Tudo tem um fim e a edição de 2015 do Vodafone Paredes de Coura conheceu o seu embalado por alguma chuva e pelo som delicado de Banda do Mar, Natalie Prass, Woods e Lykke Li. Mas a potência de Fuzz, Temples e Ratatat também espantaram os aguaceiros.

Existe um mito festivaleiro de que em Paredes de Coura chove sempre. Como todos os mitos, é um pouco exagerado mas a verdade é que o dilúvio de 2012 ainda está na cabeça de muitos e quem é prevenido ruma ao festival minhoto com vestuário e calçado apropriado para a chuva, não vá S. Pedro tecê-las.

Este ano, foi na tarde do último dia do festival que uma chuva miudinha começou a cair, afastando do rio os festivaleiros, que necessitaram de procurar o conforto dos cafés da vila ou arranjar técnicas variadas para se protegerem dos aguaceiros.

Foi com Banda do Mar que a chuva mansinha que caía resolveu ir embora e alguns raios de sol se puseram sobre o anfiteatro de Coura, de forma a marcar a despedida dos luso-brasileiros da tour que os levou a apresentar o seu disco de estreia nos quatro cantos de Portugal. Com a cumplicidade sobejamente conhecida entre Marcelo Camelo e Mallu Magalhães, Hey Nana, Mais Ninguém ou Muitos chocolates foram cantados pelo público rendido à pop delicodoce que iniciou de forma bonita a última noite do Vodafone Paredes de Coura.

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No Palco Vodafone.FM, quase imitando a beleza e riso inocente de Mallu Magalhães, Natalie Prass estreava-se em território português para apresentar o seu primeiro disco. Frágil no seu calção-macacão rendado, empunhou a guitarra e colocou a voz para uma das mais belas surpresas do palco secundário. Se em Your Fool parecia ainda um pouco tímida, após Never Over You começou com uma jam cantarolando “It’s party time in Portugal” e conectou-se com o público.

Fazendo lembrar por vezes St. Vincent ou Sharon Van Etten, foi em temas como It is You ou My Baby Don’t Understand Me que se sentiu que estamos perante um nome a ter debaixo de olho. “Casa comigo, Natália” ouvido no meio do público, demonstra que podemos muito bem estar no início de uma relação de amor entre Natalie Prass e o público português.

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De volta ao Palco Vodafone, os Woods, que nessa tarde tinham tocado no Quartel de Bombeiros Voluntários no âmbito das Vodafone Music Sessions em formato acústico, ligaram a amplificação e os temas harmoniosos de With Light and Love (de 2014) ganharam distorção sobretudo no potente tema final Moving To the Left, aperitivo fabuloso para a aceleração que os Fuzz mais tarde proporcionariam no palco secundário.

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Antes de voltar ao rock n’roll, foi o duo electropop Sylvan Esso que fez transbordar o Palco Vodafone.FM com os beats de Nick Sanborn e a performance de Amelia Meath. Energia, ritmo, sensualidade, festa, foram partilhadas na tenda que uma vez mais foi pequena.

No palco principal os Temples tinham mostrado também como se faz rock à la anos setenta. De lantejoulas, James Bagshaw levou-nos com a sua voz para florestas encantadas onde poderíamos encontrar Noddy (o baixista Thomas Walmsley parecia a célebre personagem adorada pelos mais pequenos) e outros seres mágicos. Pena que este ano a estrutura do palco principal não tenha sido deixada aberta da parte de trás para ter como cenário natural o arvoredo das margens do Taboão.

Sun Structures – o até agora único disco de estreia e que já haviam mostrado no NOS Alive – é luminoso e encantado e leva-nos a uma agradável viagem pelo espaço. O tema que dá nome ao disco, Colours to Life, Sand Dance ou Mesmerise são recebidas com exaltação pelo público. Enquanto se aguarda um novo trabalho, Henry’s Cake, com um cheirinho a Lucy in the Sky With Diamonds, foi apresentada ao público courense.

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Para os Fuzz, projeto do pequeno génio Ty Segall (na bateria e na voz) a tenda não foi pequena, foi minúscula. Por todo o lado o mosh, crowdsurfing e headbanging consonantes com a contagiante energia emanada do palco e agora sim, com uma atitude rock n’roll merecedora de aplauso. O concerto mais físico do festival estava vivido e quando na vila os habitantes dizem “vamos ao rock” é disto que falam, minha gente.

Com um cenário bem distinto, o palco principal foi entretanto para receber um dos nomes especiais desta edição. O regresso a palcos portugueses de Lykke Li deixou muita expetativa em muita gente, ainda para mais que a artista anunciou que faria poucos festivais nesta tour.

Foi de negro que se enfeitou o palco e foi de negro que ela e os músicos que a acompanhavam se apresentaram para tocar os temas sombrios da carreira da artista que conta com três discos de estúdio, especialmente I Never Learn de 2014.

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I Never Learn e No Rest For The Wicked definiram a toada melancólica que havia de marcar o concerto. Com o som excessivamente baixo e a voz de Lykke Li a não sobressair ao excelente desempenho dos músicos que a acompanhavam, destaca-se a performance da sueca que falou muito bem português, a cover de Drake Hold On, We’re Going Home e a despedida de palco após uma hora certinha ao som de Don’t Let me Down, dos Beatles.

Com a difícil tarefa de fechar o palco principal do festival, subiram ao palco os Ratatat. Uma banda de dois elementos sem letras, sem refrões, sem singles conhecidos por todos e que tinha à prova um desafio difícil mas que superou largamente. Para tal contribuiu não só a originalidade e qualidade das suas músicas mas também o fabuloso espetáculo visual e de luzes que contribuíram para um ambiente festivo e mesmo alucinante.

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Chream On Chrome, Wildcat ou Shempi já mesmo a terminar foram momentos arrepiantes na noite fria e com chuva que quis cair de mansinho mas que a música afastou. Um encore foi fortemente pedido, mas sabendo sair em grande, os Ratatat não voltaram. A mensagem “Obrigado!! Voltamos em 2016 de 17 a 20 de agosto” apareceu no ecrã. No rosto de muitos há uma certa incredulidade. Será porque os Ratatat não voltaram ou porque Paredes de Coura chegava ao fim?

 

Fotos de Cátia Duarte Silva