar por aquilo em que acreditamos. Uma nunca devemos deixar de fazer. A outra é teimosia.

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Se há temática recorrente nas obras de Jane Austen é a de que as decisões e as escolhas das mulheres devem ser tão respeitadas quanto as dos homens. As personagens principais têm sempre um ponto de vista do qual não abdicam, mesmo que este seja o oposto daquele que é partilhado pela maioria das pessoas que as rodeiam (algo que acontece muitas vezes).

Em Mansflied Park, Fanny é acusada de ingratidão por recusar casar com o filho do seu tutor. No entanto, graças à sua superioridade argumentativa e uma grande clareza mental, até o seu tutor acaba por concordar consigo, o que mostra que a luta pelos nossos valores é algo inaliável, que se for feita com moderação dará bons frutos.

3) Mudar não é necessariamente mau, ainda que por vezes seja mesmo necessário.

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Nos mundos criados por Jane Austen, aqueles que se guiam pela vaidade e pela futilidade não conseguem o que querem. Mr. Collins em Orgulho e Preconceito não consegue fazer a mulher dos seus sonhos –Elizabeth Bennet – apaixonar-se por ele e acaba por casar com uma amiga sua por comodidade, não chegando a ser feliz. John Willoughby de Sensibilidade e Bom Senso casa por dinheiro em detrimento do amor, o que o faz sofrer e repensar a sua decisão. Já no final da mesma obra, Marianne Dashwood, deixa a superficialidade de lado para acolher tanto a sensibilidade como o bom senso. A mudança de Marianne mostra que uma transição deste género é imensamente benéfica para a felicidade de um indivíduo.

No entanto, mesmo as heroínas não são perfeitas e têm que colmatar as suas falhas. Elizabeth Bennet quase perde Mr. Darcy, o homem que ama, devido ao seu orgulho, algo que a faz moderar esta sua característica. No caso de Emma, esta personagem tem que amadurecer o suficiente para se tornar numa pessoa melhor e mais compreensiva.

4) Só faz falta quem nos faz bem.

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Em A Abadia de Northanger, Catherine Morland apercebe-se de que Isabella Thorpe a está a manipular. Esta personagem acaba por trair a sua confiança, agindo de maneira desonesta. Ainda que a descoberta a magoe, Catherine não deixa de cortar laços com Isabella, uma vez que uma pessoa que a usa não é uma verdadeira amiga.

Infelizmente, as amizades por interesse continuam bastante atuais e nesta obra Jane Austen aproveita para enaltecer o verdadeiro valor da amizade, fazendo ver às suas leitoras que por mais que gostemos de alguém, temos que saber o nosso valor e afastar pessoas de má índole.

5) Dar segundas chances não é sinal de fraqueza.

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Uma das grandes temáticas de Orgulho e Preconceito, é a de que por mais inteligentes que sejamos, todos estamos sujeitos a fazer falsos juízos sobre alguém. Todos já tivemos primeiras impressões erradas sobre uma pessoa, seja por opiniões de terceiros, ou por julgarmos alguém através de um ato isolado. Nesta obra Elizabeth vem a descobrir que Mr. Darcy, um homem cuja fama era a de ter modos desagradáveis, é, na verdade, uma pessoa cuja companhia a apraz tanto que ela acaba por apaixonar-se por ele.

Da mesma forma que ao longo da sua obra Jane Austen fala da descriminação dos menos ricos, aqui fala-nos do preconceito em relação aos mais ricos, mostrando que é algo inerente à condição humana. Todas as pessoas têm falhas e qualidades. É apenas necessário deixar que estas os mostrem.

6) Nem sempre sabemos o que é melhor para os nossos amigos.

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Em Emma, a protagonista desse mesmo nome tenta ser cupido de muitas pessoas, inclusive da sua melhor amiga, Harriet. Esta encontra-se profundamente apaixonada pelo agricultor Robert Martin. No entanto, Emma pensa que este é bastante inferior à sua amiga e tenta que Harriet se apaixone por outra pessoa “mais indicada”.

Apesar de Robert não ter tido o mesmo tipo de educação que Harriet, a verdade é que o amor que os une revela-se forte e inabalável. Emma aprende a aceitar esta relação, compreendendo que o mais importante é a felicidade da amiga. Esta história dá-nos uma lição sobre não nos impormos na vida dos que mais gostamos, ainda que pensemos que estamos a agir conforme os seus melhores interesses.

Artigo atualizado às 20h15 de 26 de agosto.